
Segunda Xícara
Quando o amor insiste em atravessar o tempo.
— Mas o que é isso? Como isso é possível?
Era sexta-feira, 17 de janeiro de 2022. Uma manhã comum de verão, ainda silenciosa em Juiz de Fora. O céu trazia aquele tom pálido típico do calor prestes a explodir, e os sons da cidade ainda bocejavam.
Drake desceu até a cozinha, como fazia todas as manhãs: calado, em paz, meio no piloto automático. Os chinelos arrastavam-se pelo chão frio, e o cheiro do café fresco já preenchia o ar como uma companhia antiga.
Mas naquela sexta, ao se aproximar da mesa onde sempre tomava seu café, algo o parou no tempo.
Ali, ao lado da sua xícara habitual, repousava uma segunda xícara.
E não era qualquer uma.
Era branca, de borda fina, com o cabo sutilmente desgastado. E carregava uma marca de batom cor vinho, bem no canto. Uma presença. Uma assinatura. Um rastro.
Drake ficou imóvel.
— Eu não trouxe ninguém aqui… — murmurou, mais pra si do que pro mundo. A voz saiu baixa, como se não quisesse acordar algo que talvez estivesse dormindo ali.
Ele morava sozinho há anos. Suas manhãs eram ritualmente idênticas: preparar o café, sentar-se ao canto da mesa, escrever em silêncio. Um modo quase litúrgico de existir.
E durante toda a semana, só havia ele. Sempre ele.
Mas agora…
Uma nova xícara.
E uma marca que ele reconhecia.
“Mina.”
O nome invadiu sua mente como uma rajada de perfume.
Um perfume doce e intenso, inconfundível — o perfume dela.
O peito de Drake se apertou com uma força antiga, como se aquela lembrança estivesse apenas aguardando uma brecha no tempo para retornar.
Mina havia falecido em 2015. Um acidente estúpido. Um capricho do destino. Uma dor que nunca saiu de cena — apenas se calou com o tempo.
Drake, atônito, se aproximou da xícara. O ar ao redor parecia mais denso.
Sentiu o cheiro.
Sim, era ela.
Aquilo era dela.
Em vez de lavá-la, apenas a colocou sobre a pia, com delicadeza. Como se apagar aquela marca fosse trair algo mais fundo. Como se o tempo tivesse deixado um bilhete, e lavá-lo fosse rasgá-lo.
Com o coração acelerado e a mente dispersa, foi direto ao banheiro. Precisava respirar. Precisava processar.
No banho, deixou a água cair sem pressa. Tentou pensar em outra coisa — qualquer coisa. Contou os ladrilhos. Lembrou de um trecho de música. Imaginou a brisa no parque. Mas tudo levava de volta a ela.
Ao sair, enxugando-se diante do espelho embaçado, sentiu um calafrio.
E então a viu.
Mina.
Ali, no reflexo, atrás dele.
Sorrindo.
Um sorriso calmo. Como se nunca tivesse ido.
Drake arregalou os olhos, o ar faltando. Mas não gritou.
Seus olhos se encheram de tudo que ele nunca disse, e de tudo que já havia se resignado a esquecer.
Mina continuava sorrindo, suave.
Drake tentou se mover, se virar.
Mas antes que pudesse, o reflexo sumiu.
Assim. Num sopro.
Ele permaneceu ali, ofegante, com o corpo gelado e o coração latejando.
Lentamente, voltou para a sala. Sentou-se no sofá.
Olhou para o nada.
E pela primeira vez em muito tempo…
…teve medo de estar são.
Pegou o celular.
As mãos ainda trêmulas. Os dedos frios.
Desbloqueou.
Notificações comuns. Atualizações de aplicativos. Um lembrete qualquer. O nome de uma farmácia. Propagandas automáticas.
Mas então…
Parou.
Entre os avisos, havia algo impossível.
Uma notificação de Mina.
“Amor, liga para mim com urgência — (32) 9xxxx-xxxx.”
Drake parou de respirar por um segundo.
O coração disparou. A cabeça girava.
E Mina…
Mina havia morrido em 2015.
Drake olhou fixo para a tela.
As mãos suavam.
O nome… o número… a mensagem.
Tudo ali. Tudo real.
Sentiu as pernas formigarem. Precisou encostar-se no encosto do sofá.
Respirou fundo.
E discou.
O telefone chamou uma, duas, três vezes…
Na quarta, atendeu.
— Amor…? Ai, que saudade, amor!
A voz era dela.
Doce. Familiar. Intacta.
— Eu preciso muito te ver, amor.
Me encontra no parque da Moca?
A gente sempre amou estar lá…
Você lembra disso, né, meu amor?
Drake tremia.
Aquela era a voz de Mina.
Cada sílaba carregava uma memória.
O primeiro beijo na escadaria do museu. O piquenique no parque. As risadas às duas da manhã no sofá, assistindo programas ruins só para estarem juntos.
Mas…
Como aquilo era possível?
Ele se sentia confuso.
Mas forçado a responder. Como se algo maior o puxasse.
— Sim, meu amor… — disse, fechando os olhos.
O coração disparava como se buscasse fugir de dentro dele.
— Eu me lembro. E vou, sim, te encontrar.
— Ah, como é bom te ouvir de novo…
Me sinto tão emocionada.
Pode ser… quantas horas são?
Drake olhou o visor.
— São… 12h20.
— Então… você não demora a chegar, né?
Pode ser às 13h30?
