Há encontros que desafiam a distância e a morte.
É verão de 2026, e a cidade de Chapéu Vermelho, com sua tradicional pacatez, até que trazia uma vida tranquila para seus conterrâneos. Não tinham, na verdade, muito o que fazer por ali… mas quem por ali vivia — dizia-se pelos bares e ruas da cidade — vivia feliz.
Magda Moreal, 36 anos, estava ali na cidade de Chapéu Vermelho desde o término do relacionamento com Augusto, um enfermeiro do hospital da cidade que, no inverno de 2022, conhecera Magda na cidade de Ministraus, que ficava a cerca de 380 km da cidade de Chapéu Vermelho.
Naquele tempo, eles se conheceram, resolveram viver juntos e vieram para Chapéu Vermelho.
No final de 2025, veio o rompimento e, desde então, Magda vivia um sonho de um dia voltar a viver em Ministraus.
— Magda! — chamava Maria Rita. — Vem cá, mulher, deixa eu te contar uma coisa.
— Diga, Maria, pode falar, eu estou aqui.
— Menina, e minha mãe que conheceu um homem no forró e agora tá querendo ir viver com ele, acredita nisso?
— Acredito, eu fiz isso e me dei mal. Mas não significa que com ela vá acontecer o mesmo. Você vê problemas nisso?
— Ah, eu tô com medo sim. Não quero que ela se decepcione, sabe?
— Entendo, Maria, e é legítimo esse seu receio. Apenas fique atenta, esteja presente. Com isso, estará sempre a par dos acontecimentos. Ei, me espera um pouco, meu telefone está tocando.
— Vai lá, eu te espero, vai tranquila.
Magda entra correndo em casa e pega o telefone — era sua mãe, Rose.
— Mãe, o que foi a essa hora?
— Filha, a mãe caiu… acho que bati a perna de jeito.
— Poxa, mãe, como foi isso?
— Passando pano na cozinha, escorreguei e caí. Me sentindo tão limitada!
— Mãe, procura um médico ortopedista. Por que ainda não foi ao médico?
— Filha, você sabe que a mãe não gosta de médico.
— Sim, mãe, eu sei, mas aí é diferente. Você está machucada, né?
— Eu vou ver. Se achar que tá piorando, eu vou sim.
— Promete?
— Prometo, filha. Agora vou colocar uma compressa e vou deitar.
— Certo, fica com Deus, mãe, e me dá notícias.
— Dou sim, fica com Deus, filha.
De volta, Magda resolve ignorar Maria Rita e vai tomar um banho.
No banho, pensa na mãe, em Ministraus e no desejo de voltar.
Não muito distante dali, Alexandre, 40 anos… professor de artes, sentia-se bem vivendo sozinho.
Ele e Glória também haviam tentado algo, estavam juntos há uns quatro anos. Mas com diferenças significativas: Glória era mais prática e Alexandre, mais profundo, melancólico. Foi só uma questão de tempo até que, vivendo juntos, a diferença os separasse.
Alexandre, principalmente aos domingos, não tendo muito o que fazer em Chapéu Vermelho, sentia-se pra baixo, depressivo e por isso… estava com planos de ir para Ministraus. Queria mudar de vida.
“Vou pegar minhas economias, acredito que com elas consiga ficar por uns dois anos procurando emprego em Ministraus.”
Na televisão, o jornal do estado mostrava o crescimento de Ministraus e as empresas que estavam chegando na cidade. Alexandre prende sua atenção e conclui que, com o currículo que possui, conseguirá algo em Ministraus. Principalmente pelo fato de suas economias resistirem ao desemprego por uns dois anos.
Ainda na cidade de Chapéu Vermelho, Marcos, 28 anos, Fernanda, 26 anos, e Mariana, 7 anos, levavam uma vida modesta, sem muitos anseios pelo dinheiro limitado. Algo que incomodava imensamente Marcos.
Marcos e Fernanda estavam no quarto naquela noite. Se abraçavam e beijavam. O casal era bem sintonizado, vivia junto por longos sete anos.
