Psicólogo de Heretic City


Uma Cidade Nublada, uma Mente Doentia…

Era manhã, e Heretic City estava nublada. O aspecto cinzento e denso fazia a cidade parecer uma entidade triste, que, em completo silêncio, observava os eventos se desenrolarem sob sua pele sombria e pesada.
Viver em Heretic City, para muitos, era como habitar o umbral em vida.

A pobreza era palpável. Ruas repletas de pedintes, sujas e a violência… ah, a violência.
Ela era um habitante, um senhor local, que insistia em reinar. E não demonstrava qualquer intenção de abandonar o trono.

Era 1º de junho de 1999.
Rohan Darcy Nezeu, psicólogo renomado, atendia pela manhã em sua clínica particular, no bairro Riviera, zona leste de Heretic City.
Seu foco eram pacientes com depressão profunda, traumas severos e histórico de automutilação.

Mas ali, naquela clínica, ele não tratava… ele caçava.
Coletava garotas para seus experimentos sombrios, bizarros e absolutamente ilegais.

Já procurado pela polícia de Heretic City há mais de um ano, seguia intocável.
E enquanto não era encontrado, seguia escolhendo…

Suas preferidas:
jovens. bonitas. quebradas.

Thalia Godoy, 22 anos, estudante de História, buscava ajuda para uma depressão que lhe fazia companhia há mais de dois anos.
E ela estava prestes a conhecer o lado mais doente do mundo que tentava compreender.

— Thalia, minha querida, que maravilha recebê-la! Muita gratidão por me encontrar…

Ele estende a mão como se fosse um velho conhecido. Mas o olhar… o olhar demorou segundos demais em cada detalhe do rosto de Thalia.

— Você encontrou o consultório fácil? Espero que sim. Heretic pode ser… hostil para quem anda perdida.

Thalia sorriu, sem saber por quê. Um sorriso por reflexo, do tipo que a gente dá quando não quer parecer frágil demais.

— Eu achei no mapa. É… foi tranquilo.

Rohan apontou para a poltrona de couro. Elegante. Escura. Inquietante.

— Sente-se. Me conte o que te trouxe até mim. Eu gosto de ouvir histórias…

E quando ela sentou, o ambiente pareceu fechar em volta. Como se as paredes estivessem mais próximas do que antes.

— Eu… senti uma sensação estranha. É isso mesmo?

— Sim, é isso mesmo. Você pode ir me contando sua história. E me diga: você se importa se eu for pegar algo ali atrás para nos auxiliar? Eu vou num pé e volto no outro…

Ele sorriu. Lento, era diferente… 

— Claro que não…

Thalia respirou fundo. Mas o ar parecia mais espesso agora.
Ele era muito gentil… mas algo nele dava vontade de esconder as mãos.

— Vá lá, está tudo bem…

— Pode ir falando que eu estou atento, querida…

— Então… minha vida sempre foi muito cinzenta. Sempre tive poucas amigas…

Rohan, fora de cena, preparava um entorpecente enquanto Thalia contava sua história.

— Meu relacionamento com minha mãe também sempre foi muito ruim, sabe?

— Sim, eu entendo. E até hoje esse relacionamento… pode-se dizer que não evoluiu em nada?

Antes que Thalia pudesse responder, ela é abordada por trás.
Rohan a submete a um lenço com entorpecente, e em fração de segundos, Thalia desmaia.

Rohan a ajeita na cadeira, para que não caia. Tranca a clínica, pega um saco de linho grande, cobre o corpo de Thalia, ajeita-o dentro do saco.
Então, com calma, pega Thalia pelos braços e sai pelos fundos da clínica, onde está sua Van.

Ele a acomoda com cuidado na parte de trás da Van…
Dá partida. E sai.

Rohan dirige por longos 75 km. Um sítio, isolado fora de Heretic, o aguarda.
Ele sai da estrada à direita e percorre mais uns 4 km por uma via de terra, até que um portão de granja se abre sozinho, revelando um caminho estreito.

Rohan passa pelo portão, avança até um celeiro antigo e para a Van.
Desce. Vai até a parte de trás do veículo.
Aplica algo na veia de Thalia, uma substância que mantém o corpo calmo, inerte.
Depois a pega no colo com cuidado e caminha até o centro do celeiro, onde, sob a serragem, está escondido um alçapão. Ele o abre, revelando uma escada que desce para um ambiente subterrâneo.

Lá embaixo… o horror.
O visual é medonho. Umidade escorrendo pelas paredes. O chão imundo, coberto de sangue seco e recente. E quatro garotas,  Larissa, Carla, Monique e Leandra, balançam inconscientes sobre estruturas metálicas parecidas com balanços.
Mas não eram balanços comuns: eram balanços espinhosos, torturantes.
O cheiro no ar é de morte. De carne ferida e medo impregnado.

Thalia seria a quinta.
Rohan ajeita o corpo da jovem no balanço que está vazio. Faz as conexões, pendura soro intravenoso em um suporte improvisado, introduz a agulha no braço de Thalia.

Em seguida, pega espinhos metálicos afiados e atravessa as palmas das mãos dela, fixando-as nas alças do balanço, como se estivesse se segurando por vontade própria.
O gesto é simbólico, cruel.

Depois, instala um capacete na cabeça de Thalia, com fios, sensores e conexões e liga tudo a um computador.
Ali, Rohan monitora relatórios comportamentais de todas as garotas. E agora, teria o de Thalia também.

Ele observa o gráfico por alguns segundos… sorri satisfeito.
Volta à superfície.

Lá fora, um rapaz o espera.

Trocam poucas palavras. Rohan entra na Van e retorna para Heretic City, como se nada tivesse acontecido.

Do outro lado de Heretic City…

Dantas e Patrícia estão tensos. Uma nova desaparecida aparece nos relatórios.

— Maldito computador! Diz Dantas, furioso, batendo três vezes no monitor.

— Se acalma, Dantas! Uma hora você vai quebrar esse computador, e aí quero ver se explicar pro Ferreira…

— Mais uma, Patrícia. Mais uma! — Dantas anda de um lado pro outro da sala, com sangue nos olhos.

— Eu sei… já vi. Thalia Godoy, 22 anos. Estudante de História. Trocou de psicólogo há pouco. —Ela suspira, engolindo seco. — Algo não tá certo nisso… tem algo de doente nessa história.

— Temos algum padrão?

— Meninas entre 20 e 23 anos… cursando humanas, talvez…

— O que temos? Fala pra mim, Patricinha linda…

Patrícia cerra os olhos e encara Dantas.

— Você é um folgado, isso sim.

— E você fica ainda mais linda assim, bravinha…

— Leandra, 21 anos, estuda Psicologia.
Larissa, 20, História.
Carla, 23, Sociologia.
Monique, 23, também Psicologia.
E agora, Thalia, 22, História.

— O que será que esse cara tá querendo…? Tô ficando doido com esse caso.

— Todas têm problemas psicológicos.

— Leandra?

— Depressão.

— Larissa?

— Depressão também.

— Carla?

— Foi espancada pelo pai por anos, desde criança.

— Que porra é essa?

— Relaxa, o pai tá preso há uns seis anos já…

— Fico feliz! Continua, amorzinho…

— Monique, depressão. Boatos de que a mãe dela… bom, dizem que já dormiu com metade de Heretic City.

— Comigo, garanto que não… ele sorri, sarcástico.

— Não brinca com isso, seu ogro!

— E Thalia?

— Depressão. Há dois anos.

— Porra, Patricinha… então é isso. Todas com histórico psicológico. O cara deve ser um psicólogo, um terapeuta… talvez até um psiquiatra.

— Vou pedir pro Cardoso levantar uma lista com todos os psicólogos, psiquiatras e terapeutas de Heretic City.

— Isso. E fala pra aquele filho da mãe não demorar.

Patrícia sorri de leve, lança um olhar por cima dos ombros e pisca para Dantas antes de sair da sala.

Outro canto de Heretic City…

Verônica Brasas, 23 anos, estudante de Psicologia, buscava ajuda para os traumas acumulados ao longo dos anos.
Problemas com os pais, especialmente com o pai, arrastavam-se desde a infância. E aos 23 anos, tudo aquilo ainda queimava dentro dela.

— Muito bom dia, Verônica! Que maravilha recebê-la! Diz Mauricio, sorridente, de jaleco branco e olhos, trazendo aquele ar intelectual… 

— Obrigada, Mauricio.

— Teve problema pra nos encontrar?

— Nada… joguei no aplicativo, e até que foi tranquilo.

— Meu anjo, pode se sentar ali… Mauricio aponta para a cadeira de couro escura, pesada.
Verônica se senta.

E imediatamente é assolada por uma sensação estranha, como se o espaço ao seu redor estivesse diminuindo.

— Nossa… que sensação esquisita…

— Está tudo bem, meu anjo. Todo mundo que senta aí diz a mesma coisa. Responde Mauricio, com um sorriso gentil… demais.

