Algumas feridas se tornam asas.
Era maio de 2022 — na cidade pacata de Kandor, o outono já se fazia um cidadão Kandorense. Tempo cinza, frio e chuvoso. Júlia Stralls — 25 anos — policial recém-chegada à cidade, estacionava seu sedã nas imediações da padaria Sonhos de Kandor.
— Nós já estávamos há um tempo sem ir no Tião, mas teve um dia que a Katarina ligou. Estavam sentindo nossa falta. Eu insisti, ralei pra convencê-lo a ir comigo. E nesse dia ele me disse… — Júlia engoliu em seco. — Disse que sentia vergonha de mim. Que estar ao meu lado o envergonhava.
Letícia olhou pra Júlia com uma expressão que misturava impotência e raiva.
— E você… não pensou em se afastar?
Júlia olhou para a janela. O vidro molhado parecia tremer junto com sua memória.
— Não. Eu sou uma policial. Ele era meu noivo. E o que mais me matava por dentro… é que eu ainda o amava. Você acredita nisso, Lê?
Letícia assentiu com um olhar triste.
— A pior coisa do mundo… é amar alguém que te quebra aos poucos.
Júlia segurou o capuccino, mas não bebeu.
— Depois da noite que passamos com o Tião e a Katarina, ele sumiu por dois dias.
Quando voltou… ele tava diferente.
Outro cheiro, outro olhar.
Tinha um corte no braço que ele disse ter feito mexendo nas colmeias.
E a barra da calça… com umas manchas de sangue.
Nada que provasse nada, sabe? Mas…
Eu não sei explicar, Lê. Foi só uma sensação.
Algo dentro de mim começou a incomodar.
Letícia franziu a testa, desconfortável.
— Amiga… isso tá muito estranho.
— Naquele momento, eu não sabia o que pensar, amiga. Estava completamente perdida.
— Eu não alcanço o seu incomodo amiga! Sinto muito de coração!
Letícia demonstra extrema empatia.
— Em um certo dia, quando ele voltou do trabalho… só por perguntar onde ele tinha estado, eu levei outro tapa. Chorei. E ele disse que eu era um peso. Que tinha me tornado um fardo. Que não sabia mais o que fazer comigo.
— Eu estava tão doente, amiga… que, naquela noite, depois de toda essa bizarrice, eu ainda fiz sexo com ele. — Júlia não se contém. Ela chora.
— Ei… ei… eu tô aqui. Se acalma, amiga… — Letícia a acolhe, abraçando com força, sem mais palavras.
— Depois do sexo… ele ainda disse: ‘Você só serve pra isso mesmo.’
Júlia engole em seco, os olhos longe.
— Eu até hoje me pergunto… como consegui dormir naquela noite.
Letícia se afasta um pouco, os olhos arregalados.
— Amiga… isso tá parecendo um conto de terror psicológico.
— O mais louco ainda… foi que, no dia seguinte, eu cheguei da delegacia… ele estava em casa. Quando entrei, logo senti um desconforto palpável vindo dele. Como se algo bizarro tivesse chegado ali. Eu passei por cima. Fui carinhosa. Chamei para irmos ao Tião e à Katarina e… ele me deu uma surra, amiga. Me deu socos. Gritava que eu era uma cadela. Que eu estava querendo ver o Eduardo. Nesse dia… até chutes ele me deu. Eu não fui à delegacia naquela semana. Não tinha como. Ele chegou a quebrar um dente meu com os socos.
Letícia arregalou os olhos. A mão que segurava o guardanapo tremia um pouco.
— Júlia… você…?
— Sim — ela limpou as lágrimas com as costas da mão. — Ele me deu socos. Vários. Me empurrou contra a parede. Quebrou um dente com um golpe. Me xingava. Me chamava de cadela… dizia coisas sem sentido. Como se eu tivesse feito algo. Como se eu o tivesse traído.
Letícia levou a mão à boca, o choque atravessando o rosto inteiro.
— E eu… eu nem consegui reagir. Fiquei ali. Tentando me proteger. Sentindo meu corpo se apagar aos poucos. Como se… eu estivesse deixando de existir. Como se fosse melhor sumir do que continuar ali.