— Meu amor, eu te amo tanto — sussurra Fernanda.
— Eu também amo você, minha loira.
— Amor, promete que nunca vai me deixar?
— Claro, loira! O que foi isso, amor?
— Deu insegurança, medo de ficar sem você.
— Tira isso da cabeça, loira, vem cá.
Marcos e Fernanda se abraçam com intensidade.
— Amor, olha pra mim — diz Marcos.
— Sim, meu amor, o que foi?
— Você sabe que quero fazer aquela prova da prefeitura de Ministraus, né?
— Amor, tira isso da cabeça. Por que isso? Me fala?
— Amor, quero levar nossa filha na Disney, ela fala sempre disso comigo. E eu nunca levei ela pra passear num lugar legal, nem você. Tô de saco cheio disso. Podemos melhorar, amor.
— Eu tenho tanto medo!
— Fica em paz, loira, nada de ruim vai acontecer, eu prometo, tá?
Fernanda ouve Marcos falar, não concorda com o marido, mas resolve se calar. O casal vai deitar e o dia amanhece na cidade de Chapéu Vermelho.
Magda levanta mais cedo, pega logo o telefone para ligar para Rose, sua mãe. Contudo, não obtém sucesso. Tenta mais duas, três, quatro vezes — e nada.
“Que aflição! O que ela está fazendo que não me atende? Será que está com dificuldades?
Ai, Deus, que sensação horrível!”
Magda é acometida de pensamentos ruins, tais pensamentos a fazem desejar ir até sua mãe.
Ela precisava ver sua mãe.
Após tentar mais cinco vezes ligar para a mãe, Magda decide que, pela tarde, iria ao centro da cidade comprar passagem para Ministraus.
Alexandre, após uma volta no parque das águas, local onde gostava de caminhar e contemplar, decide que precisa ir embora de Chapéu Vermelho. Muito daquela cidade o forçava a lembrar de Glória. Coisa que ele queria que acabasse.
O professor então decide que irá à cidade comprar passagens para ir para Ministraus.
Na casa de Marcos, o clima era de apreensão. Fernanda, de fato, não estava satisfeita com a ideia do esposo. Sua insegurança lhe trazia extremo desconforto.
— Amor da minha vida, se acalma. Você anda pra lá e pra cá. Eu não vou à cidade grande arrumar outra mulher, tira isso de você, meu amor.
— Olha lá nossa criança brincando. Por que você acha que ela precisa de Disney?
— Ela já falou disso comigo, e não é só ela. Quero você com roupas melhores, cabelo arrumado sempre. Fazer passeios direito. Eu vou conseguir, amor.
Marcos decide que, naquela tarde, iria ao centro de Chapéu Vermelho comprar a passagem para fazer a prova.
Naquela mesma tarde, Magda Moreal, Alexandre e Marcos estavam na rodoviária de Chapéu Vermelho, comprando suas passagens para Ministraus.
Curiosamente, os três indivíduos compraram as passagens para o mesmo dia, no mesmo ônibus.
E dois dias após a compra das passagens, após Magda tentar falar com a mãe por dezenas de vezes, os três estavam novamente na rodoviária da cidade, aguardando o ônibus que os levaria a Ministraus.
Já dentro do ônibus, Magda se acomoda na poltrona 37. Sua mente a torturava trazendo sempre o pior com relação à mãe.
“O que será que aconteceu com minha mãe? Ela não atende ao telefone, será que…
Puta que pariu — para, mente, de pensar besteira.”
Magda se ajeita na cadeira enquanto o ônibus dava partida. Aquela viagem para Ministraus leva comumente cerca de cinco horas e quarenta para percorrer todo o trajeto.
Às 10h, o ônibus oficialmente sai da rodoviária de Chapéu Vermelho. A temperatura estava boa, em cerca de 20 graus naquela quinta-feira.
Magda se sente confortável, não gosta de ar-condicionado e, com a temperatura amena, o ônibus não carecia de ar ligado. Ela pega seus fones, conecta ao aparelho de celular e coloca um som para ouvir enquanto o ônibus avançava em direção à autoestrada.
