As Gêmeas e o Rio Shaman


Nem tudo o que é perdido deve ser encontrado.

Naquela manhã de 24 de julho de 1991, o Rio Shaman, vasto, largo e imponente, estava peculiarmente diferente. Beth e Beatriz, as gêmeas, estavam por lá, fazendo um pequeno piquenique para relaxar, com as pernas imersas na água fria.

Elas vinham da pacata cidade de Stay Here, que, apesar de tranquila, era bastante desenvolvida. Forte na exportação de petróleo, a refinaria empregava boa parte dos habitantes e mantinha a cidade viva, funcionando em silêncio constante.

— Mana, você está sentindo a energia do rio hoje?
— Sim, Beth. Hoje ele está diferente.

As duas gargalham e tratam a estranheza do Rio Shaman com naturalidade, como se aquilo fizesse parte da paisagem.

— Hoje eu devo me encontrar com o Sham.
— Beth, mas você sempre falou mal dele… sempre o rejeitou. O que houve?
— Ele me deu bons argumentos para isso — diz Beth, sorrindo.
— Vai entender… boa sorte!

Beth então interrompe a conversa:

— Olha!
— O que será? Como brilha! — Beatriz se exalta.
— Não sei bem ainda… parece um buli — comenta Beth, empolgada.
— Será que o Shaman está nos trazendo um presente? Está, Shaman?

Nesse instante, Beatriz sente um leve movimento envolvendo suas pernas. Assustada, puxa-as rapidamente para fora da água.

— Bê, o que foi isso? — Beth percebe na hora.
— Algo pareceu envolver minhas pernas… como se quisesse me agarrar. Me deu muito nervoso. Não coloco mais os pés nesse rio — diz Beatriz, visivelmente incomodada.

— Ok… eu vou sair também. Vamos só pegar aquele objeto ali vindo. Quero levar pra casa.
— Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? Lindo ele é, mas…
— Sim, por que não seria? Ora bolas!

Embora idênticas, as irmãs carregavam diferenças gritantes: Beth, falante e impulsiva; Beatriz, silenciosa e introspectiva.

— Veja, Beatriz, que coisa mais linda! — Beth segura o buli nas mãos, recém-trazido pelo rio.
— Deixa eu pegar? — pede Beatriz, ansiosa.
— Espera… nossa, a textura… — Beth fecha os olhos em êxtase.

Num impulso, Beatriz arranca o objeto das mãos da irmã.

— O que foi isso, sua louca? — Beth se enfurece.
— Você não me deixava pegar!
— Tenha calma! Me devolve agora. Você nem estava querendo tanto assim!
— Que história é essa?
— Beatriz Moretti, me devolva o buli agora!

Beatriz respira fundo.

— Calma, mana… não é pra isso tudo. Toma. Não vale a pena brigarmos por causa de um buli.

Beth sente que passou do limite.

— Me perdoa, Bê?
— Claro… pega o buli. Está tudo bem. Vamos embora?
— Vamos.

No caminho de volta para casa, as duas se mostram encantadas com o objeto. A caminhada levaria cerca de quarenta minutos. Combinaram de se revezar: vinte minutos cada uma. No entanto, após pouco mais de dez minutos com o buli nas mãos, o objeto se tornava insuportavelmente pesado.

— Você é estranha, Beth. Mal queria me deixar pegar o buli, e agora está discutindo pra não carregar.
— Olha o peso disso, irmã!
— Não parecia tão pesado assim lá na margem…

Em casa, Beth lava bem o objeto, coloca-o dentro de uma panela grande com água fervendo e o deixa imerso.

Naquela noite, Beth deveria se encontrar com Sham, que, até então, não havia ligado.

— Estranho… o Sham não liga, não se manifesta… fico sem saber — murmura Beth.

Antes mesmo de terminar a frase, o telefone toca.

— Oi, Sham! Já estava achando que você tinha se esquecido de mim!
— Nunca, querida. Mas surgiu um imprevisto. Preciso ajudar meu pai… fica pra uma próxima?
— Claro. Vá ajudar seu pai. Tudo bem.

Beth desliga o aparelho, visivelmente abatida.

— Mana, o que houve? — pergunta Beatriz.
— Ele vai ter que ajudar o pai.
— Não fica assim… pelo menos ele se explicou.
— Verdade. Vou tomar banho. Posso ir na frente?
— Pode sim.

Beth entra no banheiro e se depara com outro inconveniente: o chuveiro não aquece a água. Mesmo assim, toma banho e sai reclamando.

