Algumas dores não evaporam com o tempo — elas se assentam e moram onde a gente cresceu.
A cidade de Água Morna amanheceu chuvosa naquela sexta-feira de fevereiro de 2023. O tipo de chuva fina, constante, que não lava nada — só insiste.
Na casa de número 41, rua das Acácias, Senhor Venâncio Moraes andava de um lado para o outro com as mãos para trás e o rosto pesado. Não queria nem ouvir falar da filha, Linda Moraes, andando de namorico com nenhum cabra dali. — “Aqui não, nessa cidade não.”
A esposa, Rita das Dores, via tudo em silêncio. Ela não concordava, mas também não se opunha. Tinha aprendido, ao longo dos anos, que discordar em silêncio às vezes é a única forma de sobreviver ao convívio.
Naquela sexta Linda, 15 anos, foi para o colégio. Venâncio ficou inquieto em casa, como se pressentisse algo — ou só não suportasse o tempo em que ela não estava por perto.
Colégio Estadual Dorival Sarmento — 09:00 da manhã
Era hora do intervalo. A cantina fervia, os alunos corriam pelo pátio como se o tempo ali fosse outro — menos Linda, que sentou sozinha no banco junto à árvore de tronco vermelho, no canto mais calmo do pátio.
Márcio chegou de mansinho, tampando os olhos dela com as mãos. Linda sorriu de imediato:
— Meu amor… Márcio sorriu por trás. Ela se virou e o beijo foi rápido, furtivo, mas cheio de verdade.
— Tenho vontade de fugir com você, sair dessa cidade. — Mas como? A gente é jovem, não tem pra onde ir. — Tô pensando em ir lá na sua casa. Falar com seu pai. Pedir sua mão em namoro. — Você tem certeza? — Se ele vir que é sério… pode aceitar.
Linda deu de ombros, meio sem fé, meio por amor:
— Tudo bem. Se você acha que é o melhor pra gente…
O sino tocou. Eles se despediram com outro beijo. Linda voltou pra sala, mas o pensamento ficou preso no pátio, no beijo, na ideia do pai.
Ela era do tipo que imaginava os piores cenários antes que qualquer palavra fosse dita. Na sala, enquanto a professora falava, ela via tudo de olhos abertos e coração inquieto.
Meio-dia — saída da escola
Márcio esperava por ela do lado de fora. Quando Linda saiu, os dois caminharam juntos, abraçados, até a casa dela — meia hora de estrada molhada, folhas coladas no chão, e respirações ansiosas entrelaçadas.
Na casa dos Moraes
Venâncio andava de um lado para o outro, inquieto. A camisa encharcada de suor, a testa franzida, e a alma quebrada em pedaços que ele não sabia nomear.
— Ela vai chegar. Com aquele menino. Eu sei. — Se acalma, homem! — disse Rita das Dores, da cozinha.
— Se me conhece, Rita… sabe: a Linda é meu tesouro. Esse povo daqui, dessa cidade, não dá pra confiar. Tô pensando em mandar ela pra casa da tua irmã, Glória. Lá tem aquele colégio de irmãs. Seria bom pra ela, até a gente poder ir também.
— Você acha mesmo, Venâncio? — Tô com isso rodando nos miolos faz dias, mulher…
Do lado de fora, Linda se aproximava com Márcio. Rita foi a primeira a vê-los. Sentiu o sangue sumir do corpo.
— Mas o que é aquilo? Eu não acredito…
Linda e Márcio pararam diante de Venâncio. Rita, à distância, observava em silêncio.
Márcio tentou falar. Venâncio nem deixou. Puxou Linda com força, como se Márcio fosse uma entidade prestes a levá-la embora.
— Suma daqui, garoto. Eu não tenho nada a dizer pra você. Vai embora!
Márcio tentou contornar a situação com calma. Não adiantou.
— Não tenho nada pra tratar com você, rapaz. Desapareça. Não volte mais.
Márcio abaixou a cabeça. Caminhou de costas, olhos fixos em Venâncio. Depois se virou e foi embora, sem dizer mais nada.
Linda se soltou do pai e correu pro quarto. Trancou a porta. Não queria mais contato com o mundo.
Aquela situação inquietava Venâncio. Sua princesa estava triste. Estava sofrendo — e aquilo doía nele de um jeito estranho.
Na porta do quarto de Linda
— Princesa… vem almoçar. Vem com o pai. Pai comprou sorvete, daquele que tu gosta. Só quero o teu bem, amor. Vem.
— Tá vendo o que você faz, Venâncio? Olha o estado da menina! Tu não é bom da cabeça, não…
— Eu quero o bem da nossa filha, mulher.
— E que mal aquele garoto faria a ela? Pra mim, era até bom ter companhia no caminho da escola.
— Rita, tu sempre foi ingênua.
Venâncio levou a mão ao peito. Respirou fundo. Forçou uma tosse.
O doutor Juliano já tinha alertado: precisava cortar gordura, cuidar do coração.
— Venâncio, tu não tá bem. Senta aqui. — Rita puxou uma cadeira. — Vou chamar o doutor!
— Não precisa, mulher… Eu já me ajeito.
Forçou a tosse, limpou a garganta, e conseguiu se estabilizar. Minutos depois, Linda saiu do quarto.
— O que foi, pai?
— Dor no peito. Mas já passou. Vem almoçar.
Linda serviu em silêncio, comeu o suficiente, e voltou pro quarto.
— Lindinha…
— Deixa ela, Venâncio. Se procurou, achou. Agora aguenta.
A tarde se arrastou com Linda reclusa, Venâncio abatido e Rita sentada, impotente, entre os dois.
Na manhã seguinte… Haveria uma apresentação do coral no Colégio Estadual Dorival Sarmento. Seria no fim da manhã, na saída das aulas. Linda avisou à mãe que poderia se atrasar.
À noite, Rita não comentou nada com Venâncio. Sentaram-se em silêncio diante da TV. Linda continuava trancada no quarto.
Mais tarde, abriu a porta apenas para tomar a bênção:
— Sua bênção, mãe. Pai. — Deus lhe abençoe, filha — disse Rita. Venâncio já dormia.
Linda se deitou. Pensou. Pensou mais um pouco. A noite escorreu devagar.
Pela manhã
Linda se arrumou apressada. Tomou o cereal e saiu às pressas.
Venâncio se levantou rápido também — mas não deu tempo. Ela já tinha ido.
Ficou no portão, acompanhando com os olhos… até ela dobrar a esquina da rua das Acácias.
Rita se aproximou:
— Hoje tem apresentação do coral, lá no fim da aula. — Opa. Eu vou estar lá esperando. De olhos bem abertos.
— Venâncio… deixa a menina viver, homem. — Tu é muito ingênua. Já falei. Meio-dia eu tô lá. Ela vai cantar? Então eu tenho que ver.
— Sei bem o que tu quer ver. Até parece que é o coral.
Venâncio soltou uma risada. A manhã passou sem pressa.
11h20
— Tu vai também, Rita? — Claro, né? Sou doida de te deixar ir sozinho nessas condições? — Eu tô bem. Ela saiu sem se despedir. Tá armando alguma coisa, essa menina…
— Tá armando nada, seu chato.
— Bora, anda. Muita conversa… vamos atrasar. Bora logo.
Saíram de casa às 11h30.
Nas imediações do colégio
— Olha, Venâncio! Nossa menina! — apontou Rita.
Os olhos dele brilharam. Ver Linda cantando com o coral… era sublime. O orgulho invadiu o peito como se colorisse a alma.
Aquele momento, que desenhava magia, escorreu pelo ralo direto pro submundo.
Márcio, também no colégio, se aproximou ao fim da apresentação — e beijou Linda.
Venâncio, tomado por uma ânsia inexplicável, correu. Avançou no rapaz, o puxou com violência. Márcio caiu no chão. Linda gritou. Rita tentou conter o marido.
Venâncio parou. Olhou o horizonte. Ficou mudo.
Rita o chamava. Ele não respondia.
Num súbito, Venâncio arqueou o corpo pra trás. Gritou. Um grito que rompeu os limites de Água Morna.
Caiu.
Rita desesperada sacudiu o corpo do marido. Linda correu até uma funcionária — Laura, enfermeira do colégio.
Laura chegou rápido. Fez os procedimentos. Insistiu. Tentou. Mas Venâncio não voltou.
Alguns minutos depois, o anúncio:
— Sinto muito. Foi um AVC.
Naquele instante, o mundo de Linda se desfez como um castelo de areia lambido pela maré.
Laura se encarregou dos trâmites mais difíceis sobre a partida de Venâncio, enquanto uma professora querida de Linda — a dona Carmem — se prontificou a ajudar com o que fosse preciso.
Com a força da razão, e com a permissão silenciosa do destino, Linda se afastou. Afundou em si mesma. Mergulhou na própria sombra.
Márcio, de longe, observava tudo. Guardava em si a dúvida: “Devo me aproximar?”
Hesitou. Mas Linda o viu. E foi até ele.
— Eu nem sei o que dizer, amor…
— Você não precisa dizer nada — respondeu Linda, com a voz de quem não conseguia mais alinhar alma e corpo no mesmo lugar.
Márcio, mesmo assim, insistiu:
— O que vai ser da gente agora?
— Não sei te dizer, Márcio. Esse… não é um bom momento. Suspeito que a gente vá pra Juiz de Fora. Era vontade do meu pai, e acho que minha mãe vai acabar indo também. Vai querer sair de Água Morna…
Márcio mordeu os lábios, abaixou a cabeça. Seu mundo desabava em silêncio.
— Não fica assim — disse Linda, arrancando forças do que restava — a gente vai ficar bem.
— Você não precisa se preocupar com isso agora, anjinho. Só me promete… que vai se cuidar?
— Eu prometo. De coração. E você? Promete também? Me olha nos olhos, Márcio.
Márcio não conseguiu. Chorou.
Linda também.
O tempo, por um instante, desceu do carrossel e sentou ali com eles.
Márcio se afastou. Devagar. Até sumir.
Linda ficou. Parada. Sentia nas costas o peso da mudança que estava chegando.
Cidade grande. Viver da pensão do pai. Não era o pior dos mundos — mas ela temia pelo conforto da mãe.
Caminhou de volta pra casa. A mente voava. Desbravava mundos, galáxias, universos distantes… Linda se sentia perdida — e ao mesmo tempo, cada vez mais real.
Até que…
— Longos anos se passaram —
Linda, agora formada em Psicologia, trabalhava no Hospital Albert Sabin, em Juiz de Fora.
Morava com a mãe e a tia Glória. Não tinha ninguém.
Márcio também havia se mudado para Juiz de Fora. Formado em Mecânica Industrial, trabalhava na Mercedes-Benz. Estava namorando Manuela, havia encontrado Manu, em festas de final de semana — juntos há cerca de sete anos. — Juiz de Fora, vinte anos depois —
Linda caminhava pelos corredores do Hospital Albert Sabin como quem aprendeu a andar com feridas escondidas. Era fim de tarde. O cheiro de éter e café velho misturava com as lembranças que o tempo não conseguiu apagar.
Ela passou pela recepção. Pediu um táxi. O turno havia sido longo — e os olhos, pesados.
Enquanto esperava, encostou na pilastra próxima à saída. Olhou pra rua molhada, refletindo os faróis que passavam como vultos.
Foi quando ouviu:
— Linda?
O tempo parou.
Ela virou o rosto. E ali estava ele.
Márcio. Mais homem. Com semblante mais calmo.
Usava uniforme da Mercedes. Na mão, segurava uma maleta que parecia de ferramentas. No rosto… o mesmo olhar.
— Márcio…
Ele sorriu com tristeza. — Eu vim buscar um equipamento aqui… Não acredito que estou te vendo!
Ela sorriu também, mas com os olhos molhados. — É. Sou eu.
O silêncio ficou entre eles. Mas não era desconforto. Era reconhecimento.
— Você tá bem? — ele perguntou.
— Tô… — E sua mãe? — Tá firme. E a Manuela? Fiquei sabendo de vocês!
Márcio olhou pro chão. — Terminamos. Tem uns meses.
Linda assentiu. Olhou de volta pra rua.
— Nunca mais passou pela árvore do pátio, né?
Márcio sorriu, sem mostrar os dentes.
— Passo sempre que vou visitar minha mãe. A árvore ainda tá lá. Mas parece menor.
— Não é ela que ficou menor — disse Linda. — Foi a gente que cresceu.
Márcio ficou em silêncio. Ela também. Até que Linda virou o corpo por completo, olhou pra ele com aquele olhar que só ela sabia fazer:
— Você já teve a sensação de que… o tempo não leva tudo?
— Já. — Eu também.
Márcio respirou fundo. — Eu tenho que ir. O pessoal tá esperando na van da empresa.
Ela assentiu. — Eu sei.
Ele se virou. Deu dois passos. Parou. Olhou por cima do ombro.
— Eu ainda sonho com Água Morna, sabia?
— Eu também.
E antes de ir, ele soltou:
— Se um dia quiser tomar um café… — Eu topo.
Márcio sorriu. E foi.
Linda ficou ali, com o coração batendo fora do compasso. Como se Água Morna ainda morasse dentro dela. Como se tivesse algo pra dizer — mas a voz não saísse.
Ela respirou fundo. Estava confusa.
Márcio, já há alguns metros, parou. Virou-se. Seus olhos encontraram os de Linda. Aflitos.
E então, como se algo maior que os dois guiasse o instante — ele correu. Ela também.
O tempo ali se dissolveu. Tudo se tornou agora.
Linda não via mais nada — só os olhos de Márcio se aproximando. O corpo vibrava no toque iminente. A alma, exposta, nua, pulsando.
Eles se encontraram. Se abraçaram. Se beijaram. Se fundiram. Como mercúrio.
Ali, juntos, debaixo da chuva de Juiz de Fora, começaram uma jornada sem limites — sem julgamentos — e, finalmente, sem precisar olhar para trás.
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