Filho, você não gostaria de descer com a Mamãe?

Elias era um homem atípico. Seu gosto pela sombra, pela escuridão e pela melancolia o tornara alguém bastante reservado. Vivia em seu apartamento, onde se sentia verdadeiramente em paz.

A estética do apartamento acompanhava suas preferências: paredes escuras e quadros de atmosfera sombria. Elias estava acostumado a permanecer no escuro. Gostava de deixar a mente orbitar ao redor de si mesma e afirmava que, com essa prática, conseguia apaziguar seus pensamentos turbulentos.

Era noite de sexta-feira. Elias estava de folga do trabalho, deitado no sofá, onde normalmente dormia. Permanecia no escuro quando, subitamente, ouviu algo que o fez sentir a alma sair do corpo e voltar.

— Filho, é a mãe! Quanta saudade!

Elias franziu o cenho. Era a voz de sua mãe. Mas ela se fora. Como aquilo seria possível?

— Filho, eu entendo que seja difícil para você. Mas a mãe está aqui. Precisava ver você, querido.

— Mãe! — A voz de Elias saiu mais baixa que o normal, carregada de vulnerabilidade.

— Eu sei que isso parece estranho, e de fato é, mas a mãe deu um jeitinho. Relaxa!

— Mãe, eu… preciso te ver. Sinto tanto a sua falta!

Elias pegou o celular e acendeu a luz do aparelho. Um silêncio perturbador invadiu a sala naquele instante.

— Mãe… cadê você?

Nada. Era como se nada tivesse acontecido.

Elias apagou a luz do celular e, naquele exato instante…

— Filho, não é interessante que você acenda a luz. Tire esse aparelho de perto de você, por favor.

— Sim, mãe. Me perdoa?

Elias empurrou o aparelho para longe, para dentro da escuridão. Nesse momento, sentiu algo afundar o sofá abaixo de seus pés. Um peso. Algo sólido, que tornava aquela experiência ainda mais bizarra.

Confuso, procurou não se mexer. Apesar de tudo, resolveu interagir.

— Mãe, como estão os outros?

— Estão todos aqui, meu amor, felizes com o homem que você se tornou. E fizeram questão de que eu viesse te avisar.

— Avisar? Do que você está falando, mãe?

— Uma catástrofe. A energia elétrica deixará de ser algo com que você poderá contar. E veja… nada de cooktop, nada de banhos quentinhos, que você ama tanto! Nada de geladeira… e nada de banda larga.

Ela continuou:

— Eu não sei se você suportaria, filho.

— Filho, você não gostaria de descer com a mamãe?

Ao ouvir aquilo, Elias sentiu como se algo se rompesse na própria realidade. Banda larga definitivamente não era uma expressão que sua mãe usaria.

Um suor espesso cobriu seu corpo. Sentiu o impulso de se levantar e acender as luzes.

Mas, no instante em que tentou se erguer, sentiu mãos — gélidas mãos — agarrando seu pescoço.

Cuidado. Coisas podem se passar por aqueles que já se foram.

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