O Cofre da Revelação


Segredos e Redenção em Plaza Secrets

— O evento que marcou Plaza Secrets, uma vila de pouco mais de 5.000 almas, começou em 1928. Naquele ano, Dona Inês, mulher de pulso firme e mistério nos olhos, foi eleita prefeita e ordenou: construir um cofre monumental bem no centro da Praça do Falcão Vermelho. Ali, cada morador poderia depositar, ao longo da vida, apenas um papel — um bilhete, uma carta, um segredo, um adeus. O Cofre da Revelação, como foi chamado, só conheceria seu conteúdo após a morte de Dona Inês.
A história aqui, filha, é de 1980 pra frente, o que consigo lembrar. Dona Inês se foi em 2019.
— Ok, continua, pai. Isso está ficando interessante!
Helena esfrega as mãos de ansiedade.
— Então, a família dos Moratti foi marcada por um evento em que o rapaz Alex, quando se formou, arrumou um emprego na cidade grande, que ficava coisa de uns 680 km de Plaza Secrets. Sua ida, com o tempo, adoentou a Januza, sua mãe, fazendo seu pai, o bronco do Luís Moratti, forçar muito para o Alex voltar pra Plaza Secrets. Alex, já bem estabilizado, noivando com Isabele, não quis saber de voltar, mas todo julho e dezembro, no Natal, ele voltava para estar com os pais.
Os boatos diziam que o relacionamento entre ele e o pai nunca mais foi o mesmo. O velho Moratti foi visto, numa noite cinza de agosto, depositando um bilhete no cofre, tarde da noite.
— Nossa, pai! Que situação, continua…
— A família Minard… foi a menina Letícia, mãe solteira, também acabou em atrito com o pai, Jair. Nunca mais foram os mesmos, sempre trocavam farpas, e Jair também foi visto numa madrugada colocando bilhete no cofre.
— Isso me deu dó dela.
— Sim, eu concordo, filha.
— Continua? Do que mais você se lembra?
— Do Gusmão e da Rosa. Eles se separaram e dizem os boatos que ele se arrependeu. Como me parece que foi ele quem fez algo errado lá, também foi visto em uma noite chuvosa de inverno rigoroso indo colocar um bilhete no cofre.
— Pai, esses aí são os pais da Marcela… O Ronaldo, você conhece ele, pai, já contou pra gente em uma roda de conversa que a Marcela teve um período sombrio, se envolveu com drogas, e dizem que foi isso de ver os pais separados.
— É, filha, isso não é nada saudável. Os filhos sofrem muito com isso, você mesma… sabe muito bem disso.
— Aff, nem fala, continua… Tô louca pra chegar na abertura do cofre. Foi aberto em 2019, né?
— Sim, filha, 2019. A próxima família é dos Madeira. Ali a parada foi mais insana. Dizem que a filha mais velha abandonou a religião dos pais, quis seguir um caminho diferente e acabou sendo expulsa de casa.
— Nossa, não acredito, pai!
— Foi sim, filha. É chocante, mas foi… A Flavinha saiu de casa e de Plaza Secrets. Os pais, depois de anos, tentaram alguma coisa, mas não encontraram a Flávia. Boatos dizem que ela acabou saindo do país, teria ido pra Espanha. Os pais foram vistos, depressivos, levando bilhetes em uma noite de outono para o cofre também.
— Nossa! Que loucura, o povo entra em conflito por cada coisa, né? Não é só o caso de conversar e buscar uma saída melhor pra ambos, pai?
— Com certeza, minha filha, mas lembre-se: somos seres humanos. Somos mais complexos do que tu possa imaginar. Filha, vai anotando aí as famílias para, no final, me ajudar nas revelações.
— Ah, boa, me espera que vou pegar uma caneta e um papel.
— Vou pegar um café, vai querer?
— Quero sim, mas nada de café fervendo, hein, pai! Tu sabe que café bom é só até 82 graus…
— Fica tranquila, filha, aqui em casa não tem crime contra o café!

— Filha, o café.
— Não estou achando caneta!
— Anota no celular, filha.
— Ah, hahaha, verdade, credo, nem pensei nisso.
— Então coloca aí… Família Moratti, Minard, Madeira. Gusmão e Rosa se separaram.
— Vou colocar só Gusmão, porque foi ele que colocou o bilhete no cofre.
— Ok…
— Vamos falar da família Rivera e acho que acabou, minha mente se lembra até aí. Caso eu lembre de mais, eu trago.
— Certo, me fala da família Rivera.
— Esse caso foi de dois irmãos, o Cal e o Dimas. Ali, o Cal parece que ficou devendo uma grana pro irmão, que não perdoou. Ficaram de rosto virado um com o outro, tempo suficiente pra adoecer a mãe deles, Dona Zezé. Isso perdurou anos, até que o Dimas foi visto colocando bilhete no cofre, também pela madrugada.
— Isso pela madrugada deve ser pra esconder, né, pai? Só que sempre um ou outro acaba vendo.
— Exatamente, filha, parece que quanto mais queremos esconder, mais olhos são atraídos.
— Pai, você nunca colocou bilhete lá?
— Se já tivesse colocado, não sei se falaria com você… haha. Mas não, filha, não tenho nada aqui guardado, não. O que tiver de falar com você, eu vou falar.
— Melhor assim mesmo. Agora vamos às revelações?
— Vamos às revelações: o pai vai dizer o que lembra dessas famílias, e caso eu lembre de algum bilhete perdido eu te falo também…
— OK, vai logo, estou aqui aflita. Me fala desse cofre? Como ele era?
— Era feito de metal, um alumínio mais grosso revestido com tinta antioxidante verde, e precisou ser aberto com maçarico. Tinha o formato de uma caixa de sapatos mais curta, com uma abertura bem pequena, como nos cofres de verdade, só que na lateral e mais baixa, pra que as pessoas pudessem inserir o papel.
— Que show!
— Então, no dia 30 de agosto de 2019, Dona Inês se foi. Uma situação boba, filha, caiu dentro de casa e bateu a cabeça.
— Nossa, pai, que coisa… ela morava sozinha?
— Nada, junto da filha mais velha, com o esposo e um casal de filhos.
— Poxa, pra morrer basta estar vivo.
— Exato, filha! No dia 21 de outubro de 2019, já o prefeito Orlando Matoso convocou o povo pra Praça do Falcão Vermelho, ordenou a abertura do cofre, montou palanque, foi um evento incrível.
— Nossa, que top!
— Sim. Aí, uma moça — se não me engano, Arlete, vereadora — pegava um bilhete, chamava alguém da família. Se a pessoa quisesse ler ali mesmo, lia; se não… só pegava o bilhete e levava consigo. O primeiro bilhete que me lembro foi do Gusmão:
“Rosa,
Eu também nunca me perdoei, eu sempre te amei e amo até a abertura do cofre com toda certeza, fiz aquilo com você, num momento de fraqueza, me arrependi amargamente. Espero que esteja feliz, e que um dia talvez, só talvez, você possa me perdoar.
Eu te amo
Gusmão”
— Nossa, pai, coitado!
— Ele leu o bilhete, mas ela não estava presente, já estava casada e certamente o marido não achou isso legal, né?
— Sim, eu entendo ele.
— O segundo que me lembro foi bem emocionante. Foi da Flavinha Madeira. Os pais já tinham morrido e ela veio de fora do país para acompanhar a abertura do cofre. O bilhete dizia:
“Flávia,
Nós nunca deixamos de te amar. A dor e o arrependimento nos trouxe o inferno na terra.
Se um dia ler esse bilhete, saiba que tentamos te achar, não conseguimos e nunca pudemos nos desculpar, filha.
Te amamos muito, e amaremos por toda eternidade.
Lúcio e Martha Madeira”
— Pai, meu coração apertou aqui, que triste!
— Sim, esse aí no dia eu chorei.
— Sabia, você é chorão.
— Teve um bilhete perdido lá que me marcou:
“Mina,
Aquele dia, eu te falei palavras duras. Achei que era só orgulho, que o tempo ia resolver, mas nunca pedi desculpas.
Se um dia esse bilhete chegar até você, saiba:
guardei o arrependimento por anos, mas nunca deixei de torcer pela sua felicidade.
Não precisa me perdoar, mas eu precisava te dizer:
eu senti muito.
J.”
— Caramba, pai, a força das palavras malditas — erradas, a vó falava muito disso, lembra?
— Sim, filha, minha mãe sempre falava isso: “cuidado com a palavra errada, elas têm um peso que você não imagina, filho.”
— Filha, me lembrando aqui do bilhete do Dimas:
“Cal,
Eu te amo, meu irmão, sei que pode ser tarde.
Mas quero que saiba que eu aprendi: dinheiro não é tudo, e não vale o valor de um irmão.
Espero que esteja bem…
Abraço no coração.
Dimas”
— Nossa, fico sem saber o que pensar, tem hora… Cara também, não perdoar dívida de dinheiro do irmão… loucura.
— Sim, filha, eu entendo você.
— Pai, tá bom, isso me sensibilizou… Abraça eu aqui?

E ali, naquele abraço, as histórias dos outros pareciam um pouco menos pesadas — porque às vezes tudo o que a gente precisa, depois de abrir um cofre de memórias, é só sentir que não está sozinho.

FIM🌹

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