— O chuveiro queimou. Água fria… se liga.
— Eita. Vamos ter que chamar o Alessandro. Ele resolve isso pra nós. Amanhã, pode ser?
— Claro. Eu já me banhei. Essa decisão é sua.
— Por mim tá até quente demais. Tudo bem. Amanhã eu ligo.

Beatriz entra no chuveiro e estranha… nada. Tudo normal.

Beth está abalada por causa do Sham, pensa.

— Não vi nada de errado com o chuveiro, Beth.
— Ué… sério?
— Sim. Tomei um banho normal.
— Então tô ficando doida. Vamos assistir alguma coisa juntas?
— Vamos. Que tal preparar uns lanches rápidos?
— Concordo.

Elas comem e vão para o sofá, procurando algo para assistir. Até que Beatriz se depara com mais um problema.

— A internet não está conectando. Você pagou a conta esse mês?
— Aff… não me lembro.
— Putz. Estamos sem internet.
— Nossa… uma coisa atrás da outra.
— Não vamos deixar nossa mente nos torturar, irmã. Você sabe como ela cria cenários. É chato, mas… vamos jogar cartas?
— Você está certa. Vou buscar.

Beth caminha até o quarto. Ao passar pelo corredor, sente algo — rápido, frio, impossível de explicar — como se o ar tivesse atravessado seu corpo por dentro. O coração dispara.

Ela corre para o quarto, abre a gaveta, procura o baralho… nada.

— Beatriz, vem aqui. Estou com medo.

— Medo de quê?
— Algo passou por mim no corredor. Meu coração acelerou. E as cartas sumiram.
— Que loucura… eu coloquei aí ontem mesmo.
— Mas não estão. Olha.

Beatriz confirma: o baralho não está ali.

— Que saco… e agora?
— Vamos sentar no sofá, ligar a TV e conversar — diz Beth, tentando ignorar o mau presságio.

Elas se sentam. Um sono pesado e anormal cai sobre as duas.
Uma tomba para um lado.
A outra, para o outro.

E aquele não era um sono comum.

— Bê… onde estamos?
— Não sei… mas isso me dá calafrios.
— É bizarro…

O lugar é cinza e frio. Árvores sem folhas cercam um rio de águas vermelhas, espessas como sangue.

— Olha aquele rio… que medo parece um rio de sangue!
— Tem algo vindo! — Beatriz exclama.
— Nossa! Está voando…
— Meu Deus…

A entidade se aproxima e pousa diante delas. Cabelos brancos e longos arrastam-se pelo chão. Olhos amarelos. Dentes grandes, tortos. Uma velha indígena as encara em silêncio.

Beth e Beatriz tentam falar, mas não conseguem. Algo arrancou suas línguas. O ar é pesado, insuficiente. A sensação é de morte iminente.

Elas acordam de repente, suadas, ofegantes.

— Você sonhou com isso? — Beth questiona.
— Sim… a velha… os olhos amarelos…
— Tivemos o mesmo sonho?
— Somos gêmeas… será que tem a ver? Estou com medo.

— Vou preparar um chá. Se acalma — diz Beth.
— Faz no buli. Ele está limpinho.

— Bê… que horas sentamos no sofá?
— Quase 19:30.
— Olha o relógio… são 03:33.

Nada fazia sentido.

A luz da cozinha começa a piscar. Beth corre e se agarra à irmã.

— O que está acontecendo?
— Calma… parou.

Beatriz vai até a cozinha.

— Beth… não tem nada aqui.
— Como assim?
— O buli está vazio. Sem água. Sem fogo.

Beth confirma.

— Isso passou dos limites.

Uma presença invade a casa.

— Você trancou a porta?
— Tranquei.

O ar fica gelado, denso.

— Estamos no sonho… — sussurra Beatriz.

— Vocês carregam aquilo que não lhes pertence.

A voz ecoa pela casa.

— Você fala do buli?
Razza tanga. Não pertence a vocês.

Beatriz respira fundo, pega o buli e caminha até a sala. A entidade surge: baixa, etérea, aflita.

— Isso nos pertence.

Beatriz coloca o objeto no chão. A entidade se desfaz sobre ele.

A luz da casa clareia. O som da rua retorna. O relógio marca 20:40. A internet volta.

— Então era isso…
— Era.

As irmãs se abraçam. Aprendem que objetos trazidos pelo Shaman não devem ser levados para casa.

A vida segue.
O ar é puro.
Stay Here respira novamente.

Obrigado por estar aqui. 🌹


fmostaros@icloud.com


Para quem quiser dizer algo que não cabe em silêncio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *