O Homem Contra o Abismo
🇧🇷 Nota do Autor
Nota do Autor:
Este conto é uma obra de ficção que trata de temas sensíveis como depressão, solidão e suicídio.
Não se trata de uma romantização, incentivo ou glorificação de qualquer forma de autodestruição.
A intenção é provocar reflexão e dar voz a sentimentos que muitas vezes são silenciados.
Se você está passando por um momento difícil, saiba que não está sozinho.
Falar com alguém pode ser o primeiro passo.
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Carl não estava bem.
Era um domingo como outro qualquer… mas não para ele.
Os pensamentos que se entrelaçavam em sua mente eram densos demais, quase palpáveis.
O sol aquecia a pacata cidade de Gray Dot, mas para Carl, aquilo não significava nada.
Tentou colocar uma música, qualquer coisa que o distraísse. Mas sua mente parecia uma sala trancada, abafada.
Uma batalha silenciosa se iniciava: Carl tentando empurrar os pensamentos sombrios para fora, e sua própria mente — viva, hostil — insistindo em arrastá-lo para baixo.
Lembrou de ligar para Rebeka — talvez isso o tirasse dali.
— Rebeka!
— Carl, como você está?
— Daquele jeito…
— Carl, você precisa ir a um médico, amigo. Isso é sério.
— Vou ver o que faço. Mas e você, o que vai fazer hoje?
— Hoje vou a um encontro gótico, depois do almoço.
— Ah, que legal, Rebeka. Fico feliz por você.
— Obrigada, Carl.
— Vou ver se como algo, ok? Falamos mais tarde.
— Ok. Um forte abraço…
— Outro.
Desligou o telefone e voltou ao vazio que o esperava.
Pensou em sair, mas desistiu antes mesmo de pegar a chave.
Sabia que lá fora não havia nada. Ninguém.
Carl era profundo demais, sensível demais. Não se encaixava.
Relacionamentos? Uma perda de tempo.
Talvez se exercitar ajudasse… mas sua mente não deixava.
Pegou uma maçã.
As primeiras mordidas vieram acompanhadas de um pensamento desagradável — a fruta, a lâmina, o corte.
Largou a maçã sobre a mesa.
Girou sobre os próprios pés, como se tentasse se encontrar no espaço.
Só descobriu o quão perdido estava.
Ligou a TV.
Zapeou os canais rapidamente.
Nada ajudava. Tudo piorava.
Desligou.
Sentou-se diante do computador. Talvez escrever fosse um alívio — em outras vezes tinha sido.
Começou a digitar:
“Carl não estava bem. Era um domingo como outro qualquer… Mas não para Carl, os pensamentos que entrelaçavam sua mente eram demasiadamente sombrios. O sol aquecia a pacata cidade de Gray Dot, mas para Carl, isso não representava nada.”
“Carl até busca ouvir algo para espairecer a mente, mas ela está opressiva. Uma batalha entre Carl e sua mente é iniciada…”
Parou.
Olhou para o texto e percebeu: estava escrevendo exatamente o que estava vivendo.
Fechou o notebook.
Foi até a sacada.
O vento tocava seu rosto, mas não trazia frescor.
Ali, de pé, Carl namorou a morte.
Pensou no alívio que seria deixar de sentir o peito sufocar a alma.
Não ser mais um grão de areia no mundo.
Não precisar olhar para a cara redonda e disforme de Mário.
Não ter que fingir que o mundo é bom.
Não precisar ser gentil com quem não merecia.
Bastaria voar.
Um passo, e tudo terminaria.
Carl estava realmente brincando com a morte.
Pensou no que sentia que poderia desaparecer:
Seu emprego, que o esmagava por dentro.
Sua própria imagem no espelho, que o cansava de ver.
Sua chefe, que ele desprezava.
Carl concluiu: ninguém sentiria sua falta.
E talvez voar fosse, de fato, a única escolha certa.
Então, o telefone tocou.
Carl respirou fundo e pegou o aparelho, que estava no braço da poltrona.
— Oi? …silêncio.
— Oi, quem está aí? …nada.
Carl desligou.
Franziu o cenho.
Quem estaria brincando com ele?
Foi até o espelho.
Se encarou.
Seu reflexo estava distorcido.
Zombava dele.
Sorria de forma sarcástica.
Carl fechou os olhos, abriu — o reflexo continuava lá, zombeteiro.
Assustado, virou-se e se afastou.
Sua mente o torturava.
Pensamentos de que nem ele mesmo se suportava mais.
E de que, talvez, devesse realmente… voar.
Carl decidiu.
Voltou à sacada.
Ali, no limite do concreto e do vazio,
abandonou a vida.
Abandonou a dor.
Abandonou a hipocrisia.
E voou.
E, por um instante, nesses segundos de queda,
sua mente se aquietou.
Silêncio. Paz.
Até que…
BOOM.
Carl Noah Salzer
✯ 18/03/1997 – ✝︎ 08/07/2025
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