— Sem problemas…

— Pode ir contando sua história pra mim, meu anjo. Eu só vou ali atrás pegar algo que me auxilia por aqui. Pode continuar falando, estou ouvindo…

— Então… eu nunca tive paz dentro de casa, sabe?

Mauricio nem esperou que ela entrasse na segunda frase.
Rapidamente, já está atrás dela com um lenço embebido em entorpecente.
Sedou Verônica, ensacou o corpo e, como num ritual bem ensaiado, levou-a para a Van.

O trajeto foi idêntico: estrada, curva, portão da granja.
Mauricio a leva para o subsolo do celeiro. Lá, um dos balanços ainda está vazio.

Ele faz as instalações: soro na veia, mãos transpassadas com espinhos, o capacete com fios.
Tudo pronto.

No entanto… Verônica murmura algo. Abre os olhos.

Mauricio se assusta.
Sem pensar, dá um murro forte no rosto dela, que desmaia novamente.

Ele conclui as conexões.

Mauricio termina com a sexta garota, sobe à superfície e se encontra com o mestre:

— Como ela está? Fez as instalações?

— Sim, fiz. As seis estão desacordadas.

— Você não deixou rastro nenhum, né?

— Claro que não!

— Eu vou pra cidade. Fique aqui e cuide das garotas. Assim que puder, volto.

Nezeu entra na Van e parte rumo à cidade.

Outro ponto de Heretic City…

Gisele Albuquerque, 21 anos, estudante de Psicologia, depressiva há um ano, entra na estatística que o predador gosta.

Rohan já a colocou dentro do saco, posicionou na Van…
Mas algo o incomoda.

A porta traseira da Van não está devidamente fechada.
Ele para, desce e vai até a traseira para ajustar.

Coincidentemente, Dantas, caminhando a pé na mesma rua, vê a movimentação suspeita.

— Patrícia! Ele sussurra, chamando a atenção dela. — Tem algo estranho ali…

Patrícia consulta rapidamente o local.

— É uma clínica de psicologia. Vamos!

Eles correm na direção da Van.
Rohan percebe. Entra no veículo e arranca com pressa. A Van canta pneus, chamando ainda mais atenção.

— Pat, deixa comigo! Vai buscar o carro! Me pega na porta da clínica! Vai!

Patrícia sai correndo, atravessa a rua, para o trânsito com a credencial policial em punho.
Sobe no Jeep Cherokee e sai em disparada para resgatar Dantas.

Minutos depois, ela encosta e Dantas entra.

— O que você viu? — pergunta ela, dirigindo rápido.

— Senti que é ele, Pat. O nome é Rohan Darcy Nezeu, psicólogo.

— Você viu pra onde ele foi?

— Pegou a estrada. Por ali. Entra na BR-267. Acelera essa porra.

Patrícia mete o pé. A Cherokee responde, rasgando o asfalto.

Lá na frente, Nezeu já está em contato com Mauricio, via rádio.

— Tem dois policiais me seguindo. Faça o que combinamos…

Mauricio ouve.
Na encruzilhada do Km 79, ele posiciona uma carreta da Volvo, carregada de toras pesadas, pronto pra intervir.

— Jogue o caminhão sobre eles se for preciso. Eu passo direto e você atrasa os dois. Fica atento.

Na perseguição…

— Patrícia, olha lá! É ele! É o filho da puta! Acelera, mulher!

— Tô no máximo aqui, Dantas!

A Van de Nezeu acelera. Patricia emparelha.  Estão praticamente colados.

— Lá na frente… tem um caminhão parado, tá vendo?

— Sim! Mas deixa ele. Nosso foco é o Nezeu!

No instante em que a Viatura se aproxima do KM 79, Mauricio com a carreta carregada, arranca de lado, de repente. Ele colide com a lateral da viatura.

O Impacto foi brutal…
A Cherokee capota. É arrastada por metros.
Dentro dela, Patricia e Dantas ficam desacordados.
Mauricio, embora ferido, consegue sair do caminhão.

Ele não pensa duas vezes.

Sabe que a entrada da granja está a alguns metros dali.
Começa a correr, deixando um rastro de sangue pela estrada… 

Na central…

Os policiais, sem resposta da viatura de Dantas e Patrícia, começam a rastrear a localização da Viatura via GPS.

Uma equipe de apoio com resgate e reforço é enviada imediatamente para a BR-267, altura do KM 79.

Luca e Marianne agora, substituindo os policiais acidentados. 

Estão em outra viatura, seguem na cobertura.

Na estrada, encontram a Cherokee capotada.

Patrícia e Dantas estão vivos, mas feridos e inconscientes.

