Quanto tempo vale um último abraço?
Era manhã, e a cidade era Castle Diamond — abril de 1980.
Manson Latroi — 45 anos, aposentado por invalidez —
estava em uma pequena viagem, visitando a famosa Cidade das Águas,
conhecida por suas fontes minerais e seu ar leve de montanha.
Naquele momento, Manson se encontrava na estação principal da cidade,
aguardando o trem que o levaria de volta para Castle Diamond.
Mas havia algo estranho naquela manhã.
A estação, geralmente cheia de turistas e moradores locais,
estava misteriosamente vazia.
Não havia vozes, nem passos, nem o som familiar dos trilhos.
Manson olhava ao redor com inquietação — para um lado, para o outro na esperança de encontrar alguém.
Mas não havia ninguém.
O que ele viu, no entanto, foi algo que nenhum outro homem esperaria ver:
Um trem se aproximava. Mas não era feito de ferro,
não possuía o peso bruto dos trens comuns.
Era um expresso etéreo — translúcido, belíssimo e impossível.
Sim, Manson não estava louco.
O que se aproximava era um trem espectral,
com luzes suaves que pareciam piscar em outra dimensão,
em um ritmo que tocava mais o espírito do que os olhos.
Seus olhos brilharam.
Havia um desejo em seu peito que ele nunca havia sentido —
um impulso quase carnal, como se aquele trem carregasse algo que sempre lhe pertenceu.
O trem parou diante dele. A porta se abriu com leveza,
como se o tempo se dobrasse por um instante.
E então, ela surgiu…
uma maquinista encantadora, vestida com um uniforme antigo e elegante,
mas com olhos que pareciam compreender mais do que uma vida inteira de palavras.
Ela estendeu a mão.
Um sorriso sutil, persuasivo, irresistível.
Manson não hesitou.
Subiu no Expresso das Almas.
O coração de Manson batia rápido.
Mas não de medo — era excitação pura, ancestral,
como se estivesse cruzando a fronteira de um sonho que já tivera antes,
em outra vida, em outro tempo.
O ar dentro do trem era diferente.
Nada de óleo queimado ou ferro aquecido, como nos trens comuns.
Ali, o cheiro era leve, envolvente: um misto de incenso antigo,
madeira molhada e um toque fresco de hortelã selvagem.
Os vagões pareciam infinitos.
Não havia janelas, mas nas laterais, imagens flutuavam em constante movimento:
lembranças borradas, cenas de vidas que talvez nunca tenham sido vividas,
ou talvez ainda fossem viver.
As poltronas eram enormes, convidativas,
revestidas por um tecido tão suave que parecia sussurrar ao toque.
E mais do que isso — mudavam de cor, conforme o humor de quem se sentava.
A maquinista seguia adiante, em silêncio.
Seus passos não produziam som algum,
como se o chão do vagão apenas aceitasse sua presença
sem precisar anunciar sua passagem.
Manson a seguia, como hipnotizado.
Algo nele sabia que aquele caminho não tinha volta,
mas mesmo assim, cada passo era inevitável.
Ela parou diante de uma porta prateada.
A superfície era lisa e fria, com símbolos em relevo
que pulsavam.
A mulher virou-se, seus olhos brilharam suavemente:
— O que você perdeu… está além desta porta, senhor Latroi.
Mas saiba: ao reencontrá-lo, parte de você ficará lá.
E o tempo… não perdoa empréstimos.
Manson engoliu seco.
Sentiu um calafrio que não vinha do frio,
mas daquilo que mora entre o mistério e a saudade.
Mesmo assim, assentiu.
A porta se abriu com um sopro gelado.
E ali estavam seus pais.
Vivos.
Sorrindo.
Exatamente como ele se lembrava deles
na última manhã antes da partida.
Manson correu sem pensar.
O coração saltando no peito, os braços abertos.
O abraço foi como mergulhar na infância.
A dor, suspensa.
O tempo, parado.
— Filho! — disse a mãe, emocionada — Como você está bem!
Que orgulho de você querido!
Mas havia algo em Manson. Um brilho úmido nos olhos:
— Mas mãe… o trabalho!
Ele abaixa a cabeça, com um ar pesado.
— Não foi o corpo que me afastou. Foi o peso das coisas. A cabeça… ela não acompanhou o tempo. Eu… eu precisei parar, minha mãe.
A mãe o apertou mais forte.
— Isso não muda nada! O orgulho pelo homem que se tornou não está vinculado a trabalho, meu amor!
Seu pai e eu estamos tão felizes por te rever.
Como foi que conseguiu isso?
— Eu esperava o trem comum…
Mas então, do nada, surgiu esse… esse expresso espectral.
E algo nele me puxou.
Me atraiu com uma força que eu não conseguia resistir…
E agora… agora eu vejo… como fui abençoado!
O pai apareceu por trás, com os olhos marejados:
— Filho, isso tem um custo…
Converse bem com a maquinista.
Esses expressos cobram caro. E com tempo de vida viu!
Mas antes, me dá mais um abraço, vai…
Que saudade, seu velho sente!
— Pai… meu coração se alegra.
Eu sinto falta demais de vocês.
E então… a sirene.
Um som cortante, altíssimo, vindo de todos os lados.
— Mãe?! Pai?! O que é isso?
O que essa sirene quer dizer?
A mãe olhou para ele, segurando seu rosto com doçura:
— Corra, meu amor.
O Expresso está partindo.
O seu tempo conosco… acabou.
— Mas eu amo vocês!
Não me importa o tempo de vida…
Estar com vocês – valeu por vários anos de vida.
Mas o trem o esperava.
E ele correu de volta.
O Expresso das Almas o aguardava com a porta aberta.
Manson entrou, e tudo se apagou.
O tempo dentro do trem não era como o de fora — era outro.
Horas? Minutos? Um instante? Ele nunca saberia.
Quando se deu conta.
estava de volta.
Manson desceu do Expresso das Almas em silêncio.
A estação estava como antes…
vazia, quieta, mas agora o ar era mais espesso, quase parado.
Ele caminhou com passos lentos, como se seu corpo carregasse algo a mais,
algo invisível, mas imensamente pesado.
Era como se parte dele tivesse ficado naquela porta prateada.
Olhou ao redor, tentando entender o tempo que se passara.
Seria possível viver tanto em tão pouco tempo?
Seguiu em direção à cafeteria próxima à estação.
Entrou, pediu um café.
A garçonete o encarou duas vezes antes de anotar o pedido.
— Está tudo bem com o senhor? — perguntou, com gentileza.
Manson demorou a responder.
Só entendeu a pergunta quando viu seu reflexo no espelho sobre o balcão.
Ali estava ele. Mas não o mesmo.
Havia fios brancos em seu cabelo — muitos.
Os olhos… tinham um peso novo, uma profundidade que nem ele reconhecia.
A barba carregava tons prateados, e suas mãos pareciam mais finas,
mais frágeis.
Ao levantar a xícara, percebeu: as articulações doíam.
Tinha envelhecido. Uns dez anos, talvez.
Por uma manhã com seus pais.
Mas não havia arrependimento.
Nem lamento.
Uma lágrima escorreu sem resistência.
E, com ela, uma certeza:
— Valeu a pena.
Manson terminou o café. Pagou.
Voltou para a estação da Cidade das Águas —
a única da cidade.
Precisava pegar o trem para Castle Diamond.
Dessa vez, viu mais pessoas.
Rostos. Barulho. Movimento.
Respirou aliviado.
Sentia-se cansado. O corpo pesava mais que o costume.
Mas havia uma decisão plantada em seu peito:
— Amanhã, começo a correr.
Cinco voltas na Praça do Gavião Azul.
Três quilômetros. Vai me fazer bem.
O Expresso Limeira se aproximava.
O trem comum.
Manson embarcou. Sentou-se.
E ali, com o corpo mole, deixou a mente voar novamente.
Pensou nos pais.
Pensou nos abraços.
Mas um novo pensamento se formava, com mais força:
— Eu posso voltar à Cidade das Águas…
Posso tomar o Expresso das Almas de novo…
E ver… Elisa.
Esse pensamento martelava sua mente com fúria delicada.
Ele nem percebeu o tempo passar.
Logo, já estava parando na estação do Rio doce, em Castle Diamond.
De volta à sua casa.
Manson retirou as roupas com cuidado, como quem lida com um corpo novo ou melhor, velho demais para o que estava acostumado.
Entrou no banho.
A água escorria quente, mas não era capaz de afastar o pensamento:
Elisa.
Era como se cada gota d’água escavasse mais fundo a vontade de revê-la.
Ele tentou se concentrar em algo simples — preparar algo para comer.
Mas enquanto pegava os talheres, cortava o pão, esquentava o chá…
ela ainda estava lá.
Na mente. No peito. No ar.
“Se eu for até Elisa… voltarei um idoso com certeza”, pensava.
“Mas eu quero tanto vê-la…”
A noite chegou como um peso —
sem cerimônia, sem aviso.
E o cansaço, como um velho amigo, o empurrou para a cama.
Manson se jogou e adormeceu.
Foi um sono fundo. Merecido, tranquilo…
Pela manhã:
Manson acordou.
Levantou-se devagar.
Preparou sua vitamina de morangos,
e saiu em direção à Praça do Gavião Azul.
Pelo que sabia, a praça tinha 600 metros ao redor.
Com cinco voltas, iniciaria seus primeiros 3 km de corrida.
E assim ele fez.
Chegou à praça, aqueceu o corpo e começou a correr…
Praça do Gavião Azul — manhã, 08:40.
Manson terminava a quinta volta.
Suava. Respirava com esforço.
Mas sorria.
O corpo estava cansado.
Mas a mente… mais viva do que nunca.
— “Eu ainda posso.” — pensava.
— “Mesmo com tudo, eu ainda posso correr.”
Reduziu o passo. Os joelhos doíam mais do que no dia anterior.
Foi caminhando devagar até um dos bancos de madeira sob as árvores.
Foi então que viu o homem.
Sentado sozinho.
De chapéu. Paletó claro.
Sapatos limpos demais para uma praça de interior.
O tipo de pessoa que parece estar ali há horas…
ou que talvez… nunca tenha realmente chegado.
O homem levantou os olhos lentamente.
Manson sentiu um calafrio que não vinha do vento.
— A corrida foi boa, Manson?
Manson parou.
Não respondeu.
Só o nome dito por um estranho já bastava para disparar o coração.
O homem sorriu.
Não tinha dentes.
Mas o sorriso era bondoso. Não zombeteiro.
— Elisa perguntou se você vem mesmo.
Silêncio.
Manson não conseguia se mexer.
— Ela disse que você gosta de morangos.
Que sempre bate vitamina gelada pela manhã.
E que, se estivesse mesmo pronto…
iria notar o banco da praça onde ela costumava sentar
quando ainda estava por aqui.
Manson olhou ao redor.
Era aquele banco.
Era ali.
Elisa gostava da sombra da árvore do canto sul.
As pernas vacilaram.
Ele se sentou ao lado do homem.
— Quanto custa? — perguntou, quase num sussurro.
O homem olhou para frente, como quem observa uma locomotiva invisível
atravessando os prédios da cidade.
— Mais uns 20 anos. Talvez mais.
Mas…
Ela te espera.
Cabelo solto. Vestido azul.
Aquele que você comprou em 68
e achou que ela nunca usaria.
Manson ouviu, se despediu do homem.
Saiu.
Mas sua mente começava a torturá-lo.
— “Se você for… vai voltar um idoso, Manson.”
Tentou desviar os pensamentos.
Mas eles voltavam. Como fantasmas.
Imaginava-se com bengalas.
Curvado.
Dependente.
Isso doía mais que os joelhos.
Era o coração em carne viva.
Ele queria muito estar com Elisa.
Um último beijo.
Seu coração o pressionava a ir.
Sua mente o torturava com o custo.
— O que fazer?
Manson sentia que estava perdendo a sanidade.
Aquele dia passou em silêncio.
Sofrido.
Entre o coração e a mente.
A noite caiu como uma bola de boliche atirada pela janela.
Manson se deitou.
Respirou.
Respirou fundo.
E, por uma dádiva, conseguiu adormecer.
— Elisa, meu amor…
No sonho, Elisa estava lá.
Com os olhos brilhando e os braços estendidos.
— Manson, meu amor! Venha! Me abraça…
Eu não aguento mais de saudade!
Ela estava do outro lado.
A margem do Rio Negro separava os dois.
Ele não pensou duas vezes.
Se atirou na água.
As águas eram escuras, geladas, e mais pesadas do que qualquer rio real.
Mas o desejo…
Ah, o desejo era mais forte.
— Amor! Venha pra mim! Eu te amo! — ela gritava do outro lado.
Mas Manson sentia seu corpo falhar.
Não tinha forças.
As mãos não puxavam, os pés não batiam.
Estava afundando.
A idade se cravava nos ossos.
A juventude havia ficado na margem.
— Alguém… alguém me ajuda!
Por favor!
O grito não foi ouvido.
Foi engolido pelas águas escuras e frias.
E então… ele acordou.
