O Apartamento 1503


Quando um cheiro, pode romper as barreiras da sanidade.

Caio Moreti sentia a ansiedade vibrar no peito. Sua mais recente conquista era mais do que um bem material — era um sonho cultivado desde que conseguira o emprego como escritor no jornal local Informações Relevantes da Cidade de New Source.

Naquela sexta-feira ensolarada, atravessou a cidade até a imobiliária para pegar as chaves do tão aguardado apartamento no Condomínio Residencial Nutshell.

Ao entrar na Rua Bela Vista, a fachada do edifício surgiu imponente, como um guardião silencioso, guardando histórias que ainda não lhe pertenciam. Estacionou o Corolla perto da padaria Prazer em Servir, comprou um bolo e seguiu para o novo lar.

Na portaria, foi recebido com um sorriso.
— Muito bom dia! Eu sou Caio Moreti. Adquiri um imóvel no décimo quinto andar e gostaria de saber…
— Ah, senhor Caio Moreti! Seja muito bem-vindo ao Condomínio Nutshell. Eu sou Orlando. Basta seguir pela rampa à direita e virar à esquerda no topo — lá estarão os elevadores. Qualquer coisa, é só me chamar no interfone.
— Muito obrigado, Orlando, de verdade. Tenho bastante trabalho pela frente.
— Imagino. Um abraço e parabéns pela conquista!
— Obrigado, Orlando!

Caio seguiu o caminho indicado e, diante dos elevadores, apertou o botão para o 15º andar. Quando chegou ao seu destino, parou diante da porta 1504 e, por um breve instante, sentiu um arrepio inexplicável. Ignorou o incômodo e abriu a porta. A visão do novo lar o encheu de gratidão.

O dia passou entre entregas de móveis e arrumação do espaço. À noite, tomou um banho e se jogou na cama, exausto.

Na manhã seguinte, preparou um café da manhã com frutas frescas. Enquanto comia, um som suave começou a vir do apartamento ao lado, o 1503. Intrigado, abriu a porta da sacada. Foi quando um perfume doce e arrebatador atravessou o ar, invadindo seus sentidos.

Apoiado na grade, observava as ruas como fios de energia pulsante, dançando num balé silencioso. Entre o som e o aroma, sentiu-se leve… quase feliz demais. Pensou em dizer olá, sentiu-se atraído, quase compelido a fazer contato, mas lembrou que tinha trabalho a fazer e desistiu — não definitivamente, mas naquele momento.

Caio entrou, pegou o notebook, acessou o jornal e passou o resto da manhã escrevendo sobre bem-estar. Por volta do meio-dia, preparou o almoço e, enquanto cozinhava, voltou a ouvir o som agradável vindo do apartamento ao lado.

Após comer e lavar a louça, voltou à sacada. Lá, o aroma estava ainda mais intenso… quase hipnotizante. Caio fechou os olhos para senti-lo melhor. Até que…

— Caio… — a voz doce, suave, quase angelical o chamou. Ele não hesitou.
— Oi, olá… com quem eu falo?
— Eu sou Lívia. Muito prazer, Caio!
— Lívia, prazer é todo meu. Preciso dizer: seu som e seu perfume… hipnotizantes, mulher. — Caio sorriu de forma contida.
— Fico feliz que tenha gostado! A música é Clair de Lune, de Debussy — coisa de 1905. — Já o perfume… é bom saber que apreciou.
— Você mora aqui há muito tempo? — Caio quis saber.
— Uns doze anos.
— Poxa… bastante tempo.

E ali, Caio e Lívia passaram o resto da tarde conversando como se já se conhecessem há anos. Quando a noite chegou, despediram-se. Lívia estava um pouco agitada, o que chamou a atenção de Caio — mas ele preferiu fingir que não percebeu.

Ainda assim, levou aquela sensação consigo noite adentro.
O que incomodara tanto Lívia?
Por que ela saiu daquela forma?
Perguntas que ele não poderia responder.

O restante da noite transcorreu sem grandes eventos. Caio preparou algo para comer e, depois, sentou-se à mesa para escrever. Gostava de criar contos e, naquele momento, estava prestes a concluir uma obra que chamara de O Expresso das Almas.

Por volta das 22h30, o perfume retornou, tirando-o do foco. Levantou-se e foi até a sacada.

Lá, ouviu novamente a voz suave e doce de Lívia, e um frio que chamou sua atenção.

Não estamos em época de frio… o que foi isso?”

— Caio, me perdoe por ter saído daquela forma… é que meu marido estava chegando.
— Entendo… não se preocupe comigo. — Ele sorriu, tentando disfarçar a pontada de curiosidade. — Sobre a tarde… foi incrível. Eu até me perdi no tempo.
— Você tornou meu dia mais feliz… obrigada por isso. Tenha uma excelente noite de sono, querido.
— Forte abraço, Lívia. Até amanhã.

Aquele resto de noite passou carregando a mente de Caio para longe, vibrando com o que Lívia o fazia sentir… e com o frio repentino que o havia envolvido na sacada — um frio sem vento, sem inverno, mas que o atravessara como se viesse de dentro das paredes. Nada, porém, que impedisse o sono de o abraçar e entregá-lo, gentilmente, aos braços do amanhecer.

Ao despertar, o cheiro entorpecente, maravilhoso e quase palpável de Lívia já invadia o apartamento, como um morador bem-vindo… ou um visitante que não pedia licença. Caio ergueu-se satisfeito, preparou café e cereais e sentou-se à mesa para trabalhar.

Naquela manhã, escrevia sobre a depressão para o Jornal Informações Relevantes.
Como no dia anterior, ao meio-dia preparou o almoço. Comeu, lavou a louça e, irresistivelmente, foi até a sacada.

