A Duna de Corpos


Um pesadelo vermelho à beira do real

Às vezes, o pior pesadelo não está em monstros ou fantasmas, mas nos recados que trazemos de casa, no cheiro do mar, na memória dos que partiram e na voz dos que nunca nos deixam em paz. Gustav descobriu isso na praia de Lithá.

Gustav estava desesperado. E quanto mais fora de si ele ficava, mais atormentada ficava sua percepção do espaço-tempo. Ele estava em uma duna, na areia da praia de Lithá, mas via corpos na areia, enterrados da cintura para baixo, abanando os braços, chamando por ele — todos sem cabeças… Era perturbador, era horripilante. O mar era de água vermelha, como sangue, e estava terrivelmente agitado.

Gustav desviava dos corpos que tentavam tocá-lo. Sua respiração podia ser ouvida à distância, estava bem mais alta do que o comum… Agora que Gustav conseguiu sair da região dos corpos na areia, ele via cachorros com cabeças humanas. Uma delas… era a de seu pai.

Gustav luta para não olhar. Sabia que não tinha como isso acontecer… Mas o cão com a cabeça do seu pai dizia:

— Gustav, não adianta fugir. Sua mãe está te vendo, seu fracote de merda…

Gustav se sente oprimido e chora, se sente um verme, e caminha pela praia infernal, buscando uma saída para a realidade que parecia se esconder.

— Ei! — Gustav grita sem sucesso. Ele corre e corre com toda a pouca energia que ainda possui.

E o que ele vê? Corpos enterrados na areia, balançando as mãos e o chamando. Ele estava de volta à duna de corpos… Se sentia mal, se sentia fraco… Gustav lutava por sua sanidade, que naquela altura estava por um fio.

Seus joelhos cediam a cada volta na duna de corpos. O cheiro do mar vermelho era ácido, metálico, fazia arder o fundo da garganta.

Os braços sem cabeça continuavam acenando, como se pedissem ajuda, ou zombassem dele. Talvez fossem antigos conhecidos, pensou — antigos fracassos, amores esquecidos, erros que nunca cicatrizaram. Ele tentava não pensar, mas os rostos vinham mesmo assim.

O cão com cabeça de seu pai rondava a borda da praia, os olhos mortos brilhando sob a luz ferrugenta do céu. O latido era um comando, mas agora, misturado com outras vozes:

— Covarde! Você sempre volta pra cá…

Gustav correu. Queria gritar, mas a voz morria antes de nascer. A areia grudava nos tornozelos como mãos frias, cada passo mais difícil que o anterior.

O vento mudou de repente, trazendo uma risada infantil — familiar e ainda assim impossível. Ele se virou, esperando o próximo horror.

Mas dessa vez, não havia mais corpos. Não havia mais cães.

A praia agora era um campo vazio, debaixo de um céu impossível, cor de chumbo.

Lá longe, uma porta solitária, de madeira velha, cravada na areia como um ossário esquecido.

Sem saber de onde tirava forças, Gustav caminhou até ela.

A cada passo, sentia a própria sanidade escorrer pelos dedos, como água salgada.

Quando encostou na porta, uma certeza: ou ele atravessava, ou ficaria para sempre na praia dos mortos.

Fechou os olhos, empurrou — e ouviu, do outro lado, a própria mãe sussurrar seu nome.

A praia sumiu. O vento ficou frio.

E então, tudo virou escuridão.

Gustav caminha pela escuridão, buscando respirar, buscando oxigenar seu cérebro…
Quando, de súbito, começa a ouvir sua mãe:

— Filho, você não ama a mamãe? Nunca amou? — A voz tremula e Gustav ouve choro…

Ele sente tristeza, cai de joelhos chorando…

Um grito aterrador e bizarro faz Gustav engolir o choro, mas se encolher.

— FILHO…
— Mamãe está aqui… Você não vê, desgraçado? Como você pode não ver sua mãe? O que há, na verdade, com você? Seu infeliz de merda.

Gustav não enxerga um palmo à frente do nariz, mas corre… E, correndo, percebe o ambiente se revelar, e o que Gustav vê é a rua do cemitério de sua casa…

Ele corria na rua Osório de Almeida, e o Cemitério Colônia estava à sua esquerda. Gustav buscava nem olhar; naquele momento, só queria chegar na rua Antônio Dias e dobrar à esquerda. Faltava cerca de uns 200 metros.

Gustav se sentia ansioso, sentia frio, sentia fome, sentia solidão, sentia a alma inquieta dentro do corpo… Mas ele caminhava… E agora, pelos muros do cemitério, ele ouvia gritos, murmúrios, chamando pelo seu nome… Ele busca ignorar, guardava a esperança de que ao chegar na sua rua, tudo se acalmaria.

Seu nome era amplamente solicitado por ajuda, a sensação de Gustav era de que os mortos do cemitério estariam ali, todos chamando por ele… são só mais 50 metros… Gustav consegue.

Ele chega à rua Antônio Dias e sobe, com uma grandiosa esperança no peito.

Tudo parecia normal e só bastava ele entrar à esquerda na Mariana Evangelista.

Assim ele o fez… Gustav estava se sentindo melhor, buscou respirar fundo, olhou para a rua e tudo estava lá, ele sobe a rua Mariana Evangelista suavemente, até a portaria do condomínio Green Tower… Sua esperança era de que Getúlio estivesse na portaria, com tudo…

Uma presença pálida, de voz gutural, se aproxima dizendo:

— Seja muito bem-vindo, Gustav Rock. Sua presença é aguardada no Hall do Dark Hole Sun. Por favor, ao subir essa rampa, vire à esquerda. Jandira está à sua espera.

— Ok, o seu nome é?

— Cerberô Valente. — O homem sorri um sorriso errado, traz incômodo e arrepio para Gustav…

— Ok, eu devo falar com Jandira. Estou a caminho…

Gustav sobe a rampa, dobra à esquerda e o que vê?
O Hall do condomínio se tornando a duna de corpos…

Gustav sente o ar faltar, e naquele momento, mãos frias, gélidas, agarram suas pernas…

Ele grita… A todo pulmão…

— Gustav, meu amor, o que é isso?

Angélica toca seu rosto molhado…

— Respira, meu amor, o que foi isso, bebê?

Gustav vê o rosto angelical de sua amada… Seu coração desacelera…

Ele respira fundo e a abraça…

— Foi só um pesadelo, amor. Eu tô aqui. Se acalma.

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