O Avesso de Cada Um

Quando apenas viver parece errado… avesso.

Acontecia todas as noites.

Morten sonhava com criaturas que lhe contavam sobre o avesso de cada um.

Ele não aguentava mais — eram criaturas infames, hediondas, e permaneciam por muito tempo em sua mente: quando acordado, quando trabalhava, quando tentava… viver.

Ninguém via. Ninguém sabia.

Só ele sentia o peso daqueles olhos, as vozes que murmuravam segredos invertidos, revelando pecados, desejos, o lado que ninguém mostra.

Algumas vezes, Morten acordava no meio da madrugada, suando, com a sensação de que uma das criaturas havia escapado do sonho e espreitava no canto escuro do quarto.

Começou a evitar dormir.

Mas o sono é um caçador silencioso.

Bastava piscar mais devagar, e as formas voltavam: bocas sem rosto, olhos que riam, línguas que sussurravam nomes de pessoas, muitas vezes conhecidas… sempre sobre o avesso, sempre sobre o que se esconde.

Um dia, ao atravessar a rua, Morten viu um homem parado na esquina, encarando.

Seus olhos… eram iguais aos das criaturas dos sonhos.

E, naquele instante, Morten entendeu:

Talvez o avesso também estivesse com ele.

Naquela noite, ao retornar para casa, tomou um ansiolítico, acreditando que escaparia do sono REM, que escaparia de sonhar.

Errado.

Dessa vez, as criaturas o cercaram ainda mais profundamente.

Uma delas se aproximou e o envolveu. Morten gritava, socava, tentava resistir… em vão.

A criatura, cada vez mais próxima, trazia uma sensação sufocante — falta de ar, falta de si mesmo.

Ele lutou até o fim, até que a criatura deixou de ser vista. Não porque desapareceu, nem porque se afastou, mas porque se tornou parte dele.

Morten acordou, abriu os olhos… e o mundo já não era o mesmo.

Suas vontades, princípios e valores pareciam deslocados, quebrados, irreconhecíveis.

O que havia se tornado Morten?

Talvez, agora, ele também habitasse o avesso dos outros.

Ou talvez… só talvez…

fosse apenas o começo do verdadeiro pesadelo.

Vida real.

Obrigado por estar aqui 🌼

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