Um conto guardado.
Cidade de Folks Ville.
Quando? Não é a pergunta — a pergunta é: em que lugar do espaço-tempo?
Ninguém sabe.
A sensação era de que mãos — desconhecidas mãos — pressionavam meu pescoço com tanta força que me puxavam das profundezas do sonhar.
Movimento o corpo na cama, como quem busca o ar que falta, e, ao abrir os olhos… lá está:
O rosto lindo, misterioso, encantador de Agnes.
— Meu amorzinho, acorda! O que foi com você? Fala pra mim, fala? Estava agitado, bebê? — diz Agnes, beijando-me com aquele beijo que, cedo, já me leva às nuvens, dissipando qualquer incômodo.
Ela interrompe o beijo, afastando-se com o cenho franzido:
— Como está agora, meu amor? Fico ansiosa…
— Eu me sinto rejuvenescido, bebê. Não sei o que tem no seu beijo… ele me leva a outros mundos e, quando retorno, tudo que incomodava se vai. Como isso é possível?
— É o amor, meu bem. É para isso que estou aqui — para você, meu bebê. Vamos, levante-se. Vamos almoçar fora, o que acha?
— Ótima ideia, amor!
Agnes sorri e me beija novamente antes de sair do quarto, deixando para trás um rastro suave de seu perfume — uma mistura de jasmim com algo que nunca consegui identificar.
Levanto-me cambaleante, ainda carregando pedaços do sonho na pele.
O sol invade a casa com força, mas a luz tem algo diferente…
As sombras são mais densas, mais definidas, como se pertencessem a outro mundo.
Enquanto me visto, ouço Agnes na cozinha, cantando uma melodia em uma língua desconhecida.
Sua voz faz as lâmpadas vibrarem levemente.
Ao entrar na cozinha, ela me espera com um sorriso perfeito:
— Vamos, meu amor. Já pedi nosso carro e reservei nosso restaurante favorito.
— Como assim? Eu nem falei onde queria ir…
— Você nunca precisa, meu bem. Eu sei exatamente o que você quer… sempre.
— Você não existe, amor — eu a envolvo em um abraço. — Eu te amo demais, minha bruxinha linda.
Agnes passa as mãos pela minha cintura, e saímos caminhando como jovens namorados.
O carro já nos esperava. Entramos, e a porta se fechou suavemente.
Dentro do carro, Agnes me olha com um olhar que parece atravessar minha alma.
— Amor, esse seu jeito de me olhar é quase invasivo…
— Eu amo verdadeiramente te olhar, bebê. Sua energia é deliciosa… parece me reabastecer.
— Nossa! Eu me acho tão dark — digo, sorrindo.
Agnes sussurra:
— Talvez seja exatamente por isso que me atrai tanto…
Ela se deita em meu ombro, o olhar perdido para fora do veículo, como se estivesse além da realidade.
O carro para.
Agradecemos ao motorista e seguimos para o restaurante: A Caverna da Bruxa, localizado no alto do Morro do Corvo Dourado.
O lugar exalava um clima dark, sombrio, sedutor.
Os funcionários, com olhos marcados e roupas escuras, pareciam fazer parte de um teatro oculto.
Sentamo-nos.
Pedimos uma garrafa de vinho tinto seco.
A garçonete, de unhas longas e olhos âmbar, serviu-nos em silêncio, respeitando nossa atmosfera.
Agnes ergue a taça:
— Ao nosso amor.
— À nossa magia — respondo.
Ao fundo, a lareira crepitava — mas suas chamas dançavam conforme nossas vozes, como se o ambiente estivesse vivo.
— Você sente? — Agnes pergunta.
— Esse lugar… parece nos assistir.
— Exato. E eu trouxe você aqui por isso. Hoje, amor… eu quero que você me veja.
— Ver você, bruxinha?
— Sim… do modo mais profundo.
Agnes se levanta e caminha até um pequeno palco.
O piano inicia a melodia de “(Don’t Fear) The Reaper”, do Blue Öyster Cult.
