Pandemia da Transformação
O tempo era 2060.
Malu, dentro de casa, sentia-se sufocada de uma forma que já não conseguia mais suportar.
Malu Carl Boiler, 28 anos, havia adquirido uma casa antiga, cheia de histórias, mas dentro do que seu orçamento permitia. A cidade é Kambarrar — com cerca de quinhentos mil habitantes, fortemente industrializada — e Malu, como tantos outros, trabalhava de casa devido a uma pandemia pouco explicada, recém-chegada à cidade.
O que se sabia era muito pouco, até então.
Milhares de pessoas já haviam sido transformadas. O vírus parecia provocar alterações biológicas profundas nos indivíduos, levando-os a uma condição bestial. As autoridades passaram a enclausurar os infectados e declararam estado de sítio por tempo indeterminado.
Durante os intervalos, Malu costumava ligava para o irmão, Orácio.
— Orácio, meu irmão… não estou aguentando mais ficar em casa.
— Calma, maninha. Eu sei que não está fácil, mas tenho amigos que estão sendo transformados e levados pela polícia… consegue imaginar isso?
— Meu Deus… onde vamos parar com tudo isso?
— Vamos orar. Deus há de nos trazer conforto, mana.
— Qualquer coisa você me liga mano, promete?
— Prometo.
— Abraço.
— Abraço.
Malu tinha quarenta minutos de intervalo. Quinze deles já haviam passado na ligação com o irmão.
Ela se levantou e foi até a cozinha. O chão de tábuas antigas insistia em ranger sob seus pés, como se tentasse lhe dizer algo — algo que ela não tinha a menor intenção de compreender.
Na cozinha, comeu frutas: mamão, bananas, uvas. Respirou fundo, buscando algum controle emocional. Tentava se reconectar à sensação de vida enquanto observava o tempo escorrer silencioso.
Quando o intervalo terminou, voltou ao trabalho.
Já imersa em um atendimento, Malu prestava suporte tecnológico remoto. Naquele momento, ajudava um cliente chamado Amadeo a ajustar o sistema antivírus de sua casa.
Foi então que o som veio.
Batidas na porta principal.
Ela pediu licença rapidamente e correu até a sala.
O terror instalou-se em sua mente no instante em que percebeu: três infectados tentavam entrar em sua casa.
Ela tem a sensação de ouvir seu nome — não sabe dizer ao certo, sua respiração está ofegante, as mãos suadas, pensa em ligar para Orácio… Melhor não preocupar o irmão.
Pega uma cadeira, escora na maçaneta da porta — e grita…
— O que vocês querem aqui?
Vão embora…
Escuta uma vós, vinda de um deles que ela não sabe qual, sussurrar:
— Precisamos de ajuda! — É o que ela parece entender.
— Eu sinto muito, estou com limitações para caminhar, meu irmão policial deve chegar em instantes… vocês podem aguardá-lo ai se quiserem.
Se aproxima da porta, não sabe como conseguiu falar com os infectados, escuta… percebe que eles se afastam, vai até o olho mágico e de fato, os vê indo embora.
Malu pensa:
“De alguma forma eles conseguem falar, discernir sobre o certo e errado, eu falei de um irmão policial e eles se foram. Será que deveria tê-los ajudado?”
De volta a mesa, ela liga o noticiário em seu próprio sistema…
TV BRIX INFORMA
A Prefeita Martha Luca de Kambarrar, se pronunciou nessa quarta-feira dia 26 de Outubro de 2060:
“Estaremos disponibilizando 16 unidades móveis por região sendo:
Quatro ao norte de Kambarrar, quatro ao sul, quatro ao leste e quatro a Oeste.
Quero trazer aqui uma notícia muito positiva, que nos motivou a tomar essa ação.
O individuo infectado tem um limite de 48 horas, que os permite serem trazidos de volta, logo, se você tem alguém perto de você, que você saiba que está com febre alta, manchas avermelhadas pelo corpo, desconexo ao conversar, irritabilidade. Não perca tempo, leve-o até uma unidade móvel, para receber atendimento e seja recuperado sem danos maiores. Nos ajudem a salvar mais vidas.
Continuem em casa, todo cuidado é pouco.
A prefeitura de Kambarrar está fazendo o possível e impossível para conter o caos.
Façam vocês também… Obrigado”
A mente de Malu logo trás o momento em que ela falo do irmão policial — fazendo com que três dos infectados que poderiam ser salvos, fugissem assustados de sua porta. Sente o peito comprimir, sente um desconforto, busca se alto aliviar:
“Eu não tinha como saber, eu tive muito medo, estou em paz”
Ela atende naquele dia cinco ocorrências com atualização de anti-vírus residencial.
Ao final da tarde se sente cansada, desanimada — a quarentena está sufocando Malu.
Ela toma banho, prepara algo para comer e pensa em sair e dar uma volta, ainda que no próprio bairro. Mas, o medo como uma voz autoritária interior, impede que ela saia…
Deitada no sofá, ela pega um livro para ler — não consegue, tem uma mente inquieta demais.
Pega o celular e busca por notícias de Kambarrar.
Encontra que três infectados transformados, bestiais, teriam atacado um casal, tudo indicava que eles teriam vindo do bairro da moca (bairro de Malu), teriam atacado quatro moças universitárias caminhando pela Avenida Santiago. Maria da Graça 21 anos, Lúcia Moriati 20 anos, Agata Dacotta 21 anos e Francisca Baurraus 22.
As quatro garotas estavam desaparecidas até o momento — e a prefeita pedia para que se alguém tivesse alguma informação. Ligasse para o número 187, direcionado para esse tipo de ocorrência.
O que se falava a cerca da aparência de um infectado — era que os transformados lembravam lobos humanos — mas ninguém queria olhar tempo suficiente para confirmar.
Um incômodo cresce no peito de Malu, que levanta e vai preparar um chá.
Em sua cozinha absorta, ela não percebe que a água ferve por tempo demais, fazendo com que ela complete a água e precise aguardar por mais tempo.
Se sente com grande dificuldade de conter a agitação interna, ouve sons de sirene, ouve helicóptero sobrevoando o bairro, pensa nas quatro moças infectadas — pensa nos rapazes que vieram a sua porta e algo a faz sentir, que as moças foram atacadas e infectadas por eles.
O fato de ela não ter os ajudado, se tornara um monstro interno que ela não sabia como conter.
Perturbada, amedrontada, ela deita e procura dormir.
Como um presente vindo do desconhecido — ela consegue adormecer.
Pela manha:
Malu acorda se debatendo — chorosa, sentia-se sendo atacada por três infectados. Ela se senta na cama, vulnerável, corpo pesado.
Olha o sistema computacional de trabalho sobre a mesa, se senti sufocada, sem motivação para trabalhar. Malu esta cansada, está presa em casa por mais de mês, sua empresa AstraBio Advanced, colocou todos os funcionários que atuam no atendimento ao cliente — em casa devido a pandemia.
Ela levanta, faz seu café, toma como se fosse o último deles.
Se prepara para começar a trabalhar, sofrendo… não porque não goste mais de trabalhar, não porque rejeite a AstraBio Advanced.
Mas por se sentir presa. A pandemia da transformação, como está sendo chamado pelos noticiários locais, parece comprimir a alma de Malu, parece distorcer sua realidade.
Ela questiona se o mundo a sua volta é real. Está convivendo com um medo, que parece não caber mais dentro de si.
“Isso é mesmo necessário?”
Ela se vê refletindo sobre sair e dar uma volta, isso a faria se sentir viva novamente, ela suspeita.
Com tudo, naquele momento, ela precisa ajudar pessoas — precisa trabalhar.
Ela assim o faz…
Primeiro atendimento.
Doutor Walter Assis — Ela o ajuda, refaz todo o seu sistema de segurança interna.
O homem fica grato, agradece Malu com tanta intensidade que a faz refletir.
“Isso aqui me faz ajudar pessoas… Isso é um paradoxo infernal”
Outro atendimento:
Márcia Fran, o sistema de casa inteligente esta falhando.
Malu entra no sistema de Márcia, localiza o erro — corrige. A mulher muito satisfeita, não só agradece Malu, mas lhe dá dez estrelas e deixa uma comentário que toca profundamente seu coração.
Malu respira fundo, fecha os olhos por uns segundos.
Retorna…
Outro atendimento:
Abgail Bensson, lhe conta que teve o sistema de segurança quebrado por infectados.
Malu sente um incomodo bizarro dentro de si.
Mas, aciona os rapazes da manutenção local…
Os envia até a residência de Abgail.
E assim ela vai até às 16:00… quando para, toma seu banho e encara a porta de saída.
O Bairro da Moca é Famoso pelo abraço da natureza, bem arborizado, muitas casas com flores no entorno — muito verde. Malu se sente precisando disso.
Abre a porta e sai, respira o ar do lado de fora… se sente mais leve.
Olha para um lado e para outro, não vê nada. Começa a caminhar, pretende dar uma volta no quarteirão.
Ela desce a rua, poucos metros respirando fundo, observando a solidão da rua. Chega ao final da Monsenhor, quando vira à direita na Avenida Santiago, Malu se depara com um grupo de infectados transformados, que a encaram. Ela não pensa muito, da meia volta e corre, percebe que os infectados também correm.
Ela se sente assustada, pensa em gritar, melhor não, percebe que não está tão longe assim da sua casa… corre como nunca, não olha para trás.
Entra dentro de casa, tranca a porta, sente logo os arranhões do lado de fora, conclui que os arranhões deixam evidente que eles eram muito mais rápidos, que se sua casa fosse um pouco mais distante.
Ela estaria perdida, escora a maçaneta com a cadeira.
Entra em um dos quartos, tranca a porta, escora com cadeira, coloca fones de ouvido.
Não quer ouvir nada.
Depois de cerca de uns trinta minutos mais ou menos, Malu tira o Fone, ouve — silêncio.
Abre a porta do quarto, olha a porta da sala, vai até ela e olha pelo olho mágico, não vê mais nada.
São 17:40 ela se sente vulnerável, sem saber o que fazer, quando num súbito — a campainha toca, aquilo parece sacudir a alma de Malu. Ela vai até a porta, é o irmão Orácio.
— Meu irmão o que é isso? Você por aqui não avisou que viria, está tudo bem?
— Sim Mana, senti saudade.
— Como saiu de casa?
— Ah, senti vontade de vê-la, peguei o carro e dirigi até a Moca. Não estamos tão distantes assim.
— É tão bom vê-lo, me sinto tão carente mano! — Malu abaixa a cabeça.
— Mana, vem aqui… — A voz de Orácio é de conforto.
Ele abraça forte a irmã, aquele abraço surge como um estabilizador interno.
Malu sente-se melhor.
— Muito obrigado irmão, eu precisava muito desse abraço. Acho que — passei por muito aqui.
Orácio pedi uma blusa a irmã. Que vai até um quarto e pega uma blusa de moletom vermelha e entrega ao irmão.
— Você está sentindo frio Orácio?
— Sim, você não mana?
— Nada… aliás, um pouco de calor. Venha, vamos comer algo.
Na cozinha, ela prepara misto quente para os dois com refresco de laranja.
Comendo, Malu percebe a respiração de Orácio um tanto mais pesada.
— Está cansado irmão?
— Eu não.
Ele balança a cabeça um pouco mais rápido que o normal.
— O que foi isso? — Malu solta uma gargalhada.
— Eu nem sei. — Os dois disparam a rir. Algo que para Malu… a faz refletir sobre o contato humano.
“Eu estava precisando muito disso”
Mas aquela sensação confortante que ela sentira, logo daria lugar a algo mais intenso e estranho, errado.
Orácio tenta falar algo, mas vacila… e acaba dizendo:
— Que misto gostoso mana!
— Você não ia dizer isso Orácio. O que foi?
— Eu não sei, algo não permitiu.
— Como assim, que história é essa?
— Malu, veja se tenho febre?
Orácio se aproxima da irmã — que toca sua testa.
— Orácio meu irmão. — Ela se exalta.
— Calma mana, eu tô… — Orácio varia e não consegue falar.
— Orácio eu to ficando nervosa, o que há com você?
Ele levanta a camisa, um arranhão com cerca de uns dez centímetros na barriga de Orácio aparece.
— Mano, porque demorou a me mostrar? Temos de correr venha.
— Eu não — não aguento.
— Venha, eu te ajudo, escora aqui em mim…
Malu com muito jeito ajuda o irmão a entrar no carro.
Ela o leva para a unidade móvel mais próxima da Moca.
— Como você está?
Ela pergunta ao irmão. Orácio já não responde, não consegue.
Na unidade móvel, os paramédicos agem com rapidez.
Levam Orácio em uma maca, para dentro de um veículo preparado.
Um deles se aproxima de Malu.
— Você é?
— Malu Carl Boiler. — Ela responde.
— Malu, ele é seu irmão, confere? Senhor Orácio Carl Boiler. Eu te tenho boas notícias!
Pode voltar para sua casa, você fez um excelente trabalho, ele será recuperado.
Pelo que vimos está infectado por cerca de dez horas.
— Ah! Meu Deus!
— Se acalme, ele será recuperado. Só não é um processo de extrema rapidez. Os primeiros procedimentos estão sendo realizados, para que então possamos levar seu irmão para o hospital.
Lá, por cerca de um ou dois dias — você terá seu irmão novo em folha junto de você.
— Você é Jacinto Dias… — Ela confere o crachá. — Jacinto, muito obrigada, de verdade.
— Nada, fica bem e volte para casa mocinha.
Malu se afasta, entra no carro e volta para casa. Muito mais leve, satisfeita, fizera a coisa certa.
Ao descer do automóvel, se depara com um jovem, bonito, pálido.
— Moça, eu… queria um pouco d’água, você poderia me ajudar?
— Claro querido, venha…
Malu abre a porta, entra… o rapaz, entra atrás dela, que vai até a cozinha pegar a água.
Quando Malu retorna com o copo, o rapaz havia entrado para o banheiro.
Ela se aproxima lentamente da porta…
— Sua água querido.
Não há resposta — apenas silêncio… Malu sente uma ansiedade pesada invadi-la.
Olha para o chão e vê gotas de sangue — o coração comprime. Ela pensa:
“Eu fiz a coisa certa?” Não tenho certeza…”
O silêncio dentro do banheiro durou tempo demais — até que…
Um som de madeira rachando explode dentro do banheiro.
Malu — não bateu na porta.
Não muito distante dali — Hospital Maria das Dores.
Orácio saia da sala de cirurgia para o quarto, consciente, pensando na irmã.
Com gratidão, alegria, queria sair logo dali, para ir até ela… precisava vê-la, abraçá-la, agradecer.
Um dia se passa…
Orácio, ainda pela manhã, recebe a visita do Doutor Marcos — que o libera, o parabeniza.
— Eu devo a minha doce irmãzinha Doutor, quem me pegou com todo amor e carinho.
Me trazendo a tempo de ser salvo.
— Você é um abençoado Orácio — uma irmã assim, é realmente um presente divino em nossas vidas. Vá na paz, vida que segue e por favor, fique em casa rapaz.
— Eu prometo e agora, vou ficar na casa da minha irmã… isso é legal porque um cuida do outro.
— Exatamente — excelente ideia.
Orácio sai do Hospital — chama por um taxi. Malu não atendia o telefone.
O taxi chega, pega Orácio e o leva para o Bairro da Moca.
Ele para diante da casa. A porta está entreaberta.
Empurra levemente. O coração dispara.
A porta do banheiro está destruída.
A porta do quarto de Malu permanece fechada.
Marcas de sangue no chão.
Um bilhete chama sua atenção.
Orácio o pega.
Não há mais o que fazer — vá embora o mais rápido que puder, por favor…
Eu te amo.
Malu.
O peito aperta. Ele tenta chamar pela irmã — mas a voz não sai.
Apenas escuta.
Do outro lado da porta… uma respiração pesada.
Orácio fecha os olhos.
Dá um passo para trás.
Depois outro.
Caminha até a saída da casa.
Quando toca a maçaneta…
Um urro gutural ecoa pelo corredor.
Não feroz.
Não humano.
Orácio não olha para trás.
F.I.M. 🌹
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