Memórias de Chernobyl


Quando o tempo parece discordar da razão

Capítulo 1

Um Cheiro Atemporal

Era uma manhã ensolarada de 20 de fevereiro de 2025, em Juiz de Fora, e Wendel sentia-se realizado. Acabara de sair da imobiliária onde pegara as chaves de sua nova casa — uma residência na Rua São Mateus, no mesmo bairro. Uma casa grande, com quatro quartos, lavanderia, três banheiros, espaço… tudo aquilo o encantava. Vindo de uma família humilde, Wendel sempre morara em um pequeno apartamento, onde dividira a vida com três irmãos, sua mãe e seu pai, que já havia falecido.

A cidade já estava frenética naquela manhã — buzinas, passos apressados, vozes se cruzando — e Wendel andava o mais rápido que podia. Suas férias haviam acabado de começar e, além de organizar tudo dentro de casa, também queria fazer uma viagem.

Diante da casa, Wendel para e observa. O coração dispara.

Como é linda… gratidão.

Ele repara que havia mais casas à sua volta, ignora, pega as chaves e abre a porta. Por dentro, mais uma vez se encanta: como era grande, espaçosa…
De repente, a campainha toca. Ele se assusta, corre e abre. Já era a loja de móveis iniciando a entrega das compras.

O resto daquele dia 20 passou assim: Wendel feliz, vendo seu novo espaço tomar forma, ajeitando algo aqui e ali… até que a noite chega, sem pedir licença. Wendel olha as horas: 18h35. Conclui que seguiria guardando e ajustando o que desse até 19h30, quando pararia para tomar banho e comer algo.

Assim foi feito.
Só faltavam detalhes que poderiam ser finalizados no dia seguinte. Ele para, toma seu banho e, adepto da dieta carnívora, prepara sua carne e ovos. Come. Depois, lava a louça.

Com tudo lavado e guardado, vai para a varanda à frente da casa, observar um pouco da vida passando.

Ali, sente um cheiro de passado — algo que o intriga. Não sabia explicar, mas aquele cheiro parecia atemporal.

Wendel se mexe, anda em volta da casa… lembra-se de seu pai, Francisco.
Percebe que o cheiro não parecia ter uma direção lógica. Ainda inquieto, resolve entrar e decide ler alguma coisa.

Em posse da Divina Comédia, de Dante Alighieri, já deitado em sua cama, acaba adormecendo.

No dia seguinte, Wendel acorda esperançoso de que aquele novo dia lhe trouxesse algo de bom. Ainda recebe a chegada de alguns eletrônicos e, naquela manhã, recebe também uma ligação de sua irmã, Carolina.

— Mano, e aí?
— Olá, minha irmã… ah, eu não podia estar mais feliz!
— Nossa! Fico feliz também, meu irmão. Por você. Não sei quando exatamente poderei ir a Juiz de Fora, mas prometo que, assim que for, te ligo pra conhecer sua casa. Mas me conta… já arrumou tudo?
— Primeiro, eu entendo. Sei das suas dificuldades, irmã. Quero que saiba que não deixo de orar por você e por sua família. E sim… agora pela manhã estou finalizando com a chegada de alguns eletrônicos.

Wendel faz uma pausa.

— O que me deixou um pouco desconfortável foi sentir o cheiro do pai aqui… você acredita, Carol?
— O cheiro do nosso pai? Como assim? Me explica melhor…
— Ontem eu terminei de arrumar os móveis, tomei banho, me alimentei e fui ali pra varanda. Quando cheguei lá, senti o cheiro do pai. Olha que insano.
— Nossa… isso é confuso, irmão. Você tem certeza de que era mesmo o cheiro do nosso pai?
— Então… o cheiro me trouxe ele à memória, mana.
— Reza por ele. Eu vou rezar também. Preciso ir agora, você sabe.
— Sim. Obrigado por ligar. Te amo. Fica com Deus.
— Beijo. Te amo muito. Fica com Ele.

Capítulo 2

Quem é Andriy Kovalenko?

Wendel desliga o aparelho e sai na varanda, todos os sentidos ligados… o cheiro do pai estava ali. Não fazia sentido. Ainda assim, morava em sua mente.

Passados cerca de três minutos, Wendel escuta:

— Wendy, venha, rapaz… preciso da sua ajuda!

O coração de Wendel dispara. Aquela era não só a voz do pai, mas a forma carinhosa como lhe chamara. Wendel se desorienta, gira no próprio eixo, confuso.

— Aqui, rapaz… à sua esquerda.

Ele sai da casa e anda para a esquerda, onde outra casa se fazia presente, com um senhor em uma cadeira de rodas.