Com os braços erguidos, como se ainda lutasse para nadar.
O corpo suado. O rosto molhado. O peito arfando.
Mas estava vivo.
No quarto.
No mundo real.
Respirou fundo.
Se levantou.
Preparou sua vitamina de morangos.
Tomou devagar.
E pensou, com uma calma que doía:
— Nada… nada me tira da cabeça que eu preciso ver Elisa.
Vestiu-se.
Se arrumou – vestiu roupa e calçados.
E correu para a estação de Castle Diamond.
Lá, comprou o bilhete.
Destino: Cidade das Águas.
No trem, enquanto o tempo escorria pela janela,
ele refletia:
— Vinte anos a mais me deixarão com setenta e cinco…
Eu posso conviver com isso.
O que importa agora… é vê-la, e estar com Elisa.
O trem cortava vales e serras,
mas Manson já não via a paisagem.
Via apenas um vestido azul dançando na memória.
E um sorriso que o chamava para o outro lado.
A Estação da Cidade das Águas, final da manhã.
Manson desceu do trem comum, o Expresso Limeira.
Dessa vez, havia movimento.
Homens com malas, crianças correndo, mulheres lendo jornal.
Tudo parecia normal — mas Manson sabia:
Nada era normal.
Não depois de ver o que viu.
Não depois de sentir o que sentiu.
Ele caminhou até o mural de horários.
Olhos varrendo a madeira velha e os papéis amarelados.
Nada.
Nenhuma palavra. Nenhuma indicação.
“Expresso das Almas” não estava lá.
Mas ele sabia que viria.
Ele sentia.
Sentou no mesmo banco da primeira vez.
No canto. Aquele que parecia esperar por ele.
Fechou os olhos.
Minutos. Horas.
O tempo dissolveu.
E então, um som.
Não vindo dos trilhos.
Mas de dentro dele.
Um sussurro etéreo que crescia devagar, como um eco do além.
A neblina surgiu, rasgando a realidade.
O trem apareceu outra vez — lento, belo, trágico.
A porta se abriu.
Ela estava lá. A mesma maquinista.
O mesmo olhar que atravessava peles e máscaras.
— Segunda viagem, senhor Latroi?
Manson sorriu. Estava cansado. Mas decidido.
— Estou pronto.
Ela estendeu a mão.
— Elisa o espera com o vestido azul.
Ele entrou no Expresso sem medo.
Já conhecia o frio. Já conhecia o custo.
Mas o amor… o amor ele não conhecia por inteiro.
Do outro lado da vida:
Elisa o aguardava.
Cabelos soltos. Vestido azul.
Os braços abertos.
O mesmo sorriso que ele jurava ter esquecido — mas nunca esqueceu.
— Meu amor! — disse ele. — Quanto tempo! Quanta saudade!
— Eu sabia que você viria, meu amor!
Sempre soube.
Se abraçaram como quem cola dois mundos rachados.
Se beijaram como quem pede ao universo uma trégua no tempo.
E o tempo… parou.
Manson a olhava como um menino olha sua primeira estrela cadente.
— Que vontade de não voltar, amor…
De ficar com você aqui. Para sempre.
— Seria tudo de mais lindo, meu amor…
Mas sabemos que não é possível.
A sirene soou.
Forte. Cortante. Inadiável.
Elisa segurou seu rosto.
Seus olhos tremiam, mas ela sorria:
— Corre, amor. Corre.
Você precisa voltar.
Manson a olhou como quem tenta gravar o infinito em um segundo.
Depois se virou.
O Expresso das Almas o aguardava.
A maquinista o cumprimentava com um leve aceno.
— Bem-vindo de volta, senhor Manson.
Ele entrou.
Se sentou.
E adormeceu.
Na Cidade das Águas, o Expresso das Almas se apagava como uma bruma.
Manson despertou com um leve toque da maquinista.
— Chegamos, senhor Latroi.
Ele abriu os olhos, murmurou um “obrigado” quase sem voz
e desceu.
O mundo parecia mais lento.
Mais pesado.
Mais distante.
A estação, agora iluminada pelo sol de final de tarde,
estava cheia de vozes, malas e vida.
Mas Manson só via o caminho até o outro trem.
O corpo doía. As pernas vacilavam.
Ainda assim, ele caminhou até o embarque.
Precisava voltar para Castle Diamond.
O trem comum chegou.
Ao entrar, algo aconteceu:
Pessoas se levantaram.
Sem dizer nada, apenas se levantaram, oferecendo o lugar.
