Algumas vozes não precisam de antena para encontrar você.
Naquela manhã chuvosa e cinzenta, Borges acordou assustado. Sonhara que os mortos o chamavam pelo nome.
Foi ao banheiro, lavou o rosto, preparou seu café e, enquanto bebia, lembrou-se de que precisava passar no Cemitério Colônia. Martha, esposa de Marcellus — um grande amigo de infância — havia falecido, e seu corpo estava sendo velado na capela 10.
Borges se apressou, pegou o elevador, desceu e caminhou até o cemitério, que ficava a poucos metros de sua casa.
No Cemitério Colônia, encontrou a capela e passou cerca de duas horas ao lado de Marcellus, tentando oferecer algum conforto. Na hora do enterro, porém, ficou mais afastado. Nunca se sentira bem ao ver caixões descendo à terra.
Após as orações, despedidas e procedimentos, decidiu tomar um café no bar do cemitério.
Ao entrar, deparou-se com um homem muito velho, de barba branca longa e voz grave, que o recebeu com uma frase inesperada:
— Os rádios disseram que você viria, Borges. E eles não estavam mentindo.
— Quê? Como você sabe meu nome?
O velho apenas moveu a cabeça em direção a uma enorme prateleira abarrotada de rádios — cada um mais antigo que o outro. Borges não entendeu nada, mas pediu o café. O homem entrou pelos fundos, desaparecendo atrás de uma porta escura.
Enquanto esperava, Borges observou a coleção. Não eram apenas aparelhos… eram relíquias. Objetos que pareciam carregar algo preso dentro deles.
Três minutos se passaram.
Então a porta rangeu de um jeito áspero, e uma figura em uma cadeira de rodas surgiu.
Borges ficou paralisado.
A pessoa era pálida — pálida de um jeito que não pertence aos vivos. Os olhos completamente brancos, fundos, imóveis… observavam-no.
Aquele olhar não parecia examinar seu rosto, mas algo mais fundo. Algo que Borges não conseguia esconder.
Tentou falar, mas a língua parecia pesada demais.
O cadeirante moveu-se com rapidez, virou-se de costas para Borges e encarou a escuridão de onde viera. Mas, antes de desaparecer por completo, girou apenas a cabeça lentamente — como se o corpo estivesse morto e o pescoço fosse a única parte viva.
Os olhos brancos encontraram os de Borges.
Uma última vez.
A cadeira avançou sozinha, deslizando para dentro da escuridão, sem que ninguém a empurrasse. A porta se fechou com um baque seco.
O torpor se quebrou. Borges respirou fundo, recobrou parte da sanidade e, sem tentar entender nada, saiu do bar.
Do lado de fora, a noite parecia errada.
O cemitério respirava. As cruzes pareciam mover-se milímetros. As sombras alongavam e encurtavam sem fonte real de luz.
Borges já não sentia que estava no mundo comum.
À distância, viu uma mulher caminhando em sua direção. Suas roupas pareciam deslocadas, como se viessem de um tempo que nunca existiu de verdade. Ao se aproximar — antes que Borges dissesse qualquer coisa — ela falou, com uma voz áspera e urgente:
— Eles não podiam ter feito aquilo. Não daquela forma. Não naquele momento.
E desapareceu.
Como se tivesse sido apagada da realidade.
O que eles não podiam ter feito? De que momento ela falava?
Borges tentou raciocinar, mas o pensamento escorria da mente como água entre os dedos. Precisava sair dali.
Correu.
Mas as pernas pesavam — como se mãos invisíveis agarrassem seus tornozelos.
Por um instante, desejou estar sonhando. Mas sabia, no fundo, que aquilo não era sonho.
Então viu uma porta acinzentada no meio do breu. Uma porta que não lembrava existir ali. A ansiedade sufocava qualquer razão.
Borges agarrou a maçaneta e empurrou.
A luz mudou.
— Por onde andou, Borges? Estamos aqui com seu café. Vai esfriar, rapaz.
— Estamos?
— Sim — respondeu o velho atendente. — Eu… e os rádios. Eles sabem mais de você do que imagina.
— Como assim? Me dá um exemplo sólido.
Um rádio antigo, com a etiqueta “1971”, estalou.
E de dentro dele surgiu uma voz assoprada, impessoal, vinda de um lugar que não deveria existir:
— Era setembro de 2005. Você queria ir ao Rio de Janeiro. Uma banda que você ama iria tocar. Estava tudo preparado. Mas sua mãe disse que não se sentia bem. Que precisava de você. Você achou que era invenção. Ficou. Com raiva. Achando que ela queria impedir sua ida.
Saiba, Borges… que não.
Ela sofreu por isso.
Ela nunca se perdoou.
Os olhos de Borges se encheram.
— Como… como isso é possível?
O velho sorriu — não com alegria, mas com o cansaço de quem carrega segredos demais.
— Eu disse, rapaz… meus rádios sabem das coisas. Sabem sobre o mundo, os vivos… e os mortos.
— Eles podem me dizer se, quando eu sair por aquela porta, vou ver de novo… aquilo lá fora?
O velho inclinou a cabeça.
Outro rádio, agora com a etiqueta “1977”, emitiu um som agudo e desagradável. Uma voz ainda mais estranha respondeu:
— Você acessou Sete Além, Borges Alasther. É bem provável que tenha saído do seu mundo e entrado em algo mais sombrio. Muito mais sombrio.
— Não sei por onde estive. Só sei que me senti inseguro demais.
— Você pode ir, rapaz — continuou o rádio. — Quando abrir essa porta agora, o dia estará lá fora, como quando entrou pela primeira vez. Algumas pessoas do enterro ainda estarão por ali.
Esteja mais consciente ao acessar certas portas.
E seja feliz.
O velho sorriu, orgulhoso dos rádios, como se fossem criaturas vivas.
Borges abriu a porta devagar…
E encontrou o sol.
Saiu do bar respirando fundo, reflexivo, sem entender exatamente o que os rádios queriam dizer com acessar portas.
Mas uma certeza carregava consigo:
Os rumores sobre o Cemitério Colônia eram reais.
“Não quero que ninguém da minha família seja enterrado aqui.
E, se algum amigo vier… que me perdoe.
Mas eu não volto mais a esse lugar.”
Obrigado por ler!📖
Para quem quiser dizer algo que não cabe em silêncio
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