Aquilo que ficou nas sombras
É uma sexta-feira como outra qualquer — e Natan Tavares Giacconi aguarda o ônibus da empresa com certa ansiedade… É seu último dia de trabalho antes das férias.
Uma igreja atrás dele recebe fiéis, e Natan, “observador como seu avô” — palavras de sua falecida mãe —, parece conseguir extrair os incômodos, dores e melancolias que cada um traz para dentro daquele templo religioso.
Imerso naquela loucura de sentir o que os outros sentem, Natan ouve uma buzina alta, leva um susto — olha para trás e vê o ônibus da empresa esperando por ele.
Sua alma parece retornar para o corpo. Então, sobe no ônibus e se ajeita na terceira poltrona, junto à janela, do mesmo lado do motorista.
O ônibus então se move… transita pelas entranhas de Juiz de Fora, coletando trabalhadores que parecem não morar em determinados locais, mas sim se esconder de algo inexplicável.
Após cerca de trinta minutos subindo, descendo, virando à esquerda e à direita, Natan, sem saber o porquê, resolve abrir a cortina da janela… Talvez queira ver onde está.
O que ele presencia no exato momento da abertura da cortina o faz endireitar o corpo na poltrona. Um aglomerado de lojas abandonadas surge ao lado da estrada.
Não há portas nas entradas do ambiente, as janelas são apenas vãos vazios, não há qualquer sinal de atividade humana. Apenas concreto, pichações e sombras. Quando o ônibus faz a curva seguinte, o lugar desaparece.
Mas a sensação de tê-lo visto não. Durante todo aquele dia de trabalho, Natan se pega pensando no ambiente sombrio.
“Que lugar é aquele? Sinto que… preciso entender. Estou entrando de férias… vou pegar meu carro e ir até aquele lugar. Preciso fazer isso para que o lugar pare de habitar minha mente.”
As oito horas de serviço daquela sexta-feira insistem em arrastar-se pelo tempo com uma suavidade peculiar. Natan, com isso, sente-se ainda mais ansioso — olha para o relógio de tempo em tempo, fazendo aquela sexta-feira parecer interminável.
Na volta para casa, Natan decide que irá tirar uma foto do lugar intrigante e se senta do lado oposto ao do motorista dessa vez. Segurando-se para não adormecer, ele coloca fones de ouvido e busca ouvir algo que o mantenha acordado.
Ao perceber que o ônibus se aproxima do local, Natan tira os fones dos ouvidos e se prepara na poltrona. Com o celular nas mãos e a câmera ligada, ele fica atento. O veículo está próximo do lugar, e o celular de Natan está colado ao vidro da janela, pronto para disparar. Dessa vez, ele passará exatamente ao lado dos escombros.
Natan sente-se incomodado, prevendo que a captura não dará certo. O veículo está rápido demais e, de fato, passa tão rápido e tão próximo do local que a foto sai distorcida… impossibilitando-o de extrair qualquer coisa daquela imagem decadente.
Em casa, ele toma seu banho, bebe um chá de frutas vermelhas e senta-se à mesa para escrever.
Natan costuma escrever para um site particular, que ele chama de darkholesun.com.
Ali, ele publica histórias diversas — terror, temas psicológicos e sombrios, tudo aquilo que lhe chega à mente e que ele consegue transferir para dentro do seu notebook particular.
Naquela noite, ele alimenta uma obra cyberpunk, que o faz escrever até por volta das três horas da manhã. Então para… e vai se deitar.
Às nove horas da manhã de sábado, Natan acorda assustado, debatendo-se — um pesadelo horrível o assombrara durante a noite.
Ele se levanta, vai ao banheiro, toma água, prepara um café e sente, naquele momento, que está de férias. Para Natan, aquele é o momento perfeito para descansar. Desde que começou a escrever, sente-se tão envolvido com a atividade que conclui, naquele instante, que precisa verdadeiramente dar um tempo.
Da sacada do seu apartamento, olhando para o céu, identifica em um agrupamento de nuvens algo que o conecta de forma inexplicável com a construção abandonada, aquela que tanto o assombra.
Ele abandona a sacada e entra — pega o celular e começa a observar a foto… aquela tirada do ônibus na volta da empresa, na noite passada.
Olhando a foto, Natan se perde, identifica vultos que não consegue explicar. A imagem, embora apenas um borrão, parece atraí-lo. Após sentir-se quase hipnotizado olhando a imagem no celular, decide que, na manhã de segunda-feira, irá de carro até o local.
O final de semana passa. Natan recebe a visita de uns amigos no sábado à noite. Eles comem, bebem e jogam conversa fora… No domingo, Natan almoça fora, cochila à tarde e, já à noite, sente-se incomodado pensando na construção abandonada.
Sem muito o que fazer num domingo à noite, Natan se deita e busca adormecer, pois, pela manhã, irá acabar com aquela sensação estranha… Visitará o local e, com isso, acredita que a sensação de incômodo passará.
Na segunda-feira pela manhã, Natan é despertado pelo celular às sete horas.
Ele prepara seu café, pão e manteiga e desce para a garagem, onde pega seu carro, Érebos, para seguir até o local. Por volta das sete e quarenta e cinco, deixa o condomínio e parte em direção à zona oeste da cidade.
Após cerca de vinte e cinco minutos dirigindo, Natan chega ao local… Procura um lugar para estacionar e encontra um terreno baldio, onde estaciona seu carro e salta dele levando consigo apenas uma pequena lanterna.
Já diante daquela construção que tanto chama sua atenção, Natan acende a lanterna e ilumina uma das várias entradas localizadas à frente do prédio decadente. Entra pela mais estreita e sente um arrepio na espinha — procura ignorá-lo, precisa entender.
O telhado do ambiente está deteriorado. Escombros, telhas, montes de areia — uma chaleira de alumínio e muitas latas com manchas de queimado… Um odor metálico e cítrico o faz espirrar.
Natan olha adiante e o que vê lhe causa uma estranheza bizarra — uma criança o encara.
Olhos negros, pele branquinha, testa grande, lábios vermelhos e, na bochecha, um hexágono com uma serpente no interior.
— Por que você demorou tanto?
O olhar da criança parece julgar Natan por algo de que ele mesmo não se dá conta.
— Eu demorei? Como assim? Do que você está falando?
— A porta não pode ficar aberta por tanto tempo.
— De que porta estamos falando?
— Foram eles, né?
— Eles? Quem são eles? Você… você está me confundindo!
— Com certeza eles devem estar por trás disso.
— Você deve estar me confundindo, eu não sei quem você acha que eu sou.
A criança tomba a cabeça e parece intensificar o olhar — seu olhar parece enxergar em Natan coisas que o próprio Natan não faz ideia de que guarda em si.
— Sim, você não é mais.
— Como assim? Me explica isso melhor? Você está me deixando confuso!
A pequena criança se afasta até alcançar uma sombra — uma região desprovida de luz — e simplesmente… desaparece.
— Ei, fala comigo! Onde você vai?
Natan se adianta e procura ver o garoto de novo.
Conclui que o lugar está completamente vazio. Sente-se novamente arrepiado.
“O que foi aquilo? As coisas que o menino me disse…
Ele tinha uma espécie de tatuagem na bochecha — um hexágono com uma serpente no interior. Muito estranho tudo isso!
Ele era um garoto que aparentava uns seis aninhos, mas falava com uma clareza perturbadora.
Eu preciso sair daqui — me sinto enjoado.”
Natan se adianta, anda com firmeza, com propósito, precisa sair do local… Ao passar por uma entrada, acessa outra região dentro do ambiente, onde vê animais mortos. Um cheiro insuportável o faz correr. Ele corre por dentro do lugar, sente sua respiração ofegante, sente-se ansioso…
Mas, felizmente, identifica a entrada por onde entrou, a mais estreita.
Ele sai sem olhar para trás — vai até onde deixou seu carro. Entra nele e acelera o quanto pode para ficar o mais distante possível daquele lugar.
Natan fica com a sensação de que o lugar tentou acuá-lo.
Não faz sentido aquela passagem que o levou aos animais mortos. Ele não entende como ela pôde surgir diante dele…
“Uma criança maltrapilha, suja, falando como adulto e… que acabou desaparecendo nas sombras.”
Natan não se sente bem, dirige o mais rápido que pode para casa…
Ao chegar, corre até o espelho do banheiro e se vê mais pálido e cansado que o normal.
O estômago embrulhando leva Natan a vomitar no vaso do banheiro.
Ele se joga no sofá e acaba adormecendo…
Por volta das quinze e trinta, acorda, se levanta e decide que dará uma volta pelas ruas, a pé… Quer arejar a mente e gosta de fazê-lo caminhando.
No centro da cidade, Natan observa as pessoas, sente o acaso caminhando ao lado de várias delas.
Observa as construções. Juiz de Fora é uma cidade ainda com muitas delas do século passado.
Na rua Francisco Bernardino, Natan observa o prédio da praça da estação como quem despe o monumento histórico.
De súbito, vê um garoto que caminha à sua frente. Pensa no garoto da construção.
Corre para alcançar o menino — o garoto percebe que um homem o está seguindo e corre também.
Naquele momento, Natan está insano, correndo feito um lobo atrás de sua caça. O garoto, de alguma forma, consegue se desvencilhar de Natan e desaparecer. Como uma presa que escapa do predador.
“O que foi isso? Por onde ele foi? Era ele, tenho certeza de que se trata do mesmo garoto.
Como ele pode ter sumido? Estava logo à minha frente!”
Natan entra pela rua Fonseca Hermes, rua onde viveu sua infância e onde novamente vê o garoto, contudo, agora acompanhado de um homem e uma mulher que aparentam ser seus pais.
O pequeno passa por Natan, encarando-o com um sorriso sarcástico no rosto e bagunçando ainda mais sua cabeça.
“Acho que estou enlouquecendo, aquele não pode ser o garoto da construção… Nada parece fazer sentido, preciso voltar para casa.”
De volta à sua casa, Natan se alimenta e pensa em assistir a uma série ou a um filme.
Arruma a cozinha, varre a casa e vai para o sofá. No momento em que pega o tablet para começar a buscar algo para ver, sua irmã telefona.
— Olá, mana, boa noite! O que a faz me ligar a essa hora da noite?
— Mano, meu querido, que saudade! Você está bem? Fala pra mim!
— Sim, estou, querida. E você? Emanuel, como vai?
— Estamos todos bem. Preciso de uma ajuda sua, mano!
— Diga, no que posso ajudar?
— Preciso muito da escritura do apartamento da Vila.
— Hum… Sim, acho que consigo te ajudar. Acredito que esteja aqui em casa. Vou vasculhar umas gavetas e, encontrando, te informo.
— Poxa! Muito obrigada! Fico no aguardo. Fica com Deus.
— Você também. Vou ver agora aqui e, encontrando, te ligo.
Natan desliga o aparelho, joga-o no sofá e começa a vasculhar as gavetas do home.
Olha uma e nada; na segunda, também não. Na terceira, encontra uma sacola velha esverdeada. Percebe que uma série de documentos antigos está dentro dela.
Leva a sacola para o sofá e lá vai observando cada documento. Precisa encontrar a escritura do apartamento da Vila. Após cerca de trinta minutos olhando papéis, Natan encontra a escritura que sua irmã tanto queria.
Ele abre a papelada castigada pelo tempo e, após folhear umas três páginas, engole seco.
O tempo ao seu redor parece desacelerar. Natan solta os papéis sobre o sofá, estarrecido com o que vê.
Em marca-d’água, ao fundo de uma das páginas da escritura do apartamento da Vila, está o hexágono com a serpente dentro, exatamente como ele viu na bochecha do menino da construção.
Aquilo não pode ser real. Natan fecha o documento, sua mente gira… Natan se desespera.
A frase “você não é mais”, dita pelo garoto, não sai mais de sua mente…
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