Uma fratura silenciosa no tecido da realidade.
Dona Jussara havia chegado ao Império dos Deuses há cerca de uma semana, e Rayan já se sentia perturbado com o que presenciara.
O comportamento daquela que vivia no apartamento 1704 não era o de uma senhora de 78 anos.
A cidade era Tahall, o ano era 2082, e sua proximidade com Heracles fazia com que fosse controlada quase em sua totalidade pela corporação AstraBio Experience. Tahall ainda abrigava muitos humanos, apesar da invasão híbrida de 2080.
Naquele dia frio de maio, Rayan Gollback refletia sentado em sua poltrona.
O que era aquilo que acontecia com Dona Jussara?
A pergunta parecia não abandoná-lo. Sua mente girava em torno do que Jussara realmente era. Ele não sabia explicar — mas a tinha ouvido falar ao telefone, e sua voz lembrava a de uma jovem de, no máximo, vinte e cinco anos. Por duas vezes naquela semana, ele a escutara conversando com alguém, e a sensação fora sempre a mesma.
Rayan decidiu descer até o mercadinho do condomínio para pegar uma barra de proteína. Levantou-se, vestiu uma roupa mais adequada e saiu de casa.
No corredor do décimo sétimo andar, ouviu sussurros vindos do apartamento 1704. Aqueles sons definitivamente não pertenciam a uma senhora. Mais uma vez, o que ele percebia eram murmúrios — sussurros jovens, quase leves demais para aquele ambiente silencioso.
Ela havia chegado sozinha ao condomínio e, sim, era uma senhora autossuficiente. Não dependia de ninguém para o dia a dia, mas isso não explicava a maneira como se expressava.
Ele entrou no elevador e desceu ao primeiro andar.
Ao sair, encontrou Juliette.
— Olá, Juliette
— Olá, Rayan, como vai você?
— Vou bem, querida. Não nos vemos há um tempo. O que andou aprontando?
— Estive fora de Heracles. Fui para Sky City, na casa da minha mãe. Estava com saudade.
— Sky City já está totalmente habitada por híbridos?
— Está sim. Mamãe me chamou justamente para conversar sobre isso. Ela anda insegura e quer vir para Tahall. Estou pensando em ver algo para ela aqui no Império dos Deuses.
— Isso é lindo, Juliette. Traga sua mãe. Quero conhecê-la quando chegar.
— Vamos tomar uma taça de licor juntos, então.
— Combinado. Vou cobrar.
— Pode cobrar.
Rayan seguiu até o mercadinho, pegou a barra de proteína e retornou ao elevador. Apertou o 17.
O elevador começou a subir, mais lento do que o normal, até que simplesmente parou. As portas se abriram como se alguém tivesse solicitado a parada — mas não havia ninguém.
Curioso, Rayan saiu. Assim que pisou no corredor, o elevador fechou as portas e continuou subindo sozinho.
Aquele andar não parecia fazer parte do Império dos Deuses. Não havia portas como nos outros andares — eram poucas, e cada uma possuía uma iluminação própria.
A primeira era azul.
A segunda, alaranjada.
Da terceira, de luz amarela, saiu uma jovem.
Ela passou por Rayan e lhe lançou um sorriso irônico. Caminhou com certa urgência pelo corredor, entrou na porta azul sem olhar para trás e desapareceu.
Rayan deu meia volta e chamou o elevador. Ele surgiu arranhando a parede, como se fosse largo demais para o próprio fosso.
As portas se abriram. Rayan entrou e apertou o 17 novamente.
Quando saiu no andar, viu Dona Jussara deixando o apartamento.
— Olá, Rayan. Como vai você?
Ela lhe ofereceu um sorriso irônico — exatamente como o da jovem que ele acabara de ver.
Um arrepio percorreu seu corpo, mas ele respondeu com naturalidade:
— Estou bem, Dona Jussara. E a senhora? Sabe que, se precisar de algo, pode contar comigo.
— Eu sei, querido. Obrigada. Estou indo visitar uma amiga no outro bloco.
— Vá em paz…
— Fique na paz.
Ela entrou no elevador e partiu.
Rayan permaneceu no corredor, sentindo os pensamentos borbulharem dentro da cabeça, como se algo estivesse prestes a emergir — mas ainda fora de alcance.
O que estaria acontecendo com Dona Jussara?
Ela tinha conhecimento?
Eu deveria perguntar?
Já em seu apartamento, Rayan abriu uma barra de proteína e tomou café. Pensou em Juliette — sentiu vontade de dividir com ela o peso que carregava.
Deitou-se no sofá. Sua mente misturava Jussara e Juliette em imagens confusas.
De repente, a campainha tocou.
Rayan se levantou e abriu a porta.
Era a garota do andar alternativo. Ela sorriu, tocou o rosto de Rayan e o beijou.
O tempo pareceu parar naquele instante — era uma mulher magnífica.
Rayan se deixou levar, sentindo o desejo invadir sua alma.
Mas sua mente não perdoava e sussurrou, quase imperceptível:
Você está mesmo beijando Jussara, Rayan?
Ele empurrou a mulher.
Quando a olhou novamente — viu Jussara.
Rayan acordou, suando, intrigado e mal-humorado. Foi tomar um banho. Precisava relaxar.
Determinou que procuraria Juliette. Precisava dividir com ela o desconforto que sentia em relação à vizinha.
Pelo app do condomínio, Rayan encontrou Juliette e enviou uma mensagem:
— Olá, Juliette. Boa noite. O que está fazendo?
— Rayan, estou fazendo um bolo para tomar com café. Por que não vem? Seria um prazer.
— Vou sim. Preciso conversar… é o 1506, né?
— Exatamente.
— Estou a caminho.
Rayan passou perfume, olhou-se no espelho, escovou os dentes e saiu.
Dentro do elevador, encontrou Martha, a síndica do Império dos Deuses.
— Olá, Rayan.
— Como vai, Martha?
— Vou bem, querido. Ficamos tanto tempo sem nos encontrar… nem parece que moramos no mesmo condomínio.
— Verdade. Que tal programarmos algo no salão de festas? Um encontro para nos conhecermos melhor.
— Fantástica ideia.
— Vamos nos falando — preciso ir.
O elevador parou no décimo quinto andar. Rayan saiu e viu Juliette à porta do 1506, com um sorriso encantador que parecia levá-lo a outros mundos e trazê-lo de volta.
— Seja muito bem-vindo, Rayan. Venha, vamos comer bolo de nozes.
— Nossa… isso parece um sonho.
— Como assim? — perguntou Juliette, divertida.
— Eu amo bolo de nozes. E precisava muito falar com você… são coisas incríveis se juntando.
Juliette serviu café e um generoso pedaço de bolo.
— Você ama mesmo, hein?
— Amo… muito obrigado. Mas quero falar da Dona Jussara.
— Dona Jussara? Quem seria?
— Uma senhora que mora no 1704, ao lado do meu apartamento.
— Espera… tenho quase certeza de que nesse apartamento mora a Bruna, uma amiga.
— Bruna?
— Sim. Nunca a viu?
Rayan ficou confuso.
— Eu conheço a Dona Jussara… conversamos… mas às vezes ouço a voz de uma jovem. Isso não faz sentido. Ela mora sozinha.
— Isso é estranho… venha.
Juliette abriu a porta e eles caminharam até o 1504.
— Esse é o referente, né? — perguntou, observando a porta como quem tentava se situar.
— Sim.
— Já estive por lá, Rayan… e não tem senhora nenhuma.
Rayan pensou por um instante.
— Estou pensando em organizar uma festa com Martha, a síndica.
— Uma festa?
— Sim. Para ver quem do 1704 vai aparecer.
— É uma boa ideia. Precisa de ajuda?
— Ainda não sei. Vamos ver se Martha me procura.
Eles se despediram e Rayan voltou para casa.
Naquele final de tarde, sua mente não se desligava de Juliette.
Ele sentia algo nascer — mas ainda não sabia o quê.
Gostava de sua solidão… e temia perdê-la.
Rayan busca um cochilo, ouvindo o silêncio do apartamento como se ele escondesse algo.
Até conseguiu, mas acordou logo com a sensação de que alguém havia passado pela porta.
O apartamento estava silencioso demais.
Caminhou até a sala.
Sobre a mesa, havia uma xícara — não era dele.
Ainda quente.
Rayan sentiu o coração acelerar.
Abriu a porta com cuidado.
No corredor, Dona Jussara caminhava lentamente em direção ao elevador.
Quando a luz piscou por um instante… ela já não era uma senhora.
Era a jovem.
Ela entrou no elevador e, antes das portas se fecharem, olhou diretamente para Rayan e sorriu — um sorriso irônico, antigo, impossível.
No dia seguinte, Rayan foi até a portaria pedir o cadastro de moradores do Império dos Deuses.
O porteiro o atendeu prontamente.
Ele procurou pelo apartamento 1704 — encontrou:
Bruna Vasconcelos, 24 anos.
Data de aquisição: 03/2079.
Rayan, como quem segura todo o peso do mundo, olhou para o porteiro Venâncio.
— Me fale de Dona Jussara, Venâncio.
O porteiro franziu a testa, confuso.
— Não há nenhuma Jussara nos registros do Império dos Deuses, rapaz.
Rayan ouviu aquilo como um corte em sua alma.
Saiu dali perdido — sem direção.
F.I.M 🌺
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