— Ah, você está aí. Venha logo, me ajude. Pegue pra mim minha medicação. Yana se foi… eu não posso exigir muito dela, sabe como é? Acho que fui um pai muito ausente.

— Senhor, onde fica sua medicação? Prazer, eu sou Wendel.
— Eu sou Andriy, e o prazer é todo meu. Obrigado por vir, não é qualquer um que vem, hehe. — Andriy sorri sem jeito.
— Seria aquela sobre a geladeira?
— Sim, essa mesma. É pra dor… eu não me aguento de dor nas costas.

Wendel pega a medicação.

— Água?
— Sim, por favor.
— Aqui está.
— Muito obrigado, rapaz… não sei o que seria das minhas costas sem você aqui agora.

— Você mencionou Yana. Quer me falar algo sobre ela? Seria sua filha, né?
— Sim… Yana Kovalenko, agora com seus 39 anos. Eu… — a voz do velho embarga. — Eu a tive em 1986, justamente no momento em que aquele reator 4 foi para os ares, em Chernobyl.

Wendel arregala os olhos.

— O quê? O que o senhor está me dizendo? Veio da Ucrânia?
— Sim, rapaz… mais precisamente de Pripyat. Eu era um operário da Central Nuclear Vladimir Ilyich Lenin, em 1986. E foi justo ali, no acidente, que Yana nasceu — 23 de abril de 1986.

Ele respira fundo.

— Eu tive muito medo. Estive exposto à radiação, sabe? Isso… ferrou com meu juízo. Um amigo, com tudo certo para vir para a América Latina, me chamou. Eu não tive como não agarrar com força a chance — e ficar o mais longe possível de Yana.

Os olhos do velho se enchem de lágrimas. Wendel se sente embaraçado, não sabe o que dizer. O velho continua:

— Yana acabou sendo criada pela avó. Ela teve uma menina, Olena, esteve aqui no final do ano passado e não a trouxe. Eu daria tudo no mundo para ver Olena.

— Nós vamos dar um jeito. Fique tranquilo.

— Você não conhece Yana.

— E você não me conhece.

O velho para e encara Wendel com outros olhos. Naquele olhar, podia-se ver esperança — quase redenção.

— Ok… se está dizendo, Wendel, vou guardar essas palavras, se me permitir.
— Faço questão. Agora preciso ir. O senhor vai ficar bem?
— Sim, eu vou ficar bem. Yana deixou o remédio no alto quando se foi…
— Quando ela se foi?
— Na semana passada.
— Certo. Qualquer coisa, grita.

— Muito obrigado, rapaz. De verdade.
— Não tem que agradecer. Estamos aqui pra isso. Boa noite, senhor Andriy.
— Boa noite, rapaz.

Wendel deixa a casa de Andriy reflexivo. Já em sua casa, pensa em como fará para convencer a filha de Andriy a vir para o Brasil e trazer a filha. Ele não tem respostas prontas, mas sabe que em breve precisará encontrá-las.

Toma banho, percebe que a noite se aproxima. Se alimenta, lava a louça e se deita. Retoma a leitura da Divina Comédia, mas sente dificuldade: a mente está presa no pai e no senhor Andriy.

“Devo fazer pelo senhor Andriy o que não fiz pelo meu pai? Seria isso uma oportunidade de redenção?”

A mente de Wendel está volátil. Incapaz de se concentrar, abandona o livro. Decide que, no dia seguinte, buscará entender melhor quem é Yana. O que aconteceu com seu pai no passado ainda o martiriza. Ele se sente preso; a culpa o abraça e não parece querer soltá-lo.

Wendel acaba adormecendo.

Capitulo 3

Quem é Yana de verdade?

No dia seguinte, acorda, levanta, prepara o café e pensa no senhor Andriy. Ele deveria saber se o velho precisava de algo. Vai até a varanda e presta atenção. Ouve Andriy falante:

— Filha, ele se chama Wendel. Veio me ajudar, me trouxe os remédios… Você os deixou em cima da geladeira.
— Sim… está tudo bem. Você não vai trazer Olena?
— Filha, faça um esforço. É importante para o pai.
— Tudo bem, eu entendo. Fique com Deus.

O coração de Wendel pesa. Ele sente dó de Andriy e resolve levar café ao idoso. Pega a garrafa térmica e vai até a casa ao lado.

— Bom dia! Lhe trouxe café.
— Opa, rapaz… que coisa maravilhosa. Entre.
— Onde pego uma xícara?
— Ali na cozinha, você vai ver.

