O Futuro está no espelho dos outros
Ravel estava pensativo; o encontro com aquela senhora o havia virado do avesso… segundo suas próprias percepções… A mulher lhe mostrara, num pequeno espelho, parte do que seria seu futuro. Deixando-o perplexo, com a mente revirada ao avesso.
Ele estava saindo do trabalho na Rua Almirante Tavares e, assim que dobrou a esquina para a Rua Baependí, sentiu mãos, frias mãos, agarrando seu braço. Ela se apresentou como alguém que poderia lhe mostrar o futuro num pequeno espelho… ele só precisava dizer sim.
A mulher sorriu, faltando alguns dentes, de forma intrigante, o que de alguma forma forçou Ravel a dizer “sim”. Ela tirou um pequeno espelho com a borda dourada de uma bolsa cor de carne, que apontou na direção de Ravel … o que ele viu não lhe daria paz pelos próximos dias de março daquele ano de 2057.
A imagem no espelho daquela mulher na Rua Baependí, estava envolta em uma névoa espessa, prédios desgastados pela ferrugem, placas caídas e vitrines vazias. Nenhum som de pessoas apenas o vento, arrastando folhas e plástico pelas rachaduras do asfalto. No reflexo, um céu sem sol, sem pássaros, apenas cinza, como se o tempo tivesse parado. E por um instante, Ravel se viu, mais velho, parado ali, esperando por algo ou alguém… ou simplesmente pelo próprio fim.
Já em casa, no Condomínio Live to Rise, Ravel tem uma mente em chamas, a imagem do espelho da senhora forçava sua mente a construiur milhares de desfechos, onde nenhum conseguia ser, pelo menos razoável.
Durante toda aquela semana, Ravel lutou com sua mente e, na sexta-feira, ao sair do trabalho em uma tarde amena, ao dobrar novamente a esquina da Rua Baependí, avistou um homem, talvez de meia-idade, rabiscando palavras estranhas na parede: “O futuro está no espelho dos outros”.
Ravel ficou parado, observando o homem. Percebendo sua presença, o homem interrompeu o que fazia e se virou, encarando Ravel de volta. Num impulso incontrolável, Ravel correu em sua direção. O homem, assustado, deixou cair a caneta das mãos e disparou, como se estivesse fugindo de um predador enlouquecido.
O homem corre com tanto vigor e desespero que salta sobre o capô de um carro em movimento, criando rapidamente uma distância considerável entre ele e seu predador. Ravel fica de um lado da movimentada rua de oito pistas, observando o homem parado do outro lado, encarando de volta.
Por minutos que pareceram horas, ficaram ali, parados, um olhando para o outro, como num duelo silencioso. O barulho dos carros parecia abafado, distante. Ravel pensou em atravessar, mas algo no olhar do homem um medo antigo, misturado com súplica… o paralisou.
Então, o homem tirou algo do bolso, um pequeno espelho, igual ao da mulher. Ergueu-o na direção de Ravel, como quem faz uma oferta ou ameaça. Ravel, sem entender, sentiu um arrepio. O homem sorriu de um jeito triste e misterioso, virou-se, e sumiu pela multidão, deixando para trás apenas a inscrição na parede: “O futuro está no espelho dos outros.”
Ansioso e desconfortável, Ravel vai até a parede com a inscrição, vê a caneta caída no chão, pega-a e a inscrição “AstraBio Tech” está impressa no corpo.
De volta ao Condomínio Live to Rise:
Ravel pesquisa a AstraBio Tech.
Ele encontra Amanda Laurence, CEO da empresa, apresentando o projeto:
“Regeneração Celular”.
O objetivo era distribuir, por via intravenosa, o meio capaz de prolongar a vida dos habitantes de Deméter até os 130 anos — tudo em seis meses. As células poderiam se regenerar até três vezes antes de se tornarem inaptas.
Ravel conhece Amanda Laurence. Não acredita que o que viu no espelho da senhora, tenha qualquer relação com o projeto grandioso da AstraBio Tech. Tenta limpar a mente: toma banho, come, vai deitar.
Pela manhã:
Café, trabalho, um dia liso, sem eventos — o que o agrada. Volta caminhando para casa.
Ao passar pela rua Baependí, lembra da velha, do homem de meia idade… mas trata tudo como bobagem. Sorri de canto e segue.
No condomínio Live to Rise, conversa com o porteiro Alencar, que, curiosamente, segura um espelho nas mãos. Ravel fala com Alencar, os olhos fixos no espelho.
Enquanto Alencar sai para buscar uma entrega, Ravel sente o impulso de pegar o espelho, esperando — talvez — ver algo além de seu próprio rosto.
Mas seu reflexo está ali: comum, cansado. E, por um instante, ele deseja que seja só isso mesmo.
Coloca o espelho de volta e se despede.
Em casa, Ravel se sente leve, como há tempos não sentia. Toma vinho, come queijo, liga para Lidhia — amiga do trabalho de décadas. Conversam até tarde; se despede e vai dormir. A noite é um presente.
Acorda renovado, feliz, pensando seriamente em convidar Lidhia para sair.
O dia seguinte no trabalho é especial; trocam olhares, ela o encoraja. O dia passa, mas, por algum motivo, ele não a convida.
Volta para casa caminhando… faz a barba, toma banho, se alimenta.
Ouve a campainha, pensa em Lidhia e sorri. Mas não haviam combinado nada, e — estranho — por que Alencar liberou alguém para subir sem avisar?
Corre ao interfone com o cenho franzido:
— Alencar, meu amigo, por que liberou alguém para subir, sem me avisar?
— Senhor Ravel, sua mãe e seu irmão Kaique.
— Como assim? Você tem certeza do que diz?
— Total, senhor.
Ravel se despede, um calafrio subindo a espinha. Sua mãe morrera há dois anos, seu irmão estava em intercâmbio na Holanda.
Abre a porta. Primeiro, o sorriso incompleto da velha; depois, o olhar vidrado do homem de meia idade, com dentes amarelos. Eles avançam um passo.
— Lhe encontramos, Ravel. Agora é sua vez: será um propagador.
Aquelas palavras, aquela situação… tudo se desfaz. As vistas escurecem. O homem, com um sorriso desconexo, levanta o espelho e aponta na direção de Ravel.
Ao olhar, Ravel simplesmente cai.
Morto? Desmaiado?
No silêncio do apartamento, apenas o reflexo do espelho, vazio, aguardando o próximo.
FIM 💐
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