O que na verdade é real?
Decar chega sempre uns minutos mais cedo ao trabalho.
A empresa é uma multinacional do aço instalada na cidade há longos trinta e cinco anos. Decar trabalha em escala de turnos e, naquela sexta-feira, chega para o horário da noite.
Às vinte e três horas, assume o turno no lugar de Flaviano, seu antigo amigo de infância, com quem divide vinte e três anos de trabalho naquela empresa. Naquela noite, tudo está mais calmo. Decar trabalha no almoxarifado e o sistema da empresa está programado para receber atualizações e melhorias; por isso, ele não terá atividades durante a madrugada.
A noite corre, de fato, com suavidade. Decar caminha pelo espaço de chinelos, como costuma fazer quando a noite permite. A sala de trabalho é relativamente grande, com cerca de oitenta metros quadrados. Naquele instante, seu telefone toca. É Natália, uma ex-namorada de longa data com quem mantém contato ao longo dos anos.
— Eu não sei pra que você vai aí trabalhar nesses dias de atualização do sistema, se não tem nada pra fazer. Por que você não é dispensado?
— Natália, não me faça pergunta difícil. Eu não tenho ideia… isso não é comum por aqui.
— O que você fica fazendo aí?
— Andando pra lá e pra cá, pensando em você e rabiscando no meu diário.
— Você está brincando que ainda usa aquele diário!?
— Sim, eu uso… gosto de registrar minhas ideias, minhas narrativas, e você sabe que penso em escrever um livro.
— Credo, Decar! Você falava isso quando estávamos juntos. Ainda pensa nisso?
— Sim, Natália, penso. E não demoro a começar a escrever.
— Poxa, acho legal. Aqui… — Natália muda de assunto repentinamente. — A gente podia fazer algo juntos nesse feriado. O que acha?
— Tipo o quê?
— Ah, estava pensando em dar um pulo na praia. Faz tanto tempo!
— Verdade, vamos sim.
— Ok, vou reservar um cantinho pra nós e volto a falar com você. Agora preciso tentar dormir.
— Isso, vai com Deus, meu anjo.
— Fique com ele e bom trabalho.
A noite avança sem cerimônias, mas nada parece normal. Decar tenta se concentrar numa literatura antiquada quando um choro, ou murmúrio, surge pelos corredores do almoxarifado.
Ele se levanta e, pé ante pé, caminha em direção ao corredor cinco, de onde parece vir o som. Ao chegar, acende a luz que ilumina todo o corredor. O som se interrompe no mesmo instante.
O almoxarife leva as mãos à cabeça e se vira no próprio eixo, como quem busca algo pelas costas.
E nada.
Decar se sente aliviado. Afinal, alguém chorando por ali não faz o menor sentido para ele. De volta à mesa, pega o celular para ver as horas.
Incomoda-se com a passagem do tempo.
“Como isso é possível?”
Já passa das duas da manhã. O tempo correu rápido demais. Ele chegou, falou com Natália, ouviu uma bizarrice… e tanto tempo se passou.
“Devo estar alucinando, só pode. Como o tempo fez isso? Vou comer algo no refeitório.”
Decar calça os sapatos e veste um casaco. O frio naquela região da cidade é implacável. Parte para o refeitório às duas e vinte e cinco da madrugada. Pelo caminho, observa a grandiosidade daquela empresa. Sabe que se trata de uma unidade bastante extensa e tecnológica. Sente-se como uma célula dentro de um organismo.
Nas proximidades do refeitório, a calmaria chama sua atenção. Aquela área costuma ter barulhos constantes: movimento, talheres e vozes de muitos conversando. Mas, naquele momento, nada.
Ele pega o crachá, encosta na catraca e acessa o ambiente, que logo lhe causa estranheza. Não se lembra de encontrar o refeitório tão vazio como naquela noite.
Acessa a primeira rampa, serve-se de alguns legumes e verduras e para diante da menina que serve as carnes. Percebe a sonolência da garota, que, ainda assim, o serve generosamente com quatro pedaços de carne bovina.
Decar agradece, vira à esquerda e segue para as mesas. Senta-se mais ou menos no centro do ambiente, de frente para a rampa de alimentos. Logo percebe três homens que, parecendo não estar juntos, se servem à sua frente.
O primeiro se senta em uma mesa à direita de Decar. O segundo, em uma mesa à esquerda. O terceiro ocupa outra mesa, exatamente à sua frente.
Decar observa cada um deles e pensa:
“São tantos aqui na empresa… eu nunca vi nenhum desses por aí.”
Segue comendo tranquilamente, mas pensa no pai, que morreu no ano passado. A perda ainda é recente para ele.
Enquanto digere a ideia de não ter mais seu velho junto de si, percebe algo no homem à direita. O sujeito colocou metade do garfo dentro da boca.
“Que porra foi essa?”
Decar mastiga o pedaço de carne e volta a olhar. Agora, sim… o indivíduo abre a boca muito além do possível. Enfia não só o garfo com a comida, mas também parte da mão.
A imagem é bizarra. Decar percebe o homem à sua frente caindo na gargalhada, olhando diretamente para ele.
“Porra, o que está havendo por aqui?”
Volta a olhar o homem da bocarra e o vê sacudindo a cabeça com extrema rapidez.
“Meu Deus do céu, o que aquele desgraçado está fazendo?”
Os outros homens gargalham alto, encarando Decar. A imagem daquela cabeça se sacudindo é perturbadora demais para ele.
Recusa-se a continuar olhando e desvia o olhar para a esquerda. O homem daquela mesa a empurra com as mãos e começa a vomitar. Decar pisca os olhos — vai a outro mundo e volta… O sujeito vomita muito além da sua capacidade, sem parar, sem respirar.
Aquilo arrepia o corpo de Decar. À sua frente, o outro homem continua gargalhando. E gargalha dele…
“Porra, que situação angustiante. Preciso sair daqui!”
Decar se levanta e deixa o prato com comida na mesa. Agora todos riem dele. Aperta o passo, abandona a área de alimentação e se encaminha para a saída.
Então vê um homem de costas junto à porta. Reconhece aquela figura e hesita. Por um instante, o medo dá lugar à saudade.
“Espera… aquele é meu pai.”
Decar se aproxima e pousa a mão no ombro do homem.
Ele se vira, abrindo um sorriso largo demais…
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