Wendel entra e, sobre uma mesa, vê algo que parece um medidor de radiação. A mente voa. Ele pega a xícara e retorna.

— Aqui está…

Andriy se serve e comenta:

— Falei com Yana hoje. Ela é rabugenta… não se sente preparada para trazer Olena.
— Eu preciso conversar com ela.
— Veja… preciso que saiba algo. Yana passou por muito. Ela está revoltada… ou desacreditada dos homens. Quando teve Olena, em 2023, o noivo dela desapareceu. Assim como eu sumi da vida dela, Ramon — o noivo — também sumiu.

A mente de Wendel processa. Ele entende.

— Sim… eu compreendo a insegurança dela.
— Você ainda quer conversar com ela?
— Sim. Acho justo que o senhor veja sua neta. Quero mostrar isso a ela. Se vier, iremos juntos buscá-la no Rio de Janeiro, no Aeroporto do Galeão.

— Ah… isso seria fantástico! — Andriy se emociona. — Vou te passar o número dela.

Ele gira a cadeira, pega um celular antigo sobre uma mesa cor de barro e troca os números com Wendel. Pelo WhatsApp, envia o contato de Yana Kovalenko.

Wendel adiciona o contato e se impressiona. “Como ela é linda.”

— Tome seu café antes que esfrie. Vou ligar de casa.
— Certo, fique à vontade. Seu café é cheiroso, rapaz.
— Eu moo os grãos.
— Fantástico…

— O senhor trabalhou muitos anos em Chernobyl?
— Hum… veja… Reator 4: destruído na explosão de 26 de abril de 1986.
Reator 2: desativado em 1991 após um incêndio.
Reator 1: encerrado em 1996.
Reator 3: o último a operar, desligado em 15 de dezembro de 2000.

Eu comecei em 1979. Trabalhei lá por sete anos. Saí no dia da explosão do Reator 4.

— Isso deve ter marcado vocês profundamente.
— Você não imagina.
— Você acha que Yana me dará trabalho? Estou ficando ansioso, para resolver isso.
— Haha.. ela é amável, mas assustada, tudo é possível.
— Eu vou e volto, quero ver se resolvo isso.
— Perfeito, eu entendo você, vá com Deus rapaz.
— Ok, fique com Deus eu já volto.

Em sua casa:

Wendel disca para Ucrânia, Andriy havia dito que Yana fala português. O telefone está chamando.

— Oi pronto.
— Yana, eu sou Wendel, vizinho de seu pai.
— Sim, ele me falou de você.
— Eu to te ligando para te pedir que traga sua filha para ele ver. Ele deseja muito isso Yana. Ele sente muito sua falta.
— Ele virou as costas para mim, ele já te contou isso?
— O que ele fez, eu também faria… Amar de verdades também significa se afastar se preciso for. Ele não achou seguro estar próximo a você.

Um silêncio se instala na ligação — Wendel percebe que pegou de jeito Yana. Ela está de fato reflexiva.

— Eu.. nunca pensei por esse lado sabia?
— Sim, eu entendo. Seu Pai é um bom homem.
— Obrigada pelo que tem feito por ele viu!
— Faço de coração. Mas então, você vem? Precisa de ajuda com alguma coisa?
— Não em me viro — Vou sim para o Brasil. Depois de amanhã eu pego um voo para o Rio de Janeiro.
— Estaremos lá, esperando você.
— Yana agradece, se despede e desliga.

Wendel dá um soco no ar. E sai correndo para a casa de Andriy.

— Consegui, eu consegui… Yana virá e trará Olena para que você a veja.
— Isso é muita emoção, rapaz eu não acredito.
— Pois acredite… ela virá depois de amanhã, logo chegará dia 25. Hoje 22, ela vem depois de amanhã 24, um dia de voo — chegará 25 de Fevereiro.
— Isso é demais — me sinto feliz e ansioso.
— Bom demais.

Capítulo 4

Tempo Resgatado

Os dias 22, 23 e 24 de fevereiro transcorreram entre ansiedade e preparativos emocionais. Wendel sentiu-se, pouco a pouco, integrado à família Kovalenko, o que, de alguma forma, amenizou o desconforto de pensar em seu próprio pai. Ele estava em paz — e, bem lá no fundo, ansioso por conhecer Yana.

Naquela manhã bem cedo de 25 de fevereiro, Wendel acorda, nem chega a tomar café. Se arruma, tira o carro da garagem e vai até a casa do senhor Andriy.

— Muito bom dia! Animado? Vai ver a netinha hoje? — brinca.
— Sim, garoto… você é uma bênção na minha vida. Muito bom dia. Eu não estou me aguentando de ansiedade.