Com o som em um volume confortável, ouvindo clássicos, Magda acaba adormecendo.
De súbito, ela se pega em um lugar estranho: havia um rio largo, de águas escuras e um tanto selvagem… do outro lado da margem, algo chama a atenção de Magda.
Sua mãe, com uma boina branca, acenava para Magda como quem se despede.
Magda grita a todo pulmão, mas a senhora apenas tomba a cabeça para o lado e o semblante é triste, o adeus com as mãos trazia a ideia de partida.
Magda se sente agoniada e acorda sentindo-se acelerada, seu coração corria, ela piscava os olhos e, antes mesmo de retomar completamente os sentidos…
— Fique tranquila, moça, ela está bem.
Aquela voz surgia de trás. Magda, de cenho franzido, se vira… Um homem de cartola, bem apanhado, barba bem feita e um dente que brilhava feito o sol continua…
— Apenas deixou o aparelho cair entre o colchão e o estrado da cama. Lembre-se disso depois quando estiver junto dela. E a vida?
O homem solta um sorriso que inunda Magda de uma sensação que ela não consegue entender de tão boa.
Magda se sente confusa, a fala do estranho homem bonito a confortara de uma forma tão intensa, mas como ele poderia saber do que dizia? Ela pensa em perguntar, mas a voz parece se recusar a sair.
Foi quando o homem continuou:
— Você, rapaz da poltrona 34.
Era Marcos, que se sente gelar por dentro, mas se vira e encara o homem da poltrona 43. E o homem… continua.
— Vai tranquilo, rapaz, tudo vai dar certo, a vida vai melhorar e longos anos de felicidade permearão sua família. Pode acreditar e só faça o que deve ser feito.
Marcos se sente invadido por um bem-estar surreal, quer falar algo com o homem, mas, de alguma forma, tem a boca travada, como que impedido de dizer qualquer coisa.
E o homem? Continuou…
— Você aí da cadeira 39, vai na fé, uma surpresa encantadora está à sua volta.
O homem olha para Magda e se volta para Alexandre.
— Seu emprego está garantido e longos anos de uma vida muito boa lhe permearão.
Magda segue a viagem em estado de êxtase — a voz do homem misterioso parecia continuar dentro dela, lhe trazendo conforto. O ônibus seguia adiante, mas uma manobra perto de um restaurante de beira de estrada informava que uma parada para banheiro, café e esticada de pernas… aconteceria em minutos.
Na parada:
Magda pede um café para a atendente, já sentada em um dos bancos. Alexandre se aproxima e mexe com a morena.
— E aí, moça? O que foi aquilo dentro do ônibus? Você também sentiu um bem-estar difícil de explicar? Prazer, eu sou Alexandre.
Alexandre estica as mãos. Magda também, e eles se cumprimentam.
— Prazer, eu sou Magda e, sim, senti e ainda sinto um bem-estar dificílimo de explicar. Aquele homem não sai da minha mente.
— Opa, pessoal, prazer, eu sou Marcos. O que foi aquilo? Viram o dente dele? Será uma bateria?
Marcos sorri sem jeito.
— Prazer, eu sou Alexandre e, cara, aquilo não é uma bateria no dente do homem.
— Prazer, Marcos, eu sou Magda. Cara, estou dizendo aqui para o Alexandre que não consigo mais tirar o homem da cabeça.
— Aquilo foi insano demais, eu estou indo fazer uma prova e o cara me disse que vai dar bom!
— Pois é — minha mãe não atende aos meus telefones e sei que ela se machucou… estou preocupada e ele logo me disse: “Ela está bem, pode relaxar.”
— Eu estou indo para Ministraus a esmo, só quero mudar de vida e ele disse de uma surpresa e que vou conseguir um emprego.
— Gente, acho que deu o tempo, vamos voltar.
Magda chama os amigos — que acertam a conta e voltam para o ônibus.