A equipe médica faz o resgate. Luca observa o chão…

— Marianne… tem muito sangue na estrada. Sangue fresco.
O desgraçado tá ferido. E isso é ótimo. Acelera… 

Eles seguem o rastro de sangue pela estrada, que os leva até a entrada de terra.

— Na terra, o sangue fica difícil de ser identificado. Diz Marianne.

— Não tem problema, é por aqui eu tenho certeza disso Loira. 

No subterrâneo do celeiro… 

Agora são sete meninas.

Choram, fracas, com a dor martelando por dentro e por fora.

Nezeu está aplicando mais uma dose de sedativo em Thalia, mas algo dá errado.

Ela consegue morder o braço dele com toda a força que ainda tem.

— Aaargh, sua vaca! — Nezeu grita. A seringa cai.

Nesse instante, Mauricio chega, sangrando.

— Mestre, sou eu! Eu consegui! Eu consegui!

— O que é isso? Nezeu logo se espanta e percebe a merda que Mauricio faz. —Você se machucou, seu merda?! Seu bosta! Você nos arruinou, seu desgraçado!

— O que foi que eu fiz, mestre? Eu fiz o que você mandou! Matei os policiais!

— Você veio pingando sangue pra cá, seu imbecil! Eles vão chegar aqui em MINUTOS, seu idiota!

Poucos quilômetros dali…

— Luca, olha isso! Tem sangue pra caralho. E não acaba! 

— Ele tá fudido. E isso é ótimo pra gente.

— Mesmo na terra o sangue tá aparecendo, maravilha loira! vai! Vamos atrás desse rastro.

— A terra atrapalha um pouco, mas olha isso… tá fresco ainda.

Marianne e Luca avançam pela trilha que serpenteia entre os arbustos, acompanhando as manchas de sangue, que hora aparecem hora não.

Até que avistam, à distância, a casa da granja.

— Lá, Marianne! É lá!

— Arma pronta? Grita Marianne.

— Sempre. Fica atrás de mim. Vamos devagar…

No subterrâneo…

Thalia, ainda grogue, ouve passos sobre o celeiro.
Reúne forças e grita:

— Aqui… por favor… a voz mal sai, mas é o suficiente.

— Você ouviu isso? diz Marianne, olhando em volta.

— Sim. Tá vindo debaixo…

Mauricio, em desespero, acerta um soco no rosto de Thalia, apagando-a.

Mas não dá tempo de esconder nada.

— Socorro! Aqui embaixo! — grita Verônica, mais lúcida.

Luca percebe algo estranho na serragem. Chuta.
O som é oco.

— Tem algo aqui… — ele puxa o alçapão.
Abre.
Desce.

E se depara com o inferno.

Sete garotas desacordadas ou chorando.
Balanços espinhosos. Sangue. Equipamentos grotescos ligados a computadores.

Mauricio está parado. Em choque. Rendido.

Luca aponta a arma.

— Nem tenta correr.

— Tem outro! — grita Marianne do alto.

— Ele desceu por um túnel de acesso subterrâneo! — diz Mauricio, sem mais forças pra mentir.

— Se vocês forem agora… ainda pegam ele…

Luca algema Mauricio e o leva até a viatura.

Depois, sem hesitar, entra no túnel atrás de Rohan Darcy Nezeu.

O túnel

O ar é úmido e abafado. O chão, estreito. O túnel serpenteia por debaixo do campo, cheio de curvas e passagens.

Nezeu, com o braço enfaixado, caminha pesado.
Sua respiração é ofegante. O suor escorre pelo rosto. Ele acredita que vai escapar.

Não sabe que está sendo seguido.
Luca está cada vez mais próximo.

No momento em que Nezeu encosta no corrimão de uma escada de saída…

— PARADO! — a voz ecoa no túnel.

Nezeu congela.

— Mãos pro alto! Você está preso. Qualquer movimento e eu atiro!

Rohan ergue as mãos.

— Você tem o direito de permanecer calado. Tudo o que disser pode e será usado contra você no tribunal…

O psicólogo não reage. Apenas baixa os olhos.

Ali termina sua caçada.

Epílogo

Horas depois, já no hospital, Patrícia e Dantas acordam com ferimentos, mas vivos.
As meninas são resgatadas e levadas ao atendimento médico. Todas sobrevivem.
A clínica de Rohan é interditada. A mídia estoura o caso: “O Psicólogo de Heretic City”.

Heretic City continua nublada.
Mas naquela manhã, algo podre foi arrancado da sua carne.

FIM.

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