— Você não foi à delegacia? — a amiga perguntou, a voz embargada.
— Como? Com o rosto inchado, o corpo marcado, o dente quebrado… Eu era a policial da 40ª DP. Eu era a mulher do apicultor exemplar. A mulher que ‘estava estranha’ há dias. Eu era o problema na cabeça de todo mundo. E eu acreditei nisso, por um tempo. Mas tem mais… eu o amava. E não queria problemas para ele.
Letícia apertou a mão de Júlia com força.
— Mas de alguma forma… eu levantei, Lê. Demorou, mas eu levantei. E quando ele desapareceu… eu já não era mais a mesma. Eu jurei que, se ele voltasse… se um dia eu o visse de novo… não ia ser mais a mulher que ele conheceu.
Um silêncio tomou conta da mesa. Lá fora, a chuva começava a engrossar.
— Você, por amor, ficou calada? E também por um certo orgulho? Seria isso?
Júlia assentiu.
— Eu não queria que ninguém olhasse pra mim com pena. Nem com julgamento. Eu precisava… entender. E me reconstruir. Cada pedacinho.
Ela respirou fundo, como quem segura algo há muito tempo.
— Mas aí… que a vaca foi pro brejo.
Letícia parece não acreditar.
— No início da semana seguinte, eu já recuperada, chego do trabalho… nada de Raphael em casa. Três dias fora. E quando chegou — não perguntei nada — mas não consegui deixar de reparar manchas de sangue na roupa dele.
— Naquela noite, não falei com ele. Ele entrou, se trancou no quarto do fundo e disse apenas: “Não suporto mais dormir ao seu lado.”
— Na manhã seguinte, meu celular tocou. Era a Katarina. Chorando. O Eduardo… foi encontrado morto. Coberto por folhas, como se tentassem esconder ele da própria cidade. Mais de quinze facadas.
— Aquilo me derrubou. Na hora, eu soube. Não tinha dúvida. O Raphael tinha matado o Eduardo.
Letícia arregalou os olhos, pálida.
— Amiga… isso é quase irreal.
Júlia se inclinou sobre a mesa. A voz era baixa, quase um sussurro:
— Eu me lembro do velório do Eduardo… Mas é difícil chamar de velório. Era como se
Kandor estivesse suspensa no tempo. As pessoas cochichavam entre si, evitando se encarar. Vi a Katarina cabisbaixa, com o Tião segurando firme sua mão. Eu quis me aproximar… mas não consegui. Não consegui encarar a dor deles com o meu rosto marcado… e a verdade presa dentro de mim. Eu me afastei devagar, me sentindo pior do que nunca. E naquele exato instante… foi quando decidi: aquilo não podia continuar. O silêncio não podia ser meu cúmplice. Não mais.
— Naquela noite, quando ele voltou, eu fui direto ao ponto. Perguntei: “O que você fez com o Eduardo?”
— Sem pensar duas vezes, ele me deu um soco. Fiquei grogue. Quando percebi, estava trancada no quarto.
— E então… ele soltou um enxame lá dentro.
Júlia treme.
— Foram os piores momentos da minha existência, Lê… As abelhas atacaram meu rosto.
Letícia, até então firme, arregala os olhos com força. A respiração dela fica entrecortada, como se o ar não encontrasse mais espaço dentro do peito.
Ela finalmente entende o que até então era apenas silêncio.
Ela entende o que tinha acontecido ao rosto da amiga.
— Eu havia me tornado um monstro, Lê. Chorava sempre que me olhava no espelho. Não fui ao velório do Eduardo. Isso me custou a amizade do Tião, da Katarina. Ainda espero um dia conversar melhor com eles. Na esperança de que entendam.
Letícia parece desmontada, mentalmente. Júlia continua:
— Eu ainda caí, amiga. Desci mais fundo. Certa noite ele estava tristonho, e eu fui acalentá-lo…
— Ele, tomado de uma raiva inexplicável, me tomou nos braços com força e brutalidade. Colocou um espelho diante dos meus olhos e disse:
— “Como eu faço pra ficar perto de você? Olha pra isso. Olha o que você se tornou, imunda.”