Dentro do ônibus:
Magda é a primeira a entrar e a ausência do homem na poltrona 43 logo lhe chama a atenção.
— Gente, vejam, ele provavelmente desceu aqui.
— Verdade, cara estranho, puta que pariu — Marcos comenta.
— Será que ele vive por aqui? Não sei se tem cidade aqui por perto.
— Ah, tem sim, Alexandre, se tem um restaurante por aqui, tem moradores com certeza — Magda explica.
O ônibus dá partida e Ministraus estava cada vez mais perto. O coração de Magda, de alguma forma, experimenta uma sensação de leveza, mas sua mente ainda lhe trazia confusão.
O tempo parece ouvir os apelos de Magda e, de súbito, o ônibus já fazia manobras na rodoviária de Ministraus. Na descida, ela se adianta e para diante do motorista.
— Aqui, boa tarde! Me diga, o passageiro da poltrona 43, ele saltou naquela região do restaurante?
Olha, se não puder dizer, eu entendo, tudo bem, tá?
Alexandre se aproxima, Marcos se despede rápido e desaparece.
— Moça, boa tarde! Não havia ninguém na poltrona 43!
— Como assim?
— Ela viajou vazia!
— Mas…
Uma jovem que viajara na poltrona 45 ouve a conversa e afirma:
— Sim, moça, eu viajei na poltrona 45 e não havia ninguém na 43.
Magda franze o cenho, sente-se desconfortável. Alexandre, sentindo o desconforto de Magda, pisca-lhe os dois olhos e estende as mãos para ajudar Magda a descer.
Já fora do ônibus:
— Deixa isso, Magda, não faz diferença agora.
— Você está certo, vou esquecer isso. Pra onde está indo?
— Estou sem direção, você vai até sua mãe, né?
— Vou sim, preciso vê-la. Me acompanharia?
— Com todo o prazer!
Os dois se olham, o tempo parece vacilar. Magda se sente bem ao ter Alexandre por perto.
Alexandre, de alguma forma, sente que está no lugar certo.
Os dois tomam um Uber até o bairro da Primavera, onde morava a mãe de Magda.
Já no bairro da Primavera, Magda e Alexandre saltam do carro, diante da casa de Dona Rose.
Magda toca a campainha…
A porta se abre e a surpresa de Magda lhe acelera o coração. Primeiro, ao ver o semblante da mãe e, segundo, ao ver a boina branca em sua cabeça.
Magda ignora o que vê e abraça a mãe com todo alívio do mundo.
— Mãe, você não me atendia ao telefone, o que foi isso? Senti tanto medo!
— Filha, meu amor! Mãe perdeu o celular, acredita? Fui à feira nesses dias, achando que deixei cair ou me roubaram e eu nem vi! Quem é esse moço bonito, filha? Não vai me apresentar?
— Mãe, esse é o Alexandre, conheci na viagem, ele veio me acompanhar.
— Prazer, Dona Rose, sou Alexandre — estou encantado!
— Ah, que gentil, o prazer é todo meu!
— Mãe, vamos até o seu quarto? Quero ver uma coisa, acho que sei onde está seu aparelho.
— Como isso é possível, filha? Mas Deus te ouça, venham.
Os três seguem até o quarto de Dona Rose. Lá… Magda vai até a cabeceira da cama e suavemente leva as mãos entre o colchão e o estrado da cama, onde realmente encontra o aparelho da mãe.
— Veja, mãe! Seu aparelho está aqui.
Magda levanta o aparelho e, tomada por uma felicidade surreal, entrega o aparelho à mãe, que visivelmente está surpresa e a abraça. Solta a mãe e abraça Alexandre, que, sacudido pela atitude de Magda, também a abraça com muita naturalidade, como se aquilo fosse algo trivial entre os dois.
Magda, vendo a mãe feliz com o telefone e Alexandre ali, junto dela e da mãe, solta um sorriso e sua mente a leva ao homem de cartola dentro do ônibus.
Ele estava certo — Magda se sentia no lugar certo e agora, com as pessoas certas também.
F.I.M
Deixe um comentário