E naquele gesto, Manson entendeu.
Estava visivelmente velho.
A visão estava turva.
A respiração, curta e difícil.
No trajeto, tentou manter a consciência.
Mas sua mente girava entre imagens:
o sorriso da mãe, o beijo em Elisa, o trem se desfazendo no éter.
Quando o trem parou em Castle Diamond,
Manson desceu.
Ou tentou.
Porque os joelhos não sustentaram.
Ele caiu.
Se esborrachou no chão da estação como um saco de ossos e lembranças.
Três homens mais jovens correram até ele.
Com cuidado, o ergueram e o levaram até um dos bancos.
Um deles sacou o celular e chamou emergência.
O serviço de saúde chegou rápido.
Manson foi colocado na maca, com máscara de oxigênio, olhos semiabertos.
Hospital São Miguel – 18:10.
Manson estava em repouso.
Conectado a fios, monitores e tubos.
Mas seus olhos… estavam abertos.
Fixos na janela.
E lá fora, ele jurava ter visto —
mesmo que por um segundo —
um trilho do Expresso das Almas cortando o céu cinza da cidade.
O médico entrou no quarto com passos contidos.
Trazia uma prancheta.
E um rosto treinado para parecer neutro,
mas que não conseguia esconder o peso do que carregava.
Ao lado da cama, uma enfermeira jovem segurava a mão de Manson.
— Senhor Latroi… — começou o médico, em tom baixo.
— Recebemos os resultados dos seus exames.
Fizemos as imagens do crânio, dos pulmões…
Também avaliamos seu sistema imunológico.
Pausa.
Silêncio.
— Encontramos sinais avançados de desgaste neurodegenerativo.
Seu coração está extremamente enfraquecido.
E seu sistema linfático… está reagindo como o de um paciente de noventa e cinco anos.
Manson apenas fechou os olhos.
E… sorriu.
O médico hesitou, depois continuou:
— Estimamos que o senhor tenha entre seis meses e um ano de vida.
A enfermeira apertou levemente sua mão.
Os olhos dela estavam marejados.
Manson respirou fundo.
Abriu os olhos.
E disse, com um leve sorriso:
— Eu a vi.
Ela me esperava com o vestido azul.
E… ela sorriu.
O médico nada entendeu.
A enfermeira, sim.
Ela não disse nada, mas seus olhos brilharam.
Naquele instante, mesmo sabendo da morte,
Manson se sentiu pleno.
Porque antes de morrer, ele foi amado.
E antes de partir, ele voltou.
Quarto 212 — Hospital São Miguel — uma semana depois.
Manson já não falava muito.
A voz se apagava devagar, como vela que não apaga pela chama,
mas pela base, pelo cansaço de sustentar.
Mas ele ainda escrevia.
Ao lado da cama, repousava um caderno antigo,
de capa preta, bordas gastas,
com cheiro de lembranças velhas.
A cada manhã, Manson rabiscava algo.
Palavras soltas. Frases curtas.
Pedaços de pensamentos que ninguém entendia —
exceto ele.
Ele não escrevia para ser compreendido.
Escrevia para não se apagar.
Na última página, com a letra trêmula e lenta, ele deixou:
“Na primeira viagem, o preço foi dez anos… e eu aceitei sem pensar.
Agora, o espelho me devolve um homem de noventa e cinco.
Quarenta anos… em uma única manhã.
E, ainda assim, eu iria outra vez.”
Naquela manhã, a enfermeira entrou.
A mesma que segurava sua mão.
A que compreendia o que os outros não viam.
Ela se aproximou.
Viu o caderno.
Viu Manson com os olhos fechados, respiração mansa.
Ao lado da cama, repousava um pequeno bilhete dobrado.
Papel antigo.
Letra dourada.
Ela o pegou, abriu com cuidado.
“Expresso das Almas
Viagem nº 2
Passageiro: Manson Latroi
Status: Retorno efetuado.
Saldo restante: 0”
A enfermeira fechou os olhos por um instante.
Depois, olhou para ele.
Manson sorriu —
sem abrir os olhos.
E naquele fim de tarde,
na cidade cinzenta de Castle Diamond,
uma brisa fria atravessou as janelas do hospital.
E por um breve segundo…
Um som distante cortou o silêncio —
trilhos chorando,
como se anunciassem o fim de uma vida.
🖋️ FIM
Para quem quiser dizer algo que não cabe em silêncio
Deixe um comentário