Encontros e Paradoxos


Um voo em que tudo aconteceu e não aconteceu

Jussara e Janete estavam ansiosas; o passeio para a Cidade do México era, para ambas, a realização de um sonho.
Dentro da aeronave, Janete encontrou a poltrona das duas, guardaram as malas nos compartimentos superiores, e o ambiente era de descontração: executivos, mochileiros, famílias, gente indo a passeio ou estudar — cada um com seu destino guardado por dentro, quase todos animados.

Janete era a empolgada: sorriso fácil, brincava, gesticulava, tirava fotos, selfies sem parar.
Jussara era a observadora: naquele instante, cutucou Janete, chamando atenção pra dupla de rapazes que se aproximava, sugerindo com o olhar que eles se sentariam por perto.

Janete entendeu o toque, sorriu de volta, e deixou o clima no ar — até o comandante anunciar a decolagem.

Já com a aeronave estabilizada a 11 mil pés, perceberam os rapazes lançando olhares curiosos.

Jussara, sentada no corredor, resolveu agir:
Levantou-se devagar, foi mexer na mala no bagageiro, já esperando que um dos rapazes se oferecesse para ajudar.

— Pode me ajudar? Tá pesado! — ela pediu, encarando o rapaz mais próximo.

— Claro! — ele respondeu prontamente, levantando-se também do assento no corredor. Pegou a mala com facilidade e a entregou de volta para Jussara, que agradeceu com um sorriso sincero.

— Vocês estão indo pra onde? — ele perguntou, puxando papo.

— Férias, é um sonho antigo nosso — respondeu Jussara.

— Que bacana! Prazer, eu sou Ravel — se apresentou com um aceno simpático.

— E eu sou Lissá! — completou o outro rapaz, sorrindo. Eles pareciam tão animados quanto as duas.

— Somos eu, Jussara, e minha irmã… — começou ela.

— Janete! — a irmã completou, levantando a mão e já tirando uma selfie dos quatro juntos, pegando todos de surpresa.

— Que energia boa — disse Ravel. — Muitos não conseguem realizar seus sonhos. Fico feliz por vocês. O nosso, na verdade, é um pouco diferente…

— Opa, que interessante! E a gente pode saber do que se trata? — Janete quis logo saber, da poltrona da janela.

Ravel trocou um olhar divertido com Lissá, e respondeu:

— Na verdade, somos estudantes de Física. Nosso sonho mesmo… é viajar no tempo.

Jussara arregalou os olhos, surpresa e curiosa:

— Nossa! Teoria da relatividade aí? — brincou, rindo. — Isso já é papo de filme!

Lissá entrou na onda:

— Quem sabe? Às vezes a vida real é mais estranha que a ficção. Mas olha… tudo é relativo, não é? Às vezes, os melhores encontros acontecem… fora do tempo.

Janete riu, achando graça no tom filosófico:

— Já pensou? Vai ver daqui a alguns anos a gente lembra desse voo e descobre que encontrou dois viajantes do tempo!

Os quatro riram juntos, o papo fluiu fácil.
Lá fora, o céu parecia infinito, e as horas passaram quase voando — mas, para Jussara e Janete, aquela conversa, de algum jeito, já era inesquecível.

— Eu torço por vocês — Disparou sorridente Jussara

— Poxa! Nós ficamos felizes com isso Jussara, bacana saber que você torce por nós.

— Quando vocês conseguirem, não vão se esquecer de nós ok? Janente comenta com carinho.

— Impossível, fiquem tranquilas, jamais nos esqueceremos de vocês. Responde Lissá ingualmente gentil.

O tempo passa, e os quatro jovens vão se conectando cada vez mais, a conversa se tornando íntima, cheia de risos e pequenas confissões. O voo, que partiu do Galeão (GIG) às 23h, seguia atravessando a madrugada rumo ao Aeroporto Internacional Benito Juárez, na Cidade do México (MEX).

Aos poucos, o cansaço vai chegando — já é alta madrugada acima das nuvens, e um breve silêncio se instala entre o grupo.

De repente, Jussara e Janete, vencidas pelo sono e embaladas pelo balanço do avião, acabam adormecendo.

“Às vezes os acontecimentos se dão de forma a nos virar do avesso.”

O tempo passa até que:

A voz do comandante Fahard ressoou suave pelos alto-falantes da cabine:

— Senhoras e senhores, aqui é o comandante Fahard falando do cockpit.
Dentro de alguns minutos, iniciaremos nosso procedimento de descida para a Cidade do México.
Pedimos que, por favor, retornem aos seus assentos, ajustem o encosto das poltronas para a posição vertical, guardem as bandejas e afivelem os cintos de segurança.
A tripulação irá passar pela cabine para os procedimentos finais de checagem.
A temperatura no nosso destino é de 25 graus, com tempo aberto.
Agradecemos por voar conosco e desejamos um excelente dia a todos.

O anúncio penetrou o sono leve das duas irmãs. Jussara e Janete abriram os olhos quase ao mesmo tempo, um tanto desorientadas.
Imediatamente, seus olhares buscaram Lissá e Ravel — mas os assentos ao lado estavam vazios, impecáveis, como se ninguém jamais tivesse estado ali.

— Mana, onde foram os rapazes? — indagou Jussara, franzindo o cenho.

Janete fez sinal para a comissária, que logo se aproximou com gentileza:

— Pois não, senhora? Em que posso ajudar?

— Havia dois rapazes sentados nessas poltronas — aqui, ó — disse Janete, apontando para os assentos vazios.

A comissária, com um sorriso polido, respondeu:

— Senhora, as poltronas 21A e 21B viajaram vazias durante todo o voo.

— Como assim? Nós estamos ficando loucas? — murmurou Jussara, entre o choque e o incômodo.

— Sinto muito, mas essas poltronas não tiveram ocupantes. Precisa de mais alguma coisa?

— Não, obrigada… Amanda, né?

— Isso mesmo, qualquer coisa, só chamar — respondeu a comissária, afastando-se.

Jussara e Janete se entreolharam, perplexas, tentando decifrar o que acabara de acontecer.
O avião já estava em solo mexicano; passageiros apressados pegavam suas bagagens nos compartimentos superiores, formando uma fila para o desembarque.

Do lado de fora, seguiram o fluxo até a esteira das malas, recolheram seus pertences e saíram para o saguão, onde, entre rostos apressados, foram surpreendidas por duas vozes conhecidas:

— Estávamos ficando preocupados, o que houve? Por que demoraram tanto?

— Lissá? Ravel?

Janete sentiu o tempo parar — ou dar um nó impossível de desatar.
Por um instante, tudo parecia suspenso, como se realidade e sonho fossem apenas linhas tênues se cruzando.

E talvez, como disse Albert Einstein:
“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, embora persistente.”

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