Mal encostou na grade, e a voz de Lívia já o alcançava — uma melodia doce, com um tom de urgência.
— Caio… já estava ficando ansiosa, com receio de que não viesse. — A voz dela tinha algo de travesso, mas carregava um tom que ele não conseguiu decifrar.
— Eu nem conseguiria evitar… esse seu perfume atravessa meu juízo. — Ele riu, tentando manter a leveza.
— Você trabalha com o quê, Caio?
— Escrevo para o Jornal Informações Relevantes, comecei faz um ano.
— Nossa, que bacana! E você gosta? Sobre o que prefere escrever?
— Amo escrever. Para o jornal, faço o que pedem… mas o que realmente gosto são contos sombrios. — Caio deixou escapar um meio sorriso.
— Que incrível… — disse ela, a voz carregando um leve riso, quase cúmplice.
— Se quiser, crie uma conta no Medium. É uma plataforma para quem gosta de escrever… e lá você vai encontrar alguns dos meus contos. — Caio falou com entusiasmo contido.
— Com certeza… vou fazer isso. — respondeu Lívia, e Caio juraria ter sentido uma breve pausa na respiração dela, como se algo naquela ideia tivesse lhe causado surpresa.

Apoiado na grade da sacada, Caio respirou fundo. Foi quando o perfume voltou, atravessando o ar como uma presença invisível e íntima. Não era apenas um aroma: era um toque quente e delicado, que se infiltrava por cada fenda de atenção, dissolvendo qualquer outro pensamento.

Ele sentiu o corpo reagir antes mesmo da mente entender; uma confusão suave, perturbadora, quase como se alguém sussurrasse no ouvido dele sem emitir som algum.

O cheiro parecia ter peso, parecia ocupar o espaço. Não ficava parado — se movia, se acomodava nele, insinuando-se como quem sabe exatamente onde quer ficar.

Era doce, mas não infantil; denso, mas não sufocante. E havia algo ali… algo que não pertencia só ao mundo dos sentidos, como se aquele aroma carregasse memórias que Caio não lembrava de ter vivido.

— Lívia, seu cheiro me enlouquece.
— Você queria me tocar, Caio?
— Muito, você não pode imaginar o quanto…
— Eu também, Caio… quero muito tocá-lo, senti-lo… mas meu marido, Caio… nós nem podemos nos ver, quem dirá nos tocarmos. Eu queria muito também, e bem mais do que você possa imaginar… Mas sinto que não posso. Ele é capaz de coisas que você não imagina. Portanto, tire esses pensamentos da sua cabeça, Caio… pela nossa segurança.

Lívia desapareceu subitamente.
Caio quase a chamou, mas as palavras dela ficaram presas na sua alma. Frustrado, entrou em casa. A noite já havia chegado, trazendo com ela um aperto no peito.
Caio estava desorientado; em sua mente, só havia Lívia.

Aquela noite toda, Caio teve Lívia nos pensamentos.
Ele não sabia nem como ela era; sua mente inventava formas. Mas precisava dormir… Tentou técnicas de respiração, mas nada tirava Lívia de sua cabeça. Levantou, pegou um ansiolítico e tomou. Adormeceu.

Pela manhã, Caio acordou com a cabeça estranha, sonolento. Sabia que teria de escrever para o jornal. Preparou um café forte, se alimentou e sentou-se à mesa para trabalhar. O tema era o avanço da tecnologia.

Enquanto escrevia, ouviu barulhos: uma criança gritando, um casal conversando. Uma sensação estranha o tomou.
Levantou-se e foi até a sacada.

O som vinha do 1503. Uma criança falava com os pais.
Caio se sentiu perdido; girou o corpo, levou as mãos à cabeça, respirou fundo. Ao entrar novamente, notou que o ar do seu apartamento parecia… diferente. O perfume doce já não estava lá, mas um leve resquício, quase imperceptível, persistia — como se viesse de dentro dele, e não do ar.

Apertou os lábios, tentando ignorar a sensação, mas a inquietação se instalou. Decidiu falar com Orlando.

Caio desceu sem pressa, mas com aquela estranheza presa no peito.
Não havia mais o cheiro doce no ar, nem a música suave que atravessava as paredes.
No lugar, apenas passos apressados e vozes desconhecidas ecoavam pelo hall.

Encontrou o porteiro sentado na guarita, folheando um jornal velho.
— Sr. Orlando… quem são essas pessoas no 1503? — perguntou, tentando soar casual.

O velho levantou os olhos devagar, como se medisse o peso da resposta. Dobrou o jornal com calma e respirou fundo.
— Ah… o 1503… — disse, pausando como se buscasse as palavras. — Venderam por mixaria.

Caio franziu a testa.
— Venderam? Mas… e a moradora?

Orlando inclinou a cabeça, observando-o por um instante.
— Moradora? — a expressão se fechou. — O senhor não soube?

Caio sentiu o estômago apertar.
— Soube… o quê?

O porteiro apoiou os cotovelos no balcão, aproximou-se levemente e baixou o tom de voz, como se confidenciasse algo que preferia não repetir.

— Lívia Amaral… foi morta aqui mesmo. Pelo próprio marido. — Fez uma breve pausa, o olhar fixo em Caio. — Boatos dizem… mais de quinze facadas.

O ar pareceu rarear.
— Isso… quando? — a pergunta saiu quase sem som.

Orlando manteve o olhar firme.
— Dois anos atrás.

E, sem esperar reação, voltou a abrir o jornal, como se nada tivesse sido dito.

FIM🌼

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Para quem quiser dizer algo que não cabe em silêncio

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