Quando deixar ir é o maior gesto de amor
Era manhã de domingo quando Natalia, com aquele brilho intenso nos olhos, se debruçou sobre mim. Havia algo diferente no ar, um calor quase palpável que nos envolvia, tornando cada gesto mais carregado de desejo, mais urgente, como se a paixão pudesse nos transportar para outro mundo. Amar aquela mulher nunca foi trivial; era sempre viagem, era sempre um mergulho, nunca rotina.
Mas naquela manhã, o calor entre nós parecia algo errado. Nossos corpos estavam mais quentes que o normal, e, por um momento, senti como se estivéssemos cercados por uma energia estranha, invisível, impossível de explicar.
— Amor… — sussurrou Natalia, com o olhar distante, quase fora de órbita, que calor é esse? O que está acontecendo?
— Eu… eu também estou sentindo, está diferente… mas você é sempre assim, incendeia tudo — tentei brincar, buscando o olhar dela.
— Não, Luigi… hoje está além do normal…
De repente, Natalia se afastou num impulso, respirando fundo.
— Ei, o que foi? — perguntei, confuso, tentando me recompor.
— Não consegui, amor… me perdoa, olha meu corpo…
Sua pele estava avermelhada, o calor irradiando de cada centímetro como se ela estivesse febril, mas não era doença, era outra coisa, algo inexplicável.
— Vem, vamos tomar um banho, — falei, tentando amenizar a tensão. — Talvez alivie. Vamos.
Natalia pegou uma toalha, cobriu o corpo, e seguimos juntos para o banheiro, ainda sem entender o que estava acontecendo, mas com aquela estranha sensação de que algo tinha mudado, talvez para sempre.
No banho, ficamos abraçados, tentando encontrar conforto um no outro. Nos beijamos, mas até naquele beijo eu sentia algo diferente em Natalia, um calor que não era só paixão, era quase aflição.
— Amor… — Natalia sussurrou, visivelmente incomodada — o que está acontecendo comigo? Eu tô produzindo um calor estranho, tô angustiada…
— Calma, meu anjo… — tentei acalmá-la, apertando-a nos braços.
Foi então que as coisas ficaram ainda mais estranhas. Ao deslizar minhas mãos pelas costas dela, senti algo diferente, uma protuberância inexplicável sob a pele.
— Amor… se vira um pouquinho pra mim?
— Não, Luigi… agora não, não tô bem pra isso…
— Por favor, só um segundo. Quero ver algo nas suas costas.
Relutante, Natalia se virou. O que vi era totalmente fora de contexto, impossível de compreender: parecia que os ossos das costelas tinham rompido a pele, formando saliências visíveis, quase como se algo tentasse sair dali.
Toquei de leve, hesitante.
— Você sente alguma coisa aqui, amor?
— Um pouco… tá estranho, mas não dói. O que foi?
Eu encarei aquela cena, sem conseguir encontrar palavras, sentindo medo e curiosidade misturados em doses iguais.
— Você tem certeza que não dói, amor?
— Tenho, Luigi. Me fala o que foi?
A cara de Luigi não era das melhores.
— Tem algo aqui nas suas costas… como se os ossos estivessem se expondo.
— What the hell is this on my back, love?
— Amor, isso é sério. Vamos sair, quero examinar isso melhor.
Natalia parecia incrédula — ou talvez calma demais. Os dois saíram do banho, se enxugaram, e foram para o sofá da sala. Lá, Luigi examinou as costas de Natalia com mais cautela.
As escápulas de Natalia se destacavam sob a pele, mas não do jeito habitual. Havia uma expansão estranha ali, como se fossem asas prestes a se abrir, forçando espaço entre músculo e pele, tremendo com cada respiração.
Por um instante, Luigi jurou ver algo se mover ali, como se a anatomia dela estivesse se reinventando diante dos seus olhos.
— Amor, tá louco… não sei nem como dizer. Vou filmar e te mostrar.
— Ai, Lu, que drama!
Luigi filmou as costas nuas de Natalia. Quando mostrou o vídeo para ela, a reação foi imediata: repulsa, lágrimas, gritos, raiva da vida e, por fim, uma vulnerabilidade brutal.
— Amor, eu não vou mais sair na rua! — disse Natalia, a voz mais alta do que pretendia. — Não vou, não tenho coragem.
— Amor, vamos ao médico, vamos procurar um ortopedista. Se acalma, meu dengo…
Natalia chorava, Luigi chorava — a comoção era palpável.
O tempo passou, e naquela semana, nem o ortopedista trouxe explicações plausíveis.
Natalia se tornou um misto de revolta e ausência de pertencimento.
Deixou de sair de casa e, a cada vez que ela e Luigi se amavam, as “asas” em suas costas cresciam…
Naquele momento, ela já tinha algo semelhante a uma pequena asa, com uns vinte centímetros.
E de alguma forma, quanto mais o desejo crescia, mais ela sentia necessidade de Luigi, mais suas asas se expandiam…
Na semana seguinte, o desejo era tão intenso que as asas ganharam proporções gigantescas.
Naquela sexta-feira pela manhã, Natalia subiu em Luigi e eles se amaram intensamente, como se fosse a primeira vez — com urgência, com uma intensidade descomunal.
De repente, asas enormes se abriram diante de Luigi…
Os olhos de Luigi se arregalaram o que fez Natalia saltar assustada e já sentindo o peso e o desconforto, as asas esbarravam nos moveis, objeitos, ela derrubou coisas no chão, até que num subito… Natalia as encolheu, fechando-as em si.
Extremamente expantados, os dois se entreolharam e só conseguiram chorar…
A sensaçam de derrota, de algo errado, de desconexão de Natalia era viva.
O dia escorregou, Natalia e Luigi ficaram juntos o tempo todo, até que:
—Amor, preciso que vá a rua, compra um elástico vamos amarrar essa coisa, vamos encolher o máximo que pudermos isso.
— Tem certeza amor? Não doi?
— Nada, vá, pode ir eu vou ficar bem.
Luigi sai, vai a rua, compra o elástico que demorou a encontrar. Volta pra casa, quando ele entra no apartamento… Ele vê sua amada mulher na sacada, ela estava com as asas abertas, sorrindo, um sorriso aberto, largo, de aceitação, de compreenção…
— Amor, o que você está fazendo ai? Luigi pergunta assustado.
— Amor, preciso que seja forte.
— O que? Fala…
Natalia com o semblante calmo, leve, responde Luigi
— Eu entendi amor, agora eu sei…
— Sabo o que meu dengo, to ficando ansioso.
— Eu entendi que tem missões que não são para só aceitar, são para entender…Eu tenho uma missão amor… e ela é linda, a mais linda…
— Tá me deixando ansioso demais Nat…
Luigi anda rápido em direção a sacada e antes mesmo que chegasse a se aproximar, Natalia bateu assas e subiu… Luigi correu até a sacada e olhou sua mulher…
Natalia se esvaiu no espaço tempo, como quem volta pra uma casa que não é daqui.
Como quem renasce em outro lugar que não se dá pra entender…
Luigi chorava, seu peito queimava…
Dizem que, às vezes, quando o desejo é imenso demais para caber na carne, ele se transforma em asa — e quem ama de verdade aprende, cedo ou tarde, que o amor também é deixar ir.
Luigi nunca mais foi o mesmo. E toda vez que via uma estrela rasgando o céu, jurava sentir o perfume de Natalia flutuando no ar.
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