Sua voz embala a canção, e o ambiente inteiro parece segui-la.
As sombras dançam.
As paredes sussurram.
O tempo desacelera.
Meus olhos brilham.
O coração acelera.
Quando Agnes termina e retorna à mesa, tudo ao redor está embaçado.
Ela é a única coisa nítida.
Ela segura minha mão.
Sinto um formigamento profundo, quase elétrico.
— Agora você começou a ver — sussurra em meu ouvido.
— Ver o quê, amor?
— Quem eu sou… quem você é… e o que isso tudo significa.
O vinho treme levemente na taça.
— Me fala, bruxinha! Tô amando isso…
— Hoje, em casa, preparei algo especial para nós. Chamei de Sol de Cianeto.
Acha que está preparado?
— Sempre, minha doce Rainha das Sombras — respondo, sorrindo.
Seus olhos claros cintilam sob a luz bruxuleante.
Ela se levanta e me convida a dançar ao som de “Passion’s Killing Floor”, da banda HIM.
No final da canção, ainda abraçados, Agnes sussurra:
— Esta noite, quero te levar a outros mundos, a outras vidas, meu bebê.
Ela desliza os dedos pela minha nuca e me encara daquele jeito que só ela sabe, só ela pode fazer — olhos de abismo manso, como se soubesse de segredos que ninguém mais sabe.
— Agora — digo, sorrindo. — Não me olhe assim, bruxinha… senão ataco você aqui mesmo.
Ela ri, encantadora.
— Vamos… nosso carro já nos aguarda…
E, de mãos dadas, deixamos A Caverna da Bruxa, enquanto o mundo real se dissolvia lentamente ao nosso redor.
Em casa:
A casa, silenciosa.
Apenas o som da madeira estalando nas paredes.
Agnes agora está descalça, num vestido de veludo negro com detalhes púrpura, acendendo velas ao redor da sala.
Mas as velas…
Não queimam com fogo comum.
São chamas azuis, dançando com um sopro de alma.
Ela caminha em círculo, traçando runas com sal e pétalas secas.
Eu, como que hipnotizado, sentado, observo tudo — sentindo o ar mudar.
“Circle of Fear” toca suavemente ao fundo, vindo de lugar nenhum.
Agnes sussurra:
— Esse é o Círculo do Medo, meu amor…
Mas também é o Círculo da Verdade.
Só quem me ama de verdade… sobrevive a ele.
Ela ergue o cálice e começa a preparar o drink Sol de Cianeto.
Ingredientes do drink:
- Uma gota de vinho negro
- Três folhas de absinto sussurradas
- Uma colher de mel da meia-noite
- Um fragmento de âmbar
- E algo que ela colhe do próprio peito com um gesto mágico:
uma partícula da própria alma
Ela mistura tudo.
O líquido ganha um brilho âmbar profundo, quase hipnotizante.
— Está pronto, bebê — diz, entregando o cálice.
— Se beber… verá tudo.
Se não beber… nunca mais me verá.
Ela inicia o ritual, ainda ao som de Circle of Fear.
Luz baixa.
Velas azuis.
O círculo no chão se fecha.
Mas…
Quando bebo…
Quando o Sol de Cianeto toca meus lábios…
A música muda.
Vem como um sussurro de lembrança.
Como um eco vindo de dentro do meu corpo.
Sweet Pandemonium.
E então… começa o devaneio.
O mundo gira.
O chão desaparece.
Me vejo em um lugar entre mundos — um templo distorcido onde tudo que é real começa a ruir.
Lá, Agnes me espera.
Ela não fala.
Apenas olha.
Poderosa. Rainha.
E ao fundo, sua voz doce ecoa — um sussurro do desejo, cantando com dor e beleza:
— Fall away to lands of deception…
Venha, bebê… a sombra tem pressa…
Eu, em meio ao doce caos, me aproximo de Agnes.
Agora, This Fortress of Tears ecoa.
Toco seu corpo.
Curtos-circuitos nos envolvem.
E assim…
Fizemos amor como quem desfaz e refaz o universo.