Drake engoliu em seco.
— Claro que pode, meu amor.
Às 13h30 estarei no parque da Moca.
O silêncio do fim da chamada foi como um golpe.
Drake desligou o aparelho.
E caiu no choro.
Não era só emoção.
Era o peso. O medo.
O terror de que a vida estivesse lhe pregando uma peça…
Daquelas que a alma não se vê preparada para suportar.
Chorou como quem quebra.
Como quem não esperava reencontrar o que já tinha aprendido a sepultar.
Quando finalmente conteve o pranto, levantou-se com a respiração entrecortada.
Foi até o quarto.
Abriu o armário sem pressa. Como quem escolhe não apenas uma roupa — mas um fragmento de memória.
Pousou os olhos sobre o jeans surrado.
Aquele que ela dizia deixar ele “com cara de artista perdido”.
Escolheu também a camisa dos Ramones, a preferida dela. Era quase uma relíquia — o tecido desbotado, a gola um pouco folgada, mas ainda viva de tantos verões.
Por fim, calçou o sapatênis preto de base branca.
Ele não se olhou no espelho. Não quis.
Tinha medo de ver alguma coisa que o desmentisse.
Como quem se vestia para um último pedido de desculpas — ou um reencontro que ninguém acreditaria.
Desceu os andares do prédio antigo, de fachada gasta, tomado por janelas cansadas.
Os corredores exalavam um cheiro de madeira envelhecida e produtos de limpeza baratos.
A cada passo, a mente de Drake era atravessada por lembranças que não pediam licença.
O som de Mina tocando a campainha pela primeira vez.
O dia em que ela esqueceu um brinco no sofá.
As brigas sussurradas no elevador, e as reconciliações abraçadas no hall.
Mas nada ali era mais antigo — nem mais presente — que Bob, seu Maverick 1978, reluzente e ainda cheio de vida.
O carro esperava na vaga como um cão leal.
Drake passou a mão sobre o capô com carinho.
O calor da lataria parecia um abraço.
Entrou.
O banco de couro chiou sob seu peso.
Ele ajustou o espelho, como sempre fazia.
Ligou o carro.
E por um instante…
a cidade pareceu tão silenciosa quanto seu coração.
O motor rugiu baixo, grave, como se soubesse para onde iam.
A ansiedade tomava conta de Drake, que dirigia com leveza.
Os olhos atentos, as mãos firmes — mas o pensamento, longe.
O Parque da Moca não ficava tão distante.
Era um trajeto conhecido, quase automático.
Mas ao entrar na rua onde ele deveria estar…
…algo não batia.
Mas ao entrar na rua onde ele deveria estar…
algo não batia.
A calçada parecia estreita demais.
Os postes estavam numa posição estranha.
As casas… ele conhecia algumas, mas os tons das paredes estavam trocados. Como se alguém tivesse apertado o botão “misturar tudo” numa lembrança antiga.
Drake parou o Bob.
O carro bufou suave. O motor ainda ronronava, como um animal grande e paciente.
Drake olhou ao redor, tentando captar alguma lógica.
Não era a rua certa.
Confuso, observou os detalhes.
O número da casa amarela era 412, mas ele se lembrava de ser 418.
A banca de jornal da esquina… tinha desaparecido.
Estava numa rua lateral.
Um desvio estranho. Involuntário.
Religou o carro.
O ronco grave do Maverick atraiu olhares. Alguns pedestres viraram o rosto, como se reconhecessem o som, mas não soubessem de onde.
Ele contornou à direita — certo de estar voltando ao caminho correto.
Mas, antes de completar a curva, um policial surgiu do nada, surgindo na pista como um personagem mal posicionado no meio de um sonho.
— Meia-volta, senhor. A rua está interditada.
A voz foi firme, mas sem raiva.
Drake quis perguntar algo.
Quis dizer que precisava passar.
Mas apenas assentiu, como se tivesse aceitado o comando de um guardião da lógica.
Mais um obstáculo.
Mais um desvio.
Drake, perdido, parou o carro outra vez.
Pensou em ligar para Mina.
Pensou mesmo.
Mas duvidou.
Tremeu.
Resolveu contornar o quarteirão mais uma vez.
Engatou a marcha. Virou à esquerda.
E então… parou.
Ali estava.
A rua do seu prédio.
Como…?
O caminho que deveria levá-lo ao encontro…
o trouxe de volta à origem.
Bob desacelerou como se soubesse.
Como se dissesse: não há como ir adiante se você ainda não voltou.
Parou o carro no acostamento.
Inspirou fundo.
Sentiu a vista escurecer.
Como quem vai desmaiar.
Seu corpo se desligava.
Fora de rede.
Silêncio.
Não muito distante dali, no Hospital do Coração,
um ar-condicionado antigo sibilava, intercalando os ruídos com o bip das máquinas e o som abafado dos passos nos corredores.
Mina segurava as mãos de Dona Lurdes.
Os dedos entrelaçados, firmes, como quem sustenta o mundo por um fio de calor humano.
Oswaldo e Marta — o pai e a irmã de Drake — estavam ao lado.
Nenhum deles falava.
As orações haviam se tornado silenciosas. Eram feitas com os olhos fechados e a alma aberta.
Era o quarto dia de coma.
E a família Forza mantinha a fé:
que Drake voltaria.
Que o milagre viria.
Chamavam assim — “o milagre.”
Mas talvez, dentro dele,
Drake já estivesse buscando a saída…
…ou um último abraço.