— Tempos melhores virão. Deixa eu te ajudar?

Wendel pega uma cadeira comum, acomoda o senhor Andriy com cuidado e, em seguida, fecha a cadeira de rodas, guardando-a no porta-malas. Depois, volta a pegar Andriy no colo e o coloca no banco da frente, ao seu lado.

O idoso era só sorriso — uma leveza que parecia inédita em sua vida.

O voo tinha chegada prevista no Rio às 9h15. Às 6h02, deixavam Juiz de Fora em direção à cidade maravilhosa.

Durante a viagem, Wendel se abre com o senhor Andriy.

— Sabe… eu carregava um fardo dentro de mim que, ao te conhecer, acabou se dissipando.
— Pode falar, rapaz. Isso lhe fará bem. Estou aqui, todo ouvidos.
— Vivi um período da minha vida em que meu pai teve Alzheimer. Um daqueles casos realmente graves. Eu estava sozinho. Minha família não podia me ajudar. Foram anos difíceis… perdi a paciência com ele muitas vezes, entende? Até pouco tempo atrás, eu não conseguia me perdoar por isso. Mas conhecer você, vivenciar tudo isso com sua família, despertou algo muito positivo em mim. Sou grato por isso.

Andriy o escuta em silêncio, atento.

— Você não deveria ser tão duro consigo mesmo. Essa doença é ingrata. Eu cortei o açúcar aos trinta e cinco justamente por medo disso. Lidar sozinho com alguém nessa condição exige mais do que qualquer um imagina. Perdoe-se, rapaz. Seu pai certamente entendia… e não levou nada disso consigo. Fique em paz.

Wendel estava, enfim, em paz. Sentia a vida mais leve, filtrada.

Às 8h46, deixava o carro no estacionamento do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim. Ajustou o senhor Andriy na cadeira e seguiram para o portão de espera.

Ali, naquele lugar, o senhor Andriy sentiu o tempo parar. Em sua mente, imagens se formavam: como seria Olena, se ela o amaria, se ficaria agarrada a ele. Ao olhar para Wendel, a gratidão parecia infinita.

E então, ao avistar Yana vindo em sua direção, com Olena de mãos dadas, seu coração pareceu querer sair do peito.

— Pai… essa é sua neta, Olena Kovalenko. Filha, dá um abraço no vovô.

Aquele abraço suspendeu o tempo. Andriy veio às lágrimas. A pequena, inocente, perguntou:

— Por que você está chorando, vovô?
— Porque eu te amo muito, Olena.
— Eu também te amo, vovô. Não precisa chorar.

Do outro lado, Yana se emocionava, sendo amparada por Wendel. Naquele instante, mais peças do grande quebra-cabeça da vida se encaixavam — de forma justa, real, verdadeira.

Já a caminho de Juiz de Fora, dentro do carro, Wendel e Yana trocavam olhares. O que queriam dizer com aquilo ficava guardado dentro de seus corações. O senhor Andriy, com Olena no colo, sentia-se como nunca; a felicidade transbordava.

Chegaram à Rua São Mateus, em Juiz de Fora, às 14h40, pois haviam parado na estrada para almoçar.

— Pai, sua casa precisa ser limpa urgente! — Yana solta uma gargalhada leve.
— Wendel, rapaz, venha cá… o que você está fazendo por mim… eu não sei como lhe agradecer. Nada do que eu fizesse seria compatível, parece…
— Isso me faz feliz, Andriy. Estamos aqui para isso — nos ajudar, nos evoluir quando é permitido. Eu estou feliz de verdade por todos vocês.
— Nós estamos felizes também, Wendel. Você me fez olhar meu pai, depois de tantos anos, de forma diferente. Obrigada de coração.

— Por nada. Isso é só o começo… Eu preciso ir agora. Preciso ver minha casa, como estão as coisas por lá…
— Mas você volta, né? — Yana pergunta, com o cenho franzido.
— Por que vocês não vão lá pra casa? Vamos fazer algo juntos? Tomar um vinho, que tal?
— A ideia é incrível! — comenta o senhor Andriy.
— Ok, gostei também. A que horas?
— Ao entardecer, o que acha?
— Acho perfeito — responde Yana.
— Então combinado. Eu vou nessa…

Capítulo 5

O Quebra-Cabeça da Vida

Wendel sai da casa dos Kovalenko mais leve; a sensação de missão cumprida era quase palpável. Já em casa, toma um banho, relaxa no sofá e acaba cochilando até as 16h48. Acorda feliz, satisfeito.
Havia sonhado com o pai — no sonho, ele estava feliz ao seu lado. Ambos faziam uma viagem cujo destino Wendel não conseguia lembrar.