Eu dentro dela.
Ela dentro de mim.
Não havia cama.
Não havia teto.
— Só nós dois.
Flutuando num plano que palavras não alcançam.
Quando terminamos…
Eu não era mais só eu.
Algo dela agora vive em mim.
E tudo que sou… será sempre dela.
Agnes me chama com a voz doce.
Mas agora há um tom mais fundo —
um chamado antigo ecoando pelas veias do tempo:
— Bebê — ela sussurra. — Diz que você ama sua Rainha das Sombras… diz, meu bebê…
E eu disse.
Com cada célula.
Com cada cicatriz.
Com a alma aberta como um templo em ruínas prestes a florescer:
— Eu amo do mais fundo de mim… do mais entranhado em mim…
do mais emaranhado em minha alma…
Eu amo você, minha Rainha.
E tudo aquilo que você é.
Ela sorri.
Mas não é um sorriso comum.
É a resposta a um feitiço antigo.
É a chave girando na fechadura do universo.
Seus olhos brilham como dois fragmentos de sol nascendo de uma noite eterna.
Ao seu redor, a energia se adensa como uma auréola viva —
respirando luz e sombra em intervalos perfeitos.
Ela começa a falar.
Mas não é português.
Não é latim.
Não é linguagem.
O que sai de sua boca é vibração pura.
Som que tem forma.
Som que tem comando.
O Círculo do Medo agora é o Círculo da Revelação.
E eu, ainda nu, flutuando com ela naquele não-lugar, entendo:
O que acontece ali… não pode ser desfeito.
Não é apenas amor.
É selamento.
É juramento entre mundos.
Agnes me olha.
Mas não com desejo agora.
Com poder.
— Você me ama, bebê…
Mas está preparado para me seguir?
Sua voz já não é apenas doce —
é ancestral.
É uma Rainha diante de um Rei que ainda não sabe que já foi coroado.
— Agora você sabe o que eu sou…
Ela se aproxima.
E com os lábios quase colados aos meus, sussurra:
— …mas não se assuste, bebê.
Porque você também é um de nós.
Um sopro leve me atravessa.
O sangue ferve.
O coração desacelera.
Lá embaixo — ou talvez acima —
o mundo real pulsava como uma lembrança distante.
Eu olho para Agnes.
E sei.
Eu agora entendo.
E agora pertenço.
De volta pra casa:
No chão da casa, a taça do Sol de Cianeto permanece intacta.
Meio cheia. Ou meio vazia.
Do lado de fora, o céu girava em espirais lentas.
Dentro da casa, as velas azuis queimavam cada vez mais intensas —
como se celebrassem o que acabava de nascer.
Uma frase gravada no ar, como um feitiço em eco:
O amor é o portal.
Agnes… é a chave.
Nós nos deitamos na cama — eu e Agnes — e por ali ficamos,
conversando, nos amando… até o sono nos levar.
Ei! — Eu gritava a plenos pulmões:
— Olá-á-á-á…
Minha voz ecoava, mas eu não via nada.
Apenas escuridão total.
De repente, ouço — e sinto — passos se aproximando por trás.
Viro-me. E vejo os olhos.
Eram dela.
Ela voltou.
— Meu bebê…
Não está tentando fugir de mim, está?
— Quem é você? De que bebê está falando?! Afaste-se de mim!
Olhos de luz avermelhada se aproximam.
Sinto mãos tocarem meu braço.
— Não adianta fugir de mim, bebê…
Eu vou te encontrar.
Onde quer que se esconda.
— Por que isso?! O que você quer de mim?!
Tento correr…
Mas há um peso.
Uma dificuldade absurda de movimentar as pernas.
E quanto mais eu forço…
mais percebo: estou me aproximando dela.
Da bruxa.
—
Acordei com um leve sobressalto.
A voz dela vinha suave, mas havia um fundo de urgência:
— Acorde, bebê…
Você sonhou.
Sonho ruim.
— Não me identificou com clareza no sonho, bebê…
O que houve?