— Aquela noite, amiga, eu não dormi. Ele saiu de casa me chamando de monstro. E eu fiquei destruída. Mas foi chorando, buscando entender e refletindo, que eu decidi que iria prendê-lo por homicídio. Ele havia matado o Eduardo. Eu tinha guardado a calça dele — suja de sangue — e a faca que o imbecil esqueceu suja no bolso da calça.
— No outro dia pela manhã, fui até o antigo apiário. Uma parte sobrevivente ainda meio intacta. Manhã fria, chuvosa, como hoje. Fui porque além de estar determinada a prendê-lo, fui informada por um companheiro da polícia que Raphael tinha sido visto na região.
— Não avisei ninguém. Fui só. Com raiva. Com coragem. E com uma barra de ferro escondida na jaqueta do uniforme.
— Eu o encontrei entre as sombras. Ajoelhado. Sujo. Talvez delirando. Ou talvez fingindo.
— “Raphael.” — Ele vira lentamente. O rosto mais magro, o olhar… o mesmo.
— “Júlia… o que você veio fazer aqui? Aqui não tem nada pra você. Dê meia volta e saia por onde entrou.”
Silêncio.
Raphael se levanta lentamente, com a mesma calma com que cuidava das abelhas.
— Você matou o Eduardo e eu vim levá-lo para a cadeia — diz Júlia.
Raphael sorri, irônico.
— Não há provas — ele diz.
— Há o favo. — Há suas calças. — Há uma faca, com suas digitais. — Há o cheiro de sangue seco naquela caixa. — Há o seu sumiço. — E o mais claro de todos os indícios: as marcas de ferrão no corpo do Eduardo. — Você é tão asno que: você assassinou… e assinou.
Ele ri. Curto. Frio.
— Você vai me prender por isso, Júlia?
— Sim. Estou te dando voz de prisão.
Ele caminha até ela, devagar.
— Não vai fazer isso, meu amor, comigo?
E nesse instante, algo nos olhos dele brilha. Não é amor. É descontrole.
Raphael avança. Rápido. Instintivo. Animal.
Júlia, sem tempo pra pensar, ergue a barra de ferro com as duas mãos e…
CRACK!
Acerta em cheio o lado esquerdo do rosto. Raphael gira no próprio eixo, o corpo tomba como um saco de ossos.
Ela fica parada. Tremendo. O som da respiração dela preenche tudo.
Ela solta a barra.
Ela pisa nas costas dele.
Respira fundo, sentindo o próprio corpo vibrar entre o nojo, o alívio e uma fúria que nunca havia sentido antes.
Ela saca o revólver. Se agacha. Aproxima o rosto desfigurado de Raphael. Encosta o cano gelado da arma na nuca dele.
— Olha pra mim, seu escroto.
Ele tenta virar o rosto. Está consciente.
— Agora eu vou te matar. Seu nojento.
A voz dela não é um grito — é uma sentença.
— E você… vai morrer sozinho. Como viveu.
Dois tiros. Rápidos. Precisos.
O corpo estremece, depois silencia.
O sangue espirra no rosto de Júlia.
Ela não desvia. Passa a língua pelo lábio inferior, como se limpasse mel — e sorri.
Um sorriso que não pede desculpas.
Um sorriso que diz: “eu sobrevivi.”
Enquanto ouve tudo o que a amiga diz, Letícia sente um incômodo crescer.
— Como você veio, amiga… obrigada por tudo. Eu te amo. Você me devolveu a motivação, a vida. Eu posso me olhar no espelho! Eu jamais saberei como te agradecer por isso.
Letícia, com uma certa dificuldade, responde:
— Eu queria te guardar dentro de uma caixinha e cuidar de você, amiga.
As duas se abraçam. Com força. Com a intensidade que só uma amizade verdadeira pode carregar.
— Eu te levo pra casa.
As duas saem da padaria.
E Júlia… gigante. Renovada.
Pronta para viver.
Com intensidade.
Com amor, com leveza…
FIM♥️
Para quem quiser dizer algo que não cabe em silêncio
Deixe um comentário