Às 18h47, Yana toca a campainha.

Wendel sente o coração acelerar e corre para abrir.

— Sejam muito bem-vindos!
— Uau… sua casa é linda! — Yana dispara, sem se dar conta.

Olena, junto do avô, observa tudo encantada. Vinho é servido para os adultos; frutas para Olena, que corre pela casa como se estivesse em seu próprio jardim de infância imaginário.
O avô? Babava de felicidade.

Yana e Wendel passam boa parte do restante da noite juntos — conversando, se conhecendo, compartilhando silêncios confortáveis.

O avô sai primeiro, levando Olena.
Yana fica.

— Eu não sei o que está acontecendo entre nós… me sinto tão insegura.
— Eu te entendo. Seu pai me contou.
— Então você já sabe…
— Sei. E entendo você. Não precisa ter pressa com nada.
— Você é o quê? Um anjo?
— Sei lá… talvez sejamos só peças de um quebra-cabeça gigante, tentando se encaixar.
— Você tem respostas profundas, sabia?
— Talvez. E você contribui para isso, sabia?
— Como assim?
— Estar com você… de alguma forma me deixa mais profundo, mais sensível, mais eu mesmo. É como voltar pra casa — aquela de dentro da gente, entende?
— Entendo… é bonito. Você é um homem encantador, Wendel.
— Obrigado. E você é uma mulher muito especial, Yana.

Ali, o tempo parece parar.
Os olhares se encontram com mais intensidade. Wendel se aproxima. Yana permite, ficando imóvel. Os dois se aproximam lentamente…

E, antes que o beijo aconteça, Yana se afasta.

— Me perdoa? — a respiração ofegante.
— Tudo bem. Eu não estava brincando quando disse que entendo. E que não quero que você tenha pressa.

Yana sorri, se despede…
e vai.

Naquela noite, Wendel adormece com a mente mais organizada. Em paz.

Três dias se passam. A sinergia entre Wendel e a família Kovalenko se aprofunda.
Numa manhã, Wendel retorna exausto à casa de Andriy após passar horas com Olena na Praça Jarbas de Lery Santos, perto de sua casa.

Yana e o pai estavam finalmente leves; o amor entre os dois era perceptível.
Mas Yana, de forma inesperada, anuncia seu retorno à Ucrânia.

— Mas, filha… você não vai ficar comigo? Vai mesmo levar Olena?

Olena chora, não quer soltar o avô.
Wendel permanece em silêncio.

— Pai, minha vida está lá. A vó me espera, a escolinha de Olena… ela precisa voltar.
— Tudo isso é simples de resolver, Yana — diz Andriy. — Só espero que você saiba o que está fazendo.

Wendel prefere se retirar. Despede-se e volta para casa, onde almoça e passa a tarde lendo.
Yana e o pai resolvem os detalhes do retorno.

— Filha… você tem certeza disso?
— Tenho, pai. — Yana o abraça forte. — Eu te amo. Isso não tem relação com o passado. É a vó, o colégio, meu trabalho…
— Meu coração está partido — responde Andriy —, mas vou acabar entendendo. Vou ficar bem.

Os dois dias seguintes passam com um gosto amargo. Para Wendel, a sensação era clara: o quebra-cabeça ficaria incompleto.
Ainda assim, ele estava leve. Aquela decisão não dependia dele.

No dia do voo, Wendel leva Yana, Olena e Andriy ao aeroporto do Rio.

Na despedida, Yana chora. A criança está inconsolável.
Andriy parece depender da presença de Wendel para conseguir suportar.

O avião ganha os ares.
E, naquele instante, tudo parece errado — como se não combinasse com o que havia sido construído nos últimos dias.

Wendel retorna com Andriy para Juiz de Fora e acaba ficando alguns dias na casa dele, preocupado com sua condição.

Quase uma semana depois, Wendel arrumava sua casa, aspirando o chão, quando o celular toca.

— Oi… sou eu.
— Yana… que bom falar com você. Como vão as coisas por aí?
— Vazias. Cinza. Sem tom.
— O que você quer dizer com isso? — o coração de Wendel dispara.
— Que aqui não é mais o meu lugar.
— E onde seria seu lugar agora, Yana?
— Ao seu lado… se você ainda me quiser.

Cinco dias depois, Yana desembarcava no Aeroporto do Galeão.
Não como quem visita —
mas como quem finalmente decide ficar.

O quebra-cabeça, antes aberto, começava a se ajustar.

Desta vez, não por acaso —
mas por escolha.

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