Minha visão, ainda turva, começou a se ajustar…
E lá estava ela. Agnes.
Sobre mim.
Com os olhos doces…
Mas carregando um brilho que não era só deste mundo.
— Amor… eu de fato tive uma impressão estranha no sonho…
— Era você, amor? — perguntei, com pesar.
Ela sorriu. Aquele sorriso de sempre, envolto em mistério:
— Era, amor.
Mas tinha algo…
Não fique depressivo…
Tinha algo que alterou meus olhos para vermelhos.
Algo mais esteve naquele sonho, bebê.
E eu… vou descobrir.
— Amor, tudo bem. Não se preocupe. Eu te amo…
Deixa isso pra lá…
— Vem — eu a chamo. — Vamos para a cozinha.
Agora vou preparar um Elixir Negro dos Deuses pra você.
Venha, bruxinha.
Vendo Agnes andando devagar, corri.
A peguei nos braços e a levei até a cozinha.
— Amor… que romântico — ela sussurrou no meu ouvido.
— Se eu pudesse escolher…
Escolheria morrer assim.
Em seus braços,,,
Aquilo bateu estranho…
Mas deixei escapar.
Preparei um café dos bons —
daqueles que perfumam o ar e aquecem a alma.
Voltamos para a sala.
No sofá, entre goles e carinhos, conversamos como se o tempo fosse infinito.
Agnes me perguntou sobre a eternidade.
Respondi que gostaria de ser eterno…
Mas só se todos também fossem.
Disse que o ideal seria chegar à fase adulta… e ali, eternizar.
Agnes gargalhou com gosto e me chamou de louquinho.
E por um instante, tudo pareceu normal.
Mas o peso voltou quando confessei:
— Amor… eu sinto receio de te perder.
Quando te vejo… nesses rituais…
Parece que aquilo drena energia demais de você…
Ela desviou os olhos.
Depois me encarou novamente, com a calma de quem já sabia tudo:
— Todos partiremos, bebê.
Você não devia pensar nisso.
Mas, se pensa…
Não há nada de errado do lado de lá…
—
E foi ali.
Naquela manhã dourada, com gosto de café e eternidade falada em tom leve…
que Agnes já sabia.
Agnes já tinha decidido.
E eu?
Só fui entender depois.
O dia passou como passam os feitiços: sem aviso, sem pressa, mas com pressentimento.
À noite, dormimos entrelaçados — como se o tempo tivesse aceitado a trégua.
Mas o tempo… nunca obedece.
Quando acordei… sozinho.
A manhã rompeu como uma lâmina fria.
Acordei com o coração esmagado dentro do peito —
não como quem sofreu um pesadelo,
mas como quem sobreviveu a algo sagrado demais pra caber num corpo só.
O silêncio na casa era espesso. Quase sólido.
Levantei com o peito vazio e fui até o altar.
Ela estava ali.
Deitada entre os restos do círculo,
como uma oferenda ao desconhecido.
Serena.
Linda.
Ilimitada.
Em sua mão, um papel dobrado três vezes.
Toquei com dedos trêmulos, como se encostasse num pedaço da eternidade.
Abri devagar.
—
Bilhete da Agnes:
Meu bebê…
Não chore por mim como se eu tivesse partido.
Porque eu não parti.
Eu só fui onde você ainda não pode ir.
O círculo não se rompeu.
Ele apenas se alargou.
Preciso estar lá…
Do outro lado da dobra.
Onde os segredos se transformam em caminho.
Onde o tempo espera… por nós dois.
Mas eu virei.
Virei te buscar.
Num entardecer que parecer incomum…
Numa música que tocar sozinha…
Num espelho que se embaçar por dentro…
Você vai saber.
E eu estarei ali.
Me sinta.
Me sonhe.
Me espere.
Agnes
Rainha das Sombras
Guardadora do Fio entre os Mundos
—
A vela ao lado se apagou.
E eu até podia jurar…
senti um toque no meu ombro.
Não de arrepio.
Mas de certeza…
Ela, de alguma forma, ainda está aqui.
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