Entre memórias, amores e lendas, nem tudo o que fica é visível.
Era uma tarde de sexta-feira única em Landscape Brown, daquelas em que o céu parece brincar com a nossa percepção. Naquele momento, estava rosa, trazendo um ar encantador e pitoresco a qualquer um que estivesse por ali.
Alessandro caminhava distraidamente quando avistou uma jovem ruiva de cabelos longos na Praça da República. Imediatamente a notou… Aproximou-se, e a jovem estava sentada em um dos bancos de cimento.
— Olá, boa tarde! — começou Alessandro sem hesitar.
— Boa tarde, Alessandro. Sou Lucélia. Como vai?
“Ela disse meu nome. Sou tão famoso assim?”
— Estou bem, querida, e você? Sozinha aqui!
— Eu gosto muito deste lugar, sabe? Gosto da aura que ele carrega.
— Também acho a aura desse lugar… diferente. Você vem sempre aqui, Lucélia?
Ela sorriu, olhando pro céu rosa.
— Quase toda tarde. Gosto de observar as pessoas passando, imaginar suas histórias. E você, Alessandro? Por que sempre volta pra cá?
Ele hesitou um segundo, surpreso pela precisão.
— Acho que… é o caminho entre o trabalho e a casa. Ou talvez eu só goste do silêncio dessa praça, mesmo quando parece cheia. Você gosta das histórias, é?
Lucélia desviou o olhar, os olhos brilhando na luz do fim de tarde.
— Ah, gosto sim… Mas algumas histórias é melhor deixar pro tempo contar.
Alessandro insistiu, curioso:
— O cemitério Colônia aí teve uma bem punk nesses tempos… cabuloso até pra comentar.
Ela respirou fundo, baixou a voz:
— Eu sei bem… Farbs e Joanna ficaram dependurados por correntes grossas, que serpenteavam no pescoço e nas pernas. Tinha um artefato de ferro enferrujado que forçava as bocas deles abertas, num sorriso largo… grotesco, disforme. Era um sorriso que parecia zombar da vida e da morte.
Alessandro se arrepiou na hora.
— Uau, você falando me deu arrepio, menina.
Lucélia sorri baixinho, meio melancólica.
— Tem partidas que são surreais de horripilantes, sim.
— Legal saber que você vem sempre.
Alessandro dispara.
— Sério? — Lucélia retruca surpresa.
— Sim, vou vir agora sempre que puder.
— Vou cobrar isso de você! — Lucélia sorri, descontraída.
— Palavra de escoteiro. — Alessandro também sorri…
O clima entre os jovens aquece. Alessandro pensa em se aproximar mais de Lucélia, mas algo inexplicável o faz hesitar.
De repente, sente o celular vibrar no bolso. Assustado, ele atende:
— Mãe?
— Filho, mas o que é isso? Você já viu as horas, garoto?
Alessandro olha o relógio do aparelho marcando 03:03.
— Mãe, desculpa, eu já tô indo.
— Por favor, vou te esperar.
— Ok, em instantes estou aí.
Alessandro desliga a ligação, meio sem jeito.
— Meu anjo lindo, eu preciso mesmo ir…
— Poxa, estava tão gostoso… É tão raro achar alguém que a gente se conecta assim, como aconteceu hoje.
— Também senti isso, Lucélia. Eu vou, mas… levo você comigo, tá?
Alessandro tem a sensação de ver uma lágrima descer no rosto da garota. Ele se sente sem graça, levanta, sente o tempo mais frio, esfrega os braços.
— Você não vai para casa também?
Alessadro questiona.
— Vou sim. Se você vai, eu também vou. Mas lembra, Alessandro…
Lucélia faz uma pausa, o olhar distante.
— Às vezes, algumas presenças ficam mais tempo do que a gente imagina.
Alessandro sente vontade de beijar Lucélia, a olha nos olhos, e mais uma vez, sem um porquê, hesita…
— Então eu vou, amanhã eu volto no mesmo horário — afirma Alessandro.
— Vou esperar. Não esquece de mim, tá?
Lucélia sorri com uma doçura estranha, baixa a cabeça, marcando o momento na mente e no coração do menino Alessandro, que se vira e sai.
Alessandro, caminhando de volta pra casa, depois de uns vinte passos se vira — e a praça é a imagem do vazio. Ele sente um incômodo e aperta o passo.
Em casa:
Alessandro empurra a porta do quarto da mãe:
— Mãe, já cheguei.
Ela levanta e o questiona:
— O que foi isso, amor? Você ficou o dia todo fora, não ligou pra falar nada, Alê!
— Mãe, foi porque eu estava só ali…
— Ali onde, Alessandro?
— Na praçinha, mãe, aqui perto.
— A praça das caveiras, perto do cemitério Colônia?!
— Praça das caveiras? Que isso, mãe?
— Filho, aquela praça tem história, garoto. Cuidado ali. — Dulce franze o cenho. — Tem muita coisa estranha. Dizem que até hoje aparece gente vendo uma moça por lá… Você não ouviu falar, não?
Alessandro se sente incomodado, pensa em Lucélia, seu coração já inundado de amor. Amanhã ele teria de voltar a ver aquele anjo ruivo.
— Ok, mãe, não vou lá mais… — Alessandro se aproxima da mãe, beija o rosto dela e vai para seu quarto.
Tira a roupa, pega o pijama e vai tomar banho.
De banho tomado, Alessandro se deita com o notebook no colo. Em sua mente, orbita a fala da mãe sobre a jovem encontrada morta.
Ele digita: “praça da república, Landscape Brown, jovem encontrada morta”. Dá enter…
O retorno faz trincar os nervos. Na tela, uma foto antiga de Lucélia — ruiva, sorrindo para a câmera.
A legenda:
“Jovem Lucélia Bastos Zanine, encontrada morta na praça das caveiras, Landscape Brown, 1997.”
O tempo para. Alessandro sente o coração encolher, a cabeça girar, e as lágrimas descem sem hesitar.
No silêncio do quarto, quase pode ouvir a voz dela:
— Vou esperar… não esquece de mim, ok?
F.I.M 💐
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