Dissociação


Memória não confiável

26 de julho de 2058 — sexta-feira

Dário acordou com a estranha sensação de que o tempo havia passado sem pedir permissão.

Ficou imóvel por alguns segundos, tentando reconhecer o quarto. O silêncio era mais denso do que deveria ser para aquela hora da manhã — nenhum passo no corredor, nenhuma voz distante, nenhum som de louça vindo da cozinha.

Sentou-se na cama.

O corpo estava leve demais, como se tivesse dormido mais do que precisava… ou menos do que lembrava.

Olhou o relógio.

Sexta-feira.

Franziu a testa.

Tinha se deitado para um cochilo na tarde de quarta-feira, às 13h20. Lembrava-se com precisão — o sol atravessava parcialmente a cortina e havia um cheiro suave de café ainda no ar.

Agora, o café havia morrido no tempo.

Tentou puxar alguma memória entre o deitar e o acordar.

Nada.

Nenhum sonho.

Nenhuma imagem.

Era como se alguém tivesse recortado dois dias inteiros de sua vida.

Respirou fundo.

O ar parecia limpo demais.

Quase novo.

Onde está Luci?

Levantou-se e caminhou até o quarto. A cama estava arrumada — perfeita demais para quem havia dormido ali na noite anterior. Tocou o lençol.

Frio.

Abriu o guarda-roupa.

Algumas roupas não estavam lá.

Manu.

Carlito.

Pegou o celular com uma súbita pressa. A foto da família ainda sorria na tela, alheia ao desalinho do mundo.

Ligou para a Escola Gabriel Arcanjo.

Sem sinal.

Nem mesmo uma falha de conexão — apenas ausência.

O silêncio começou a fazer barulho dentro dele.

Engoliu seco e apertou o botão do interfone.

Um chiado breve.

Então uma voz:

— Cerberô Valente. Em que posso ajudá-lo, senhor?

Dário afastou o aparelho lentamente do rosto.

Cerberô? O porteiro se chamava Mário, sempre fora Mário.

Desligou sem responder, deixando o interfone mal encaixado no suporte.

Uma ideia incômoda atravessou sua mente:

Ele vai subir.

Vestiu a primeira roupa que encontrou. Os dedos tremiam sem que o frio justificasse.

Abriu a porta.

E o mundo inclinou alguns graus.

Aquele não era o Academic Brothers.

O corredor era amplo demais. Curvo à direita, desaparecia antes que os olhos pudessem alcançar o fim. A luz era fraca, de um amarelo cansado, e parecia incapaz de tocar completamente as paredes.

Deu um passo para fora.

Depois outro.

Nenhuma porta.

Nenhum tapete.

Nenhum número.

Nada além da curva silenciosa.

Uma certeza lenta começou a se formar — daquelas que o corpo entende antes da mente:

Não era apenas o apartamento que estava errado.

Era o lugar.

Talvez o próprio tempo.

Um ruído ecoou adiante.

Dário sentiu o arrepio nascer na nuca e descer pelas costas.

Pensou em correr.

Mas correr para onde, se não havia portas?

Então algo ainda pior lhe ocorreu:

E se aquele andar existisse apenas para ele?

Um som grave começou a se espalhar pelo ambiente — baixo demais para ser apenas ouvido, forte o suficiente para ser sentido.

O peito de Dário cedeu sob a pressão invisível.

Não era um som.

Era um peso.

Sua mente se contraiu junto com o ar ao redor. Franziu o cenho e correu — sem direção, sem plano — apenas correu.

Os passos ecoavam curtos, engolidos pela curva interminável do corredor.

Então percebeu.

Estava girando.

O espaço o dobrava de volta para o mesmo lugar, como se o andar respirasse e o rearranjasse a cada tentativa de fuga.

Parou.

O silêncio após o grave pareceu ainda mais violento.

Começou a caminhar devagar.

Esperando.

Esperando que a porta de seu apartamento surgisse.

Não surgiu.

Pela primeira vez, um pensamento não pediu permissão para existir:

Quero estar sonhando.

Então viu.

Portas.

Não estavam ali antes.

Tinha certeza.

O ar mudou primeiro — um odor limpo demais, agressivo, como álcool e produtos químicos recém espalhados.

Um cheiro que não pertencia a lugar algum onde alguém realmente vivesse.

Aproximou-se da primeira porta à esquerda.

Levantou a mão.

Parou.

Algo dentro dele — um instinto antigo, anterior ao pensamento — sussurrou:

não.

Recuou.

Foi então que percebeu as vozes.

Distantes.

Emboladas.

Um idioma que escorria sem forma.

O coração disparou.

— Tem alguém aí?! — gritou. — Por favor!

O corredor engoliu sua voz.

Nenhuma resposta.

Nem eco.

Outra porta surgiu adiante.

Não viu quando apareceu.

Apenas estava lá.

Fechou os olhos antes de tocar a maçaneta — como se a escuridão voluntária fosse mais segura do que ver o que existia do outro lado.

Girou, trancada.

Continuou andando.

A luz agora era branca demais.

Não iluminava — invadia.

O pensamento veio seco:

Preciso sair daqui.

Começou a testar cada porta que encontrava.

Uma após outra.

Trancadas.

Todas trancadas.

Até que viu o símbolo.

Não soube dizer de onde conhecia.

Mas o corpo reconheceu antes da memória.

Abriu.

Oito rostos se viraram ao mesmo tempo.

Branco sobre branco.

Olhos atentos demais.

Dário não pensou.

Correu.

Os passos atrás dele vieram imediatos — coordenados, precisos.

Não era perseguição.

Era procedimento.

O corredor oval trabalhou contra ele.

Quando percebeu, quatro já vinham pela frente.

Parou.

O ar não entrava direito.

Falavam — palavras rápidas, técnicas, incompreensíveis.

Aproximavam-se como quem já sabia exatamente o que fazer.

Então algo atingiu sua nuca.

Um clarão branco rasgou o mundo.

E tudo se apagou.

Quando voltou, o mundo ainda era branco.

Abrir os olhos exigiu mais força do que deveria.

A boca seca.

A mente incapaz de se firmar em um único pensamento.

Um crachá balançava diante dele.

AstraBio Experience.

— O paciente John apresentou nova dissociação.

Dário tentou dizer seu nome.

Mas já não tinha certeza de qual